''Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro.''
Sigmund Freud

terça-feira, 19 de maio de 2015

O Plantão psicológico e a triagem

O plantão psicológico consiste em uma intervenção psicológica que procura acolher o sujeito na urgência de sua necessidade, ajudando-o a lidar com seu sofrimento. É uma prática inspirada no atendimento clínico breve, fora dos moldes dos consultórios. O objetivo é o atendimento à demanda emergencial, buscando facilitar que o sujeito clarifique a natureza de seu sofrimento. O profissional se disponibiliza para encontrar-se com o não planejado (BARROS, 2008).
O Plantão, de imediato, ofereceu-se para mim como um espaço privilegiado de escuta do sofrimento humano. Nesse tipo de atendimento, não se trata de fazer-se uma triagem com intuito de encaminhamento dos pacientes pra um trabalho de psicodiagnóstico e posterior psicoterapia. O Plantão é já um atendimento psicológico no qual o conselheiro se debruça sobre a narração da história do paciente com propósito de, perpassando queixas, deixar aflorar uma demanda da existência. As queixas estão no âmbito do manifesto, constituindo-se no que aparece e emerge na fala; já a demanda é latente, situando-se no âmbito do velado, urgindo desvelamento por uma compreensão testemunhada. (ALMEIDA APUD CRISTINA, 2010, p. 131).

Ou seja, o plantão consiste em ficar pronto para a demanda emergencial que chegar ao atendimento, acolhe-la em seu sofrimento, na medida do possível. Além dessa função, o plantão atende a outra necessidade, a de triagem. Através do plantão, é possível dividir e melhor encaminhar as demandas que chegam.
O que podemos dizer sobre a relação da triagem tradicional com o plantão psicológico? É evidente a diferença entre ambos, a ruptura marcante está na relação entre o cliente e o psicólogo. Na triagem, o profissional busca informações que permitam recomendar o melhor encaminhamento possível. Faz- se necessária à coleta de alguns dados, cabendo ao cliente ofertar o que lhe é pedido. Em se tratando da triagem interventiva, essa postura muda, passando a dar importância à relação terapeuta e cliente, buscando sentidos e abrindo caminhos de compreensão para a experiência trazida. Nesse caso, a triagem se assemelha ao plantão.
Chammas (2009), afirma, contudo, que diferentemente da triagem, o plantão não tem o propósito de receber e distribuir uma clientela, mas de ser o espaço de acolhimento. Cristina (2010) propõe que o plantão não se pretende uma técnica, como se vê na triagem, mas uma disposição ao outro, sem uma exigência pré-estabelecida no que diz respeito a informações sobre o paciente.

As entrevistas do Plantão não visam uma continuidade do atendimento segundo o modelo psicoterápico; em cada uma, focam-se os desdobramentos possíveis para as questões patenteadas na elucidação de demandas, considerando-se, no diálogo com a pessoa, intervenções de práticas especializadas ou populares, contando com recursos institucionais, comunitários ou familiares. Assim, paciente e conselheiro examinam e apreciam aquilo que melhor responde, nesse momento, aos pedidos manifestados na ocasião. (ALMEIDA APUD CRISTINA, 2010, p.131).

      A princípio, observar a união de ambos parece resultar em uma possibilidade, pois, enquanto temos o plantão, atendendo a escuta e emergência do sujeito, também temos a favor o trabalho da triagem, que ajuda no melhor encaminhamento sem, no entanto, se abster da empatia. Porém, apontando um olhar mais detido, verificamos o problema em questão, a impessoalidade do atendimento. Apesar do primeiro contato do plantão ser satisfatório, o que se dirá do cliente que se apegar a esse primeiro momento e negar a continuar com outro profissional?
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CHAVESA, Priscila Barros; HENRIQUES, Wilma Magaldi. PLANTÃO PSICOLÓGICO: De frente com o inesperado. Psicol. Argum, São Paulo, n., p.151-157, 04 jun. 2008.
ROCHA, Maria Cristina. PLANTÃO PSICOLÓGICO E TRIAGEM: APROXIMAÇÕES E DISTANCIAMENTOS.  Rev. NUFEN [online]. 2011, vol.3, n.1, pp. 119-134. ISSN 2175-2591.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Observações sobre a doença de Parkinson

      A Doença de Parkinson é uma patologia neurodegenerativa que foi mencionada pela primeira vez por James Parkinson, considerando-a como ‘’paralisia agitante’’, onde se trata de uma deficiência no sistema nervoso central em relação ao neurotransmissor da dopamina, responsável por ações no sistema motor. Essa doença atinge a todas as classes, ocorrendo com maior frequência em homens, manifestando-se por volta dos 55 a 65 anos, no entanto pode ser classificada como precoce quando ocorre em pessoas com menos de 40 anos (STEIDL; ZIEGLER; FERREIRA, 2007).
            O Parkinson trata-se de alterações funcionais relacionadas ao controle motor onde manifesta-se por meio de tremores, rigidez, bracidinesia e alterações posturais. O diagnóstico é realizado através da exclusão dos sintomas, sendo utilizado exames para que se confirme que o paciente não sofre de outra doença cerebral (STEIDL; ZIEGLER; FERREIRA, 2007).
            As principais características sintomáticas do Parkinson consistem: na rigidez que ocorre devido a inflexibilidade dos músculos, estando sempre presente com a tendência de aumentar ao longo da doença; no tremor, que, além de afetar os membros superiores e inferiores, também poderá atingir a cabeça, pescoço, face e mandíbula; e na bracidinesia que trata-se de um retardo ao iniciar movimentos, em razão da demora do cérebro em enviar as instruções para as partes do corpo, o que origina a deambulação (o andar sem definição). Também podemos observar uma alteração na postura corporal do sujeito, onde pode comprometer as vias respiratórias em razão da perda de flexibilidade da musculatura respiratória (STEIDL; ZIEGLER; FERREIRA, 2007).
Os comprometimentos gerados por essa doença acabam provocando o isolamento do sujeito, fator que leva a tendência em desenvolver a depressão. Por se tratar de uma doença incurável, o tratamento visa controlar os sintomas e atrasar sua progressão. Para tanto, é de grande importância que o paciente seja assistido por vários profissionais (STEIDL; ZIEGLER; FERREIRA, 2007).
O acompanhamento farmacológico visará controlar os níveis de dopamina no cérebro, contudo também há a possibilidade do tratamento cirúrgico, recomendado em casos onde o paciente não está obtendo resposta do acompanhamento farmacológico. Contudo, o Parkinson continua sendo uma doença progressiva, o tratamento constituirá em uma busca de retarda seu avanço e proporcionar maior qualidade de vida (STEIDL; ZIEGLER; FERREIRA, 2007).
Um importante aliado no tratamento é a fisioterapia, que auxilia na reeducação e manutenção da atividade física, por lidar com a principal área prejudicada com a evolução da doença. O tratamento sobre as atividades motoras podem oferecer ao paciente uma melhora em sua mobilidade, lidando principalmente com os músculos atrofiados e enrijecidos pela doença (STEIDL; ZIEGLER; FERREIRA, 2007).
Outro aliado no combate ao Parkinson é a psicologia, considerando a dimensão psicológica que a doença abarca. Os fatores emocionais estão bastante envolvidos, principalmente em relação ao forte trauma que muitas vezes é o diagnóstico. O Parkinson impõe ao sujeito rever os seus conceitos, tendo de se readaptar e reaprender aspectos simples no seu dia-a-dia, sendo forçado a encarar o psiquicamente doloroso progresso de sua doença. Além disso, ainda em nível econômico e social o sujeito também se vê prejudicado, por estar incapacitado para algumas atividades, acaba por prejudicar sua produção de trabalho, bem como a tendência ao isolamento social (STEIDL; ZIEGLER; FERREIRA, 2007).
Vemos a importância do sujeito possuir um forte respaldo na psicologia, para que assim possa encontrar recursos para enfrentar e elaborar essa nova situação que se apresenta. Ainda não se tem certeza da causa da doença, se é hereditária ou não, contudo, há alguns estudos que apontam a relevância do aspecto emocional na vida do sujeito, onde experiências traumáticas, sentimentos de angústia ou ansiedade, contribuiriam para a produção de certa substancia (salsolinol) responsável por destruir células nervosas (VALE, 2009).
Pensar nas possíveis causas dessa doença pode ser mais uma ferramenta no combate, principalmente se considerado a nível de políticas públicas. Apesar das expectativas desanimadoras que o Parkinson oferece, atualmente, com os mais variados tipos de tratamentos que são oferecidos, é possível viver com qualidade.

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STEIDL, Eduardo Matias dos Santos; ZIEGLER, Juliana Ramos; FERREIRA, Fernanda Vargas. DOENÇA DE PARKINSON: REVISÃO BIBLIOGRÁFICA. Disc. Scientia.: Série: Ciências da Saúde, Santa Maria, v. 8, n. 1, p.115-129, 2007.

VALE, Natalia do. Dor emocional é a principal causa do Mal de Parkinson. 2009. Disponível em: <http://www.minhavida.com.br/saude/materias/10236-dor-emocional-e-a-principal-causa-do-mal-de-parkinson>. Acesso em: maio 2015.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

A libido

A teoria da libido consiste em um dos pilares básicos da psicanálise, sendo trabalhada por Freud ao longo de muitos anos, mas não foi ele o responsável pela criação do termo, este termo surgiu com o pesquisador Moll, em 1898 e daí então passou a ser usado por Freud para atribuir ao desejo sexual. Através da citação de Alfredo (2004) temos uma forma simples do que Freud atribuía à libido: ''Freud afirma a propriedade específica da libido em se referir a um potencial de desejo sexual e não outro’' (CARVALHO, 2004, p. 01).
Acompanhando o surgimento dessa teoria veio uma das mais importantes descobertas feitas por Freud, a de que, primeiro, o psiquismo humano forma-se a partir de conflitos que desde o nascimento confrontam os instintos sexuais de um lado e a realidade de outro, sendo essa força dos instintos sexuais, a Libido, e segundo que a sexualidade não é algo própria da adolescência, e sim que já faz parte da estrutura psíquica do bebê.
O surgimento dessa teoria na psicanálise gerou conflitos e repulsa, pois com ela, Freud assegurou que crianças também possuíam uma sexualidade e tal afirmação, na época em que Freud se encontrava, entre fins do século XIX, foi recebida como algo ultrajante pela sociedade. Tinha-se que a sexualidade só viria a surgir posteriormente, na adolescência e que bebês e crianças pequenas eram tidos como puras e inocentes e com essa nova ideia sobre a infância, Freud atraiu maus olhares (CUNHA, 2008). 
Porém, ao contrário do que os outros entendiam, Freud quis dizer que na verdade as crianças também sentiam prazer, como por exemplo, ao sugar o leite do seio materno, haveria, portanto prazer nesse ato e Freud postulou que esse prazer seria da mesma natureza que o prazer sexual do adulto. Para esse prazer Freud designou o termo Libido e considerou-o como uma energia que move o humano na direção do prazer, independentemente de ser uma criança ou um homem (CUNHA, 2008).
            A libido do ponto de vista conceitual e em um sentido desenvolvimentista viria então a possuir ou obedecer a três fases de evolução onde seria amalgamada numa interação entre o psíquico e o orgânico do sujeito, determinando a construção da mente normal ou patológica. As fases da libido consistem nos momentos de maior atenuação da libido em determinadas áreas do corpo no desenvolvimento infantil, as zonas erógenas (partes do corpo que são excitadas com facilidade), zonas que se tornam pontos de vazão à energia sexual (CUNHA, 2008).
Ou seja, há fases de expressão da libido onde genericamente podemos resumir: a fase Oral ocorre quando a vivência prazerosa da criança se vê pela via da boca; em seguida temos a fase Anal, onde a atividade excretória assume um papel importante na vida da criança, e então posteriormente atinge a fase fálica onde a relevância para criança passa a ser seus genitais.
Cada fase de expressão da libido é importante no desenvolvimento, dependendo de como essas vivências irão ocorrer, isso irá ajudar na definição da personalidade do sujeito ou prejudicá-lo, criando algum resíduo fixado da libido em determinada fase mal desenvolvida, prejudicando o sujeito posteriormente na fase adulta.
 Esse tópico tem o objetivo de buscar expor resumidamente uma aproximação sobre o conceito de libido para que seja possível formarmos uma ideia básica do que se trata, lembrando que o universo que abarca a libido perpassa quase todas as teorias psicanalíticas e não se restringe aos conceitos freudianos retratados aqui.
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CUNHA, Marcus Vinícius da. Freud: psicanálise e educação. , 2008. Disponível em:<http://www.acervodigital.unesp.br/bitstream/123456789/140/3/01d08t01.pdf>. Acesso em: 03 set. 2012.

CARVALHO, Luís Alfredo Vidal de. O conceito de libido em psicanálise, 2004. Disponível em: <http://www.cos.ufrj.br/~alfredo/classnotes/LUIS%20ALFREDO%20LIBIDO.pdf>. Acesso em: 27 ago. 2012.