''Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro.''
Sigmund Freud

terça-feira, 7 de abril de 2015

O Sintoma, seu conceito e sua formação

O que é o Sintoma? Do ponto de vista psicanalítico, o sintoma trata-se, na verdade, de uma manifestação da libido (podemos intitular também de afeto) represada, impedida de encontrar satisfação na realidade e que diante desse impedimento busca através de novos caminhos satisfazer esse desejo.
Um sintoma seria então uma satisfação substitutiva, deformada pela repressão, para com o desejo original, uma vez que não é possível, motivado pelas forças repressoras ter acesso ao objeto desejado (perdido); com isso e diante dos obstáculos enfrentados a libido encontra formas distorcidas e perturbadas visando atingir suas satisfações inconscientes, porém como se trata de uma satisfação de natureza problemática, é sentida pelo sujeito como sofrimento e geradora de desprazer. 
Freud apresenta o sintoma como “um sinal e um substituto de uma satisfação pulsional que permaneceu em estado jacente; [o sintoma] é uma conseqüência do processo de recalcamento” (FREUD apud DIAS, 2006, p.401).
            Percebe-se então, pela construção psicanalítica que o sintoma é um sinal portador de um sentido, ou, em outras palavras, portador de uma linguagem escondida, cifrada, uma fala que vem dizer do sentido de uma dor e angústia que se manifesta no corpo, e chama a atenção para aquilo que quer ser esquecido e deixado de lado pelo Ego.
O sintoma fala mesmo àqueles que não sabem ou que não querem ouvi-lo, ele não diz tudo, mais ainda, esconde o fundo do seu pensamento, mesmo àqueles que querem dar-lhes ouvidos. O próprio portador dessa mensagem ignora seu autor tanto quanto seu destinatário. (NEUTER apud NAKAGAWA, 1999, p.248).

Podemos pensar em um exemplo metafórico do sintoma usando o contexto social: em uma cidade onde a administração pública desvia a verba para fins de corrupção ao invés de investir em educação, cultura e saúde. Esse tipo de ação acaba por prejudicar o social, marginalizando a classe mais pobre, gerando indignação na classe média e mantendo a classe alta intacta. Posteriormente a cidade sofre com a violência e marginalização, como roubos, pichações, e desordem nos hospitais públicos. Podemos definir que esses acontecimentos são sintomas no social, ou seja, são sinais sintomáticos que mostram algo que está errado, mas que é tentado ser ignorado pelo sistema de poder, da mesma forma que acontece com o sintoma na esfera psíquica que se manifesta sinalizando para algo que o eu (o poder central) procura esquecer.
A idéia Freudiana de que os sintomas possuem um sentido é revisitada por Lacan a partir do seu “retorno a Freud” e a partir dos recursos da lingüística estrutural. O sintoma, como mensagem a ser decifrada. O sintoma, portanto, possui uma mensagem ou, sendo então o sintoma o significante de um significado recalcado. (DIAS, 2006). “O sintoma se resolve por inteiro numa análise linguageira, por ser ele mesmo estruturado como uma linguagem, por ser a linguagem cuja fala deve ser libertada” (LACAN apud DIAS, 2006, p 402).
Para Lacan o inconsciente, portanto, o sintoma, seria então estruturado como linguagem. Para Freud, o sintoma nunca seria algo simples, e sim sobre determinado (sobre determinado seria a articulação das cadeias significantes ao se decifrar o sintoma) e isso para Lacan é concebível na estrutura da linguagem.
Partindo dessa idéia a análise seria o processo de deciframento da articulação significante através das cadeias de associação de significantes (DIAS, 2006). O significado é outro significante que junto ao primeiro, continuamente, produz efeito de sentido. Em Dias:

É nos sonhos, nos lapsos do discurso, nas distorções, nas lacunas e  nas  repetições  do  sujeito, assim  como  em  seus  sintomas,  que  temos  que  ler  o traço apagado do significante recalcado, que emerge na linguagem  particular  que  apreende  o  desejo inconsciente e que abriga inadvertidamente um sentido –  o\do  conflito  recalcado  –  determinando  a  maneira pela qual o discurso do sujeito se organiza DIAS, 2006, p.402/403).

Ou seja, é na demanda ao Outro que circula o desejo, escondido e disfarçado através da linguagem, é na forma da fala do sujeito que cabe avaliar a presença do desejo e da verdade nela escondidas. Conclui-se em Lacan que o sintoma é linguagem e através do processo de fala e de interpretação será possível alcançá-lo evocando suas ressonâncias semânticas (DIAS, 2006). Para Dias (2006), o tratamento seria então uma via para ''libertar, pela via significante, a insistência repetitiva que há no sintoma e a verdade que aí se oculta. '' (DIAS, 2006, p.403)
Freud também viu a relação do sintoma relacionado com a angústia. Como elas se relacionam e se complementam a partir do caso Hans percebe que a angustia, essência da fobia, provém não de algo reprimido, mas da própria repressão, no caso, a angústia está na origem e põe o próprio processo de recalcamento em movimento e conseqüentemente a formação de sintomas. (DIAS, 2006)
O caso do pequeno Hans trata-se do caso clinico de um garoto por volta dos seus cinco anos que tinha uma neurose fóbica – “medo de cavalos”. Para Freud, essa neurose tinha a ver com o relacionamento entre os pais e a relação do menino com cada um deles. Então sua preocupação não foi com o medo, mas com aquilo que ele tinha por missão ocultar. O medo de cavalos que Hans desenvolveu foi para exprimir sua angústia materna. Não se tratava então de se ater ao sintoma – “medo de cavalos” – mas do que isso representava: o fato de Hans ter que enfrentar uma ordem de dificuldades não resolvidas entre seus pais.
A angústia seria, portanto a reação a uma situação de perigo, essa reação sinalizaria a presença de um perigo e para fugir dessa situação de perigo é que se criam os sintomas, ''a angústia é a reação a esse perigo e o sintoma é criado para evitar o surgimento do estado de angústia'' (DIAS, 2006, p 401).
Agora que foi possível conceituar, ainda que modestamente, um pouco do que vem a ser o sintoma, procuraremos agora buscar entender sua forma, e para isso vamos contar com a ajuda do estudioso José Rubens Naime (2010) e buscar entender como ocorre a sua formação.
            José Rubens (2010) começa afirmando que precisamos partir do principio que existe um inconsciente e um consciente, ou seja, que a mente humana é dividida e que o sujeito não é uno. E mais: que no inconsciente se desdobram e se acumulam fantasias, desejos, afetos, libidos, pulsões e memórias sem que este acesso seja algo imediato a consciência, se pensarmos a consciência enquanto lugar das manifestações sensórias, as percepções e também a formação do Eu.
Através da leitura teórica psicanalítica, podemos compreender que o processo de auto-repressão que busca controlar as forças do inconsciente termina por gerar e criar mecanismos de defesa cujo objetivo é o de manter o Eu seguro e esses mecanismos acabam por formar um conjunto de material libidinal represado no inconsciente. Porém, quando há uma repressão acentuada por parte dos mecanismos de defesa, essa energia libidinal que deveria fluir para fora acaba por ser reprimida e com isso vindo a perturbar o funcionamento do aparelho psíquico, manifestando-se sob a forma de atos falhos, sonhos e sintomas. Esses sintomas procuram expressar um desejo contido, uma dor ignorada, um afeto contido que não foi posto para fora, falado, expresso no mundo externo, de uma condição psicofísica não reconhecida. (RUBENS, 2010)
Vemos então pelas palavras da Prof.ª Maria das Graças Leite Villela Dias, o que Freud diz a respeito disso: ‘’Destarte, o sintoma é concebido, de início, como a expressão do recalcado. O trauma é a base real do sintoma e o real derradeiro é, em Freud, a castração. ’’ (DIAS, 2006, p.400).
Ou seja, o Sintoma é concebido pela expressão do que foi represado, o trauma que causou essa acentuada repressão de afeto é a base do sintoma e o causador disso é a castração, como já vimos, aquilo que origina a dor, o real da castração, onde nos temos conhecimento dos nossos próprios limites com nós mesmos e com a realidade.
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DIAS, Maria Das Graças Leite Villela. O sintoma: de Freud a Lacan. Psicologia em estudo. Maringá, 01 ago. 2006.

NAKAGAWA, Patricia Yumi. Formação dos sintomas. 2007. Disponível em:
<http://www.palavraescuta.com.br/textos/formacao-dos-sintomas>. Acesso em: 15.ago. 2012.

NAIME, José Rubens. A formação de sintomas em psicanálise (neuroses) – e nas doenças psicossomáticas. 2010. Disponível em: <http://tdmcece.
blogspot.com.br/2010/09/formacao-de-sintomas-em-psicanalise.html>. Acesso em: 21 ago. 2012.

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