O
que é o Sintoma? Do ponto de vista psicanalítico, o sintoma trata-se, na
verdade, de uma manifestação da libido (podemos intitular também de afeto)
represada, impedida de encontrar satisfação na realidade e que diante desse
impedimento busca através de novos caminhos satisfazer esse desejo.
Um
sintoma seria então uma satisfação substitutiva, deformada pela repressão, para
com o desejo original, uma vez que não é possível, motivado pelas forças
repressoras ter acesso ao objeto desejado (perdido); com isso e diante dos
obstáculos enfrentados a libido encontra formas distorcidas e perturbadas
visando atingir suas satisfações inconscientes, porém como se trata de uma
satisfação de natureza problemática, é sentida pelo sujeito como sofrimento e
geradora de desprazer.
Freud
apresenta o sintoma como “um sinal e um substituto de uma satisfação pulsional
que permaneceu em estado jacente; [o sintoma] é uma conseqüência do processo de
recalcamento” (FREUD apud DIAS, 2006, p.401).
Percebe-se então, pela construção
psicanalítica que o sintoma é um sinal portador de um sentido, ou, em outras
palavras, portador de uma linguagem escondida, cifrada, uma fala que vem dizer
do sentido de uma dor e angústia que se manifesta no corpo, e chama a atenção
para aquilo que quer ser esquecido e deixado de lado pelo Ego.
O sintoma fala mesmo àqueles que não sabem ou
que não querem ouvi-lo, ele não diz tudo, mais ainda, esconde o fundo do seu
pensamento, mesmo àqueles que querem dar-lhes ouvidos. O próprio portador dessa
mensagem ignora seu autor tanto quanto seu destinatário. (NEUTER apud NAKAGAWA,
1999, p.248).
Podemos
pensar em um exemplo metafórico do sintoma usando o contexto social: em uma
cidade onde a administração pública desvia a verba para fins de corrupção ao
invés de investir em educação, cultura e saúde. Esse tipo de ação acaba por
prejudicar o social, marginalizando a classe mais pobre, gerando indignação na
classe média e mantendo a classe alta intacta. Posteriormente a cidade sofre
com a violência e marginalização, como roubos, pichações, e desordem nos
hospitais públicos. Podemos definir que esses acontecimentos são sintomas no
social, ou seja, são sinais sintomáticos que mostram algo que está errado, mas
que é tentado ser ignorado pelo sistema de poder, da mesma forma que acontece
com o sintoma na esfera psíquica que se manifesta sinalizando para algo que o
eu (o poder central) procura esquecer.
A
idéia Freudiana de que os sintomas possuem um sentido é revisitada por Lacan a
partir do seu “retorno a Freud” e a partir dos recursos da lingüística
estrutural. O sintoma, como mensagem a ser decifrada. O sintoma, portanto,
possui uma mensagem ou, sendo então o sintoma o significante de um significado
recalcado. (DIAS, 2006). “O sintoma se resolve por inteiro numa análise
linguageira, por ser ele mesmo estruturado como uma linguagem, por ser a
linguagem cuja fala deve ser libertada” (LACAN apud DIAS, 2006, p 402).
Para
Lacan o inconsciente, portanto, o sintoma, seria então estruturado como
linguagem. Para Freud, o sintoma nunca seria algo simples, e sim sobre determinado
(sobre determinado seria a articulação das cadeias significantes ao se decifrar
o sintoma) e isso para Lacan é concebível na estrutura da linguagem.
Partindo
dessa idéia a análise seria o processo de deciframento da articulação
significante através das cadeias de associação de significantes (DIAS, 2006). O
significado é outro significante que junto ao primeiro, continuamente, produz
efeito de sentido. Em Dias:
É nos sonhos, nos lapsos do discurso, nas distorções,
nas lacunas e nas repetições
do sujeito, assim como
em seus sintomas,
que temos que
ler o traço apagado do
significante recalcado, que emerge na linguagem
particular que apreende
o desejo inconsciente e que
abriga inadvertidamente um sentido – o\do conflito
recalcado – determinando
a maneira pela qual o discurso do
sujeito se organiza DIAS, 2006, p.402/403).
Ou
seja, é na demanda ao Outro que circula o desejo, escondido e disfarçado
através da linguagem, é na forma da fala do sujeito que cabe avaliar a presença
do desejo e da verdade nela escondidas. Conclui-se em Lacan que o sintoma é
linguagem e através do processo de fala e de interpretação será possível
alcançá-lo evocando suas ressonâncias semânticas (DIAS, 2006). Para Dias
(2006), o tratamento seria então uma via para ''libertar, pela via
significante, a insistência repetitiva que há no sintoma e a verdade que aí se
oculta. '' (DIAS, 2006, p.403)
Freud
também viu a relação do sintoma relacionado com a angústia. Como elas se
relacionam e se complementam a partir do caso Hans percebe que a angustia,
essência da fobia, provém não de algo reprimido, mas da própria repressão, no
caso, a angústia está na origem e põe o próprio processo de recalcamento em
movimento e conseqüentemente a formação de sintomas. (DIAS, 2006)
O
caso do pequeno Hans trata-se do caso clinico de um garoto por volta dos seus
cinco anos que tinha uma neurose fóbica – “medo de cavalos”. Para Freud, essa
neurose tinha a ver com o relacionamento entre os pais e a relação do menino
com cada um deles. Então sua preocupação não foi com o medo, mas com aquilo que
ele tinha por missão ocultar. O medo de cavalos que Hans desenvolveu foi para
exprimir sua angústia materna. Não se tratava então de se ater ao sintoma –
“medo de cavalos” – mas do que isso representava: o fato de Hans ter que
enfrentar uma ordem de dificuldades não resolvidas entre seus pais.
A
angústia seria, portanto a reação a uma situação de perigo, essa reação
sinalizaria a presença de um perigo e para fugir dessa situação de perigo é que
se criam os sintomas, ''a angústia é a reação a esse perigo e o sintoma é
criado para evitar o surgimento do estado de angústia'' (DIAS, 2006, p 401).
Agora
que foi possível conceituar, ainda que modestamente, um pouco do que vem a ser
o sintoma, procuraremos agora buscar entender sua forma, e para isso vamos
contar com a ajuda do estudioso José Rubens Naime (2010) e buscar entender como
ocorre a sua formação.
José
Rubens (2010) começa afirmando que precisamos partir do principio que existe um
inconsciente e um consciente, ou seja, que a mente humana é dividida e que o
sujeito não é uno. E mais: que no inconsciente se desdobram e se acumulam
fantasias, desejos, afetos, libidos, pulsões e memórias sem que este acesso
seja algo imediato a consciência, se pensarmos a consciência enquanto lugar das
manifestações sensórias, as percepções e também a formação do Eu.
Através
da leitura teórica psicanalítica, podemos compreender que o processo de
auto-repressão que busca controlar as forças do inconsciente termina por gerar
e criar mecanismos de defesa cujo objetivo é o de manter o Eu seguro e esses
mecanismos acabam por formar um conjunto de material libidinal represado no
inconsciente. Porém, quando há uma repressão acentuada por parte dos mecanismos
de defesa, essa energia libidinal que deveria fluir para fora acaba por ser
reprimida e com isso vindo a perturbar o funcionamento do aparelho psíquico,
manifestando-se sob a forma de atos falhos, sonhos e sintomas. Esses sintomas
procuram expressar um desejo contido, uma dor ignorada, um afeto contido que
não foi posto para fora, falado, expresso no mundo externo, de uma condição
psicofísica não reconhecida. (RUBENS, 2010)
Vemos
então pelas palavras da Prof.ª Maria das Graças Leite Villela Dias, o que Freud
diz a respeito disso: ‘’Destarte, o sintoma é concebido, de início, como a
expressão do recalcado. O trauma é a base real do sintoma e o real derradeiro
é, em Freud, a castração. ’’ (DIAS, 2006, p.400).
Ou
seja, o Sintoma é concebido pela expressão do que foi represado, o trauma que
causou essa acentuada repressão de afeto é a base do sintoma e o causador disso
é a castração, como já vimos, aquilo que origina a dor, o real da castração,
onde nos temos conhecimento dos nossos próprios limites com nós mesmos e com a
realidade.
_______________________________________________________________
DIAS, Maria Das
Graças Leite Villela. O sintoma: de Freud a Lacan. Psicologia em estudo.
Maringá, 01 ago. 2006.
NAKAGAWA, Patricia
Yumi. Formação dos sintomas. 2007. Disponível em:
<http://www.palavraescuta.com.br/textos/formacao-dos-sintomas>.
Acesso em: 15.ago. 2012.
NAIME, José Rubens. A
formação de sintomas em psicanálise (neuroses) – e nas doenças psicossomáticas.
2010. Disponível em: <http://tdmcece.
blogspot.com.br/2010/09/formacao-de-sintomas-em-psicanalise.html>.
Acesso em: 21 ago. 2012.
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