''Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro.''
Sigmund Freud

terça-feira, 28 de abril de 2015

Caso clínico ''O homem dos ratos'' (Freud, 1909)

Apresento aqui uma breve resenha do caso clínico do homem dos ratos, um caso de neurose obsessiva acompanhado por Freud, buscarei observar os principais pontos abordados em seu acompanhamento, contudo, lembro que para uma compreensão mais aprofundada da história é indispensável a leitura do caso clínico encontrado em suas obras.
Um jovem apresentou-se a Freud afirmando ter ideias obsessivas que surgem em forma de temores de que aconteça alguma coisa a duas pessoas que muito ama, seu pai e uma dama, na qual tem grande admiração. Essas obsessões se manifestam em impulsos de cortar a própria garganta enquanto se barbeia ou criar proibições em relação a coisas sem importância alguma. Diante disto, Freud impôs uma única condição ao tratamento.

‘’ Dizer tudo que lhe vier à mente, ainda que lhe seja  desagradável, ainda   que lhe pareça insignificante, impertinente e sem sentido.’’ (FREUD, 1909, p.18.)

No decorrer da análise, Freud pode observar que na infância o jovem foi uma criança sob o domínio do componente sexual, o de olhar pessoas nuas. No entanto, justamente a esse desejo, carrega a ideia obsessiva de que sempre que tiver esse pensamento, irá temer que algo muito ruim deverá acontecer.

‘’ Restaurado conforme o seu sentido, o temor obsessivo é este, portanto:’ se tenho o desejo de ver uma mulher nua, meu pai vai morrer.’’’ (FREUD, 1909, p.23.)

Esse tipo de atitude começou a dar origem a impulsos para prevenir qualquer desgraça que possa acontecer. Ocorre que há um instinto erótico e uma revolta contra ele, ou seja, um desejo que vêm acompanhado por um temor que a ele se impõe. Nisso também observa Freud (1909), há uma espécie de delírio ao imaginar que os pais saberiam dos seus desejos.
Vemos então que essa neurose infantil traz uma questão incomum ao considerar que o pai vai morrer se o filho tiver um desejo sensual. O que se pode por em questão é que durante sua infância aconteceram vivências e conflitos que geraram repressões que sucumbiram a amnésia, deixando para trás esse temor obsessivo.
Em se tratando do afeto e sua recriminação, não é, portanto, sem sentido. Há sim a culpa, ela não é injustificada, acontece que ela ligou-se a outro conteúdo, um inconsciente, ou seja, esse conteúdo ideativo chegou a esse lugar por um nexo errado. Pensando dessa forma, Freud (1909) traz a indagação de como poderia alcançar o efeito curativo a informação de que a sua recriminação é justificada? A conclusão é que não é esta informação que causará esse efeito, mas sim a descoberta deste temor que se liga a repressão.
No decorrer da análise, pode-se alcançar que esse medo corresponde a um desejo antigo, então reprimido e por isso, justamente o oposto do que se trata. Ou seja, apesar de alegar o temor pela morte e desgraça do seu pai, na realidade o conteúdo inconsciente de suas manifestações traz o real desejo de que isso se realize. Apesar do intenso amor que nutria por seu pai, este grande amor é condição para o ódio reprimido. A natureza de sua hostilidade para com o pai vem da origem de seus apetites sexuais onde percebeu ele como estorvo aos seus desejos. Esse desejo pode ter surgido em um momento onde não amasse o pai mais que o seu desejo sensual, não sendo capaz de tornar clara essa decisão.
Apesar disso, ele não deve se considerar responsável por todas essas atitudes e pensamentos pois todos esses impulsos reprováveis procedem da infância, derivam do caráter infantil que existe no inconsciente, onde a responsabilidade ética não tem validez para a criança. Freud (1909) observa então que é no luto do pai a principal fonte da doença.
Sobre as ideias obsessivas, Freud (1909) traz que são pensamentos desprovidos de motivo ou de sentido, tal como os sonhos, o problema principal é dar sentido e lugar na vida psíquica de modo que torne-se compreensível. Essas ideias obsessivas por mais absurdas que pareçam, podem ser compreendidas se analisadas adequadamente, sendo então situados estes aspectos com as vivencias do paciente como por exemplo, quando surgiu e em quais circunstancias ela costuma aparecer e se repetir. Descobrindo o nexo da ideia obsessiva e de vivência do sujeito, será mais fácil a compreensão de suas formações patológicas.
No caso do rapaz, constata-se uma luta entre o amor e ódio direcionado a mesma pessoa onde essa luta se representa em manifestações no ato obsessivo. Na neurose obsessiva, diferentemente da histeria, onde busca-se um compromisso em comum que contemple os dois opostos em uma só representação, na obsessão os opostos são satisfeitos isoladamente.
Outro aspecto diferente entre a histeria e a neurose obsessiva é que na histeria as razões da enfermidade sucumbem à amnésia, amnésia esta fruto da repressão. Na neurose obsessiva ocorre de outra forma, assim como a histeria, os fatores infantis também podem ter sido sucumbidos a amnésia, porém os fatos recentes da enfermidade não, continuando preservados na memória.  A repressão agiu através de outro mecanismo, em vez de esquecer o trauma, retirou-lhe o investimento afetivo, restando na consciência apenas um conteúdo sem atribuição significativa ao fato.
Retomando agora a história do rapaz e do que levou a seu ponto chave com seu pai. Em sua infância teve o conhecimento de que seu pai era apaixonado por outra mulher que não sua mãe, porém acabou por casar-se com ela devido ao seu status social, essa atitude acabou por impressionar por demais o filho.
Devido a essa impressão acabou por reproduzir certos acometimentos semelhantes. Após a morte de seu pai, sua mãe lhe conta sobre planos futuros de arrumar um casamento que lhe abra muitas portas e atraia muito prestígio e oportunidade, o que lhe acomete o conflito em permanecer fiel ao amor de uma garota pobre que amava ou repetir os passos do pai.
O conflito, do seu amor e a vontade do pai, no entanto, solucionou-se através de um adoecimento onde sua enfermidade tornou-se incapacitante para o trabalho e estudos, temos então esta pertinente colocação de Freud (1909):

‘’ Mas o resultado da doença já estava na intenção dela; o que parece ser consequência é, na realidade, a causa, o motivo do adoecimento’’. (FREUD, 1909, p.60.)

Ainda em relação ao seu verdadeiro amor, o pai se interpôs, pouco antes de sua morte, afirmando esta atitude ser imprudente e ridícula.
Sua questão conflituosa com o pai vai além do que se trata de um comportamento peculiar, no que diz respeito a masturbação. Sua prática era realizada em ocasiões extraordinárias, onde considerasse situações belas e enaltecedoras, no entanto o que realmente acontecia era a ação de um ato proibido em um momento inadequado, sendo um desafio a ordem, tal como seus desejos eram em relação aos de seu pai.
Outro habito incomum que nutriu durante algum tempo consistia em estudar durante horas pela madrugada, indo em seguida até a porta observar se o seu pai estava ali, como que voltasse a vida, para então vê-lo fazendo algo que gostava, como estudar. No entanto, quando retornava ao quarto, postava-se frente ao espelho com o pênis para fora, coisa que com certeza desagradaria o pai. Portanto vemos assim em um mesmo ato, duas ações opostas, uma a fim de agradar, outra com o intuito de irritar.
Agora voltemo-nos para a ocasião chave que levou o rapaz a buscar ajuda. Ele relata que durante um período serviu o serviço militar e que lá esforçava-se por mostrar aos oficiais de que sabia lidar com as dificuldades lá apresentadas. Porém em uma das marchas, perdeu sua pincenê (um modelo de óculos), deixando o para trás para não atrapalhar o progresso, posteriormente encomendando um outro de Viena.
Durante seu descanso, tomou lugar entre dois oficiais, sendo um deles um capitão tcheco que relatou alguns métodos de castigo, um em especial que o impressionou bastante, onde é colocado um recipiente cheio de ratos virado sobre o anus do condenado, eles eram atiçados até perfurarem o anus do sujeito. Ficou muito afetado com a ideia de que isso sucederia a uma pessoa muito cara a ele, como o seu pai ou sua amada.
Na noite seguinte recebeu sua encomenda de Viena, porém descobriu que ficara em dívida com um tenente que teria pago o seu reembolso, e que devia pagar-lhe o devido valor. Sobre o pretexto dessa dívida ocorreu-lhe que a fantasia do rato tornar-se-ia realizada se não restituir o que era devido.
Nesse ponto ele acaba por ter outra identificação com o pai, este em seu tempo de juventude ocorrera de perder uma grande aposta na qual não teria se saído bem se o amigo não tivesse lhe ajudado, no entanto, posteriormente o pai não conseguira restituir seu amigo, atitude essa que sempre reprovou, no entanto, agora se encontrava em situação semelhante, afligindo-o imensamente.
A ideia da tortura com ratos estimulou e despertou várias recordações de modo que nesse intervalo de tempo adquiriu vários significados simbólicos. A história dos ratos despertou impulsos cruéis e de conotação sexual, no entanto, o paciente assimilou certas vivencias suas com características do rato, tanto como um animal pequeno, sujo, enraivecido, que costuma ser perseguido e castigado, exatamente como inconscientemente se imaginava na infância, pequeno, cometendo atitudes sujas, vindo a ser punido pelo pai.
Constata-se então, de acordo com suas experiências e vivencias que os ratos eram representações de crianças. Quando o capitão falou dos castigos com ratos, ele estabeleceu um vínculo com a sua infância onde ele mesmo havia dado mordidas.
Podemos observar um vasto material analítico e várias ideias obsessivas. Apesar do grande número de formações obsessivas, a ideia mostra-se sendo a mesma, porém com o teor diferenciado. Essa ideia obsessiva rejeitada, retorna deformada e por não ser reconhecida, possui mais chances de obter êxito.
Pode-se observar também que a neurose obsessiva tem a necessidade de ter a incerteza, pois é um dos métodos que a neurose se utiliza para se afastar da realidade do doente: ‘’ A neurose obsessiva utiliza-se prodigamente da incerteza da memória para a formação os sintomas.’’ (FREUD, 1909, p.95.)
Já as atitudes de amor e ódio do paciente são características da neurose obsessiva. Se há um amor que se contrapõe a um ódio igualmente forte o resultado é uma incapacidade de decisão. Essa dúvida corresponde a irresolução interna entre amor e ódio. A obsessão surge então com o intuito de compensar a dúvida e corrigi-la. Torna-se, portanto, ações obsessivas que se realizam com um dispêndio de energia onde normalmente é destinado aqueles pensamentos que buscam representar atos regressivos.
Apesar de tantas regressões incomodas ao paciente, o objetivo é introduzir os complexos reprimidos na consciência estimulando a elaboração desses assuntos no terreno da atividade psíquica consciente, facilitando a emergência e elaboração de outros conteúdos do inconsciente. 
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FREUD, Sigmund. OBSERVAÇÕES SOBRE UM CASO DE NEUROSE OBSESSIVA [‘’O HOMEM DOS RATOS’’] (1909). São Paulo: Companhia das letras, 2011. 

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