Desde
a antiguidade o tema do luto vem sendo discutido sob diferentes olhares.
Heráclito, considerado o filósofo que chorava,
lamentava o caráter efêmero e passageiro das coisas. No seu entendimento esse
aspecto da vida legar-nos-ia a dor e tristeza (TIBURI, 2008). Enquanto
Demócrito, em oposição a Heráclito, tornara-se conhecido como filósofo que ria,
esse riso, segundo o padre Antônio Vieira (1608-1697), pode ser entendido como
uma maneira diferente de chorar, esse riso não seria de caráter cômico mas sim
algo que ultrapassaria o irônico, sarcástico, que surge justo quando temos
consciência da condição da nossa própria miséria (TIBURI, 2008).
Em Aristóteles a tristeza
não seria algo ruim, uma vez que a sensação de sentir-se sozinho e abandonado
em um total vazio de sentido seria necessária para a meditação. A melancolia
seria um modo de existir, devendo o melancólico acostumar-se e a partir disso
tentar produzir (TIBURI, 2008).
Pensar a tristeza e o recolhimento em diferentes contextos
históricos mostra-nos claramente o quanto o modelo de sociedade de cada época
determina o modo como os homens vivenciam suas perdas.
Na Idade Média ficar triste era considerado um pecado, pois em
tristeza se afastaria de Deus e iria contra seus princípios de amor e bem
estar. Percebe-se claramente que toda a lógica do pensamento medieval conduzia
a uma visão acrítica da realidade. O modelo de sociedade imposto e as
desigualdades sociais eram entendidos como predestinação, a ordem não poderia
ser questionada, uma vez que nada acontecia sem a permissão de Deus, logo, nada
estava errado. Desse modo, a religião católica atendia perfeitamente aos
interesses econômicos da época. E com esse entendimento, toda produção de
conhecimento assim como toda a lógica de organização social deveria ser controlada
pela Igreja, até mesmo os sentimentos mais íntimos ligados as dores pessoais.
Mais tarde,
contrariando o pensamento de Aristóteles e o controle medieval, Johann Wolfgang
Von Goethe (1749 - 1832), viria a dizer que a tristeza seria uma doença do
pensamento, está idéia foi apoiada por Sigmund Freud no seu artigo Luto e
Melancolia (1917).
Nesse trabalho, Freud define o luto como
a reação à perda de um ente querido ou de alguma abstração que tenha tomado
lugar de ente querido, como país, pátria, algo ou alguém ideal. Ele acredita
que em algumas pessoas pode haver uma propensão a produzirem melancolia em vez
de luto, e que isso seria uma disposição patológica. Ele frisa que mesmo que o
luto envolva graves afastamentos daquilo que constitui a atitude normal para a
vida, jamais se deve pensar que isso seja uma condição patológica e submeter a
tratamento médico, conclui que tudo é superado após certo tempo e que é inútil
ou até mesmo prejudicial qualquer interferência em relação a isso. (FREUD,
1917)
De
acordo com Freud (1917), o processo de luto se dá com a prova de que a
realidade revela que o objeto amado está perdido, passando a exigir que toda a
libido seja retirada de suas ligações com o objeto perdido. Essa exigência, por
sua vez, provoca uma oposição compreensível, pois, afirma, é fato notório que
as pessoas nunca abandonam de bom grado uma posição libidinal, mesmo que haja
um substituto para ela. Existe um período necessário para que se elabore o luto
e a perda sofrida e esse tempo não deve ser alterado, burlado ou ignorado,
sendo importante para que possa se fazer a devida elaboração do luto do
perdido. (FREUD, 1917).
Em
Kovács (1992), a morte vem como vinculo que se rompe, de forma irreversível, sobretudo
quando há uma perda real. Na representação de morte se encontraria duas
pessoas, a pessoa perdida e a outra que sente e lamenta a falta. O outro seria
uma parte internalizada nas memórias e lembranças. A morte como perda nos traz
sentimentos, e que pode ser chamada de morte de sentimentos, que é vivida por
todos nós. Diz que é impossível que alguém nunca tenha vivido uma perda. Essa
perda é vivida conscientemente, por isso é mais temida que a própria morte.
Como a morte não pode ser vivida concretamente, a única morte é a perda, quer
seja concreta ou simbólica. (KOVÁCS, 1992).
Essa
compreensão do luto é reforçada nas ideias de Mazorra quando afirma que “[...]
o luto é o processo de reconstrução, de reorganização, diante da morte, desafio
emocional e cognitivo com o qual o sujeito tem de lidar” (MAZORRA apud LOUZETTE; GATTI 2007, p.77). Assim
como em Rebelo ao defender o luto como “um período mais ou menos longo que é
necessário viver, após a perda de um ente querido, para que todos os momentos
belos com ele partilhados se transformem em doces e suaves memórias” (REBELO, 2004).
Podemos
observar que para tais pensadores, encontramos a importância do luto em suas
afirmações. Concordam perfeitamente entre si a ideia da necessidade de viver e
elaborar as perdas que a vida traz que, como diz Kovács, é impossível que
ninguém nunca tenha vivido uma perda na vida e podemos concluir esse pensamento
com o de Freud que é necessário um tempo para elaborar o luto e a perda sofrida
e que esse tempo não deve ser burlado.
No
entanto, como se dá esse processo? Em termos psicanalíticos, o luto se mostra
como processo mais adequado para lidar com a perda do objeto. Através dele há
uma elaboração do afeto investido no objeto perdido, com isso, o Eu por esse
processo consegue trabalhar o desinvestimento libidinal para que assim seja
possível reinvesti-lo em outro objeto. Como nos diz Quinet (2010, p. 173) ’[...]
o sujeito, para sair da dor, deve fazer o luto do que perdeu”. Ou seja,
elaborar a dor do objeto que perdeu, necessário para poder investir o afeto em
outro objeto. A elaboração do afeto pelo
luto ajuda a reconhecer a dor, a ter consciência da perda, da impossibilidade
do acesso ao objeto desejante. Reconhecer esse fato impede uma fixação
sintomática bem como um auto investimento libidinal, tal elaboração evitará
caminhos impróprios para a libido, trabalhando-a para investi-la em um novo
objeto, de forma positiva e saudável.
Percebemos
que o luto consiste no trabalho sobre o afeto e o caminho que este poderá tomar,
buscando viabilizar a superação da perda através de um caminho mais construtivo
e satisfatório, contudo, esse não é o único caminho que poderá ser tomado. O
afeto mal investido que decorre da perda do objeto, consequência da não
elaboração promovida pelo luto, acaba por tomar caminhos que podem trazer
prejuízos psíquicos. Podemos citar duas possibilidades, uma formação
sintomática ou a entrada para a depressão.
A
formação do sintoma trata-se da manifestação deste afeto sem caminho, represado
(ou seja, o afeto que acabou encontrando um outro caminho ao invés do luto),
impedido de encontrar satisfação na realidade. A questão é que o desejo a
partir do inconsciente continuará forçando o seu extravasamento e como o objeto
antes desejado estará impedido pelas forças da realidade a saída encontrada
será a formação do sintoma. O sintoma então se mostrará como uma alternativa
para o extravasamento do desejo, uma vez que novos caminhos para satisfazer o
desejo estarão bloqueados. O sintoma representará o afeto que foi retido e mal
direcionado buscando formas distorcidas de realizar sua satisfação, esta substitutiva,
deformada pela repressão processada para com o desejo original, que torna
impossível o acesso ao objeto desejado. Contudo, se trata de uma satisfação de
natureza problemática, sendo sentido pelo sujeito com sofrimento e gerador de
desprazer.
Vejamos agora o caminho que esse
afeto toma para que incida na formação melancólica (depressão). Na melancolia a reação a perda age diferentemente do luto, nela
o sujeito não consegue mais identificar o seu objeto perdido no mundo externo, ou
seja, falta o processo de elaboração da perda. Dito de outro modo, o sujeito não
sabe o que perdeu e por não saber o que perdeu, identifica-se de forma
inconsciente com o objeto perdido. Devido a esse processo, ele não busca desinvestir
libidinalmente o objeto que perdeu, mas sim se identificar com ele, o que faz
com que haja um auto investimento libidinal.
Todo aquele afeto que havia investido no objeto perdido, ao invés
de elabora-lo para um outro caminho, acaba por investir nele mesmo. A libido
que era investida no objeto é deslocada para o Eu, de forma que o Eu assume o
lugar do objeto perdido, identificando-se com ele, tomando-o como o objeto a
ser criticado. O ódio que devia se voltar para objeto perdido, se volta para o
próprio eu. Essa desorganização imaginária aparece num desinvestimento da
realidade, do outro e do próprio eu.
Nesse breve estudo podemos perceber como age o processo de luto,
onde embora pareça ser uma aceitação passiva das perdas que a vida lhe traz,
mostrasse uma ação ativa onde precisasse encarar a perda e saber lidar com ela. Vemos que o Luto vem elaborar
o afeto antes investido no objeto, este agora perdido, evitando seu mal direcionamento
para que não haja consequências negativas no psiquismo do sujeito como a
depressão ou uma formação sintomática, ajudando a eleger um novo objeto,
construtivo e saudável.
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TIBURI,
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Filosófico - Tv Cultura por Luciano Ventura. Disponível em:
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08 out. 2011.
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KOVACS.M.J. Morte e Desenvolvimento Humano. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1992.
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