''Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro.''
Sigmund Freud

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Sobre a Consciência e o Inconsciente

Um dos primeiros pontos da psicanálise é a diferenciação do que é consciente e inconsciente, informação básica necessária para se compreender os processos psicopatológicos. Para Freud (1923) estar consciente é uma expressão descritiva que nos diz de uma percepção imediata e segura. No entanto, um elemento psíquico não seria consciente o tempo inteiro nem mesmo de forma duradoura. Ou seja, a consciência é um estado e esse mesmo estado passa com rapidez, um pensamento consciente deixa de sê-lo no momento seguinte, contudo esse mesmo pensamento pode voltar a consciência. Durante esse momento ele torna-se latente, aguardando o ‘’ tornar-se consciente’’, porém aonde esse pensamento latente aguardaria? De certo que no Inconsciente.
            O inconsciente, arrisco dizer, é um dos principais pilares da psicanálise, nos trazendo um novo olhar de como se estrutura o psiquismo. Sim, ele guarda pensamentos latentes que deixam de ser conscientes, mas não só isso. No Inconsciente há diversos processos psíquicos que apesar de estarem longe de nossa consciência, ou digamos, de nosso conhecimento, repercutem de forma marcante em nossas vidas, podendo chegar a tornar-se ideias com os mesmos efeitos de pensamentos conscientes, ainda que seu conteúdo original continue sendo desconhecido.
            Aqui podemos levantar uma interessante questão; porque esse pensamento inconsciente precisa de tanto esforço para manifestar-se e ainda assim continuar inconsciente? O que diferencia esse pensamento do outro que normalmente encontra-se próximo a consciência?
            Há uma força que Freud (1923) denominou de repressão, que age impedindo que tais ideias tornem-se conscientes. Ainda assim pode ser questionado porque esses pensamentos seriam reprimidos então? Porque são pensamentos com um conteúdo nocivo ao sujeito, se tal pensamento tornar-se consciente poderia causar agravos a via psíquica do indivíduo.
            É a partir do estudo da consciência e inconsciente e de como se processa a repressão que a psicanálise vai pautando seu trabalho. Posteriormente Freud (1923) refinou essa teoria, desenvolvendo o estudo sobre uma segunda tópica que explicaria a organização psíquica através do entendimento do ID, Eu e Super-Eu.
            Por fim, levemos em conta essa citação de Freud (1923):

‘’ Para a maioria daqueles que tem cultura, é tão inapreensível a ideia de algo psíquico que não seja também consciente, que lhes parece absurda e refutável pela simples lógica. Acho que isto se deve ao fato de não terem jamais estudado os pertinentes fenômenos da hipnose e do sonho, que – sem considerar o dado patológico – obrigam a tal concepção. A sua psicologia da consciência é incapaz de resolver os problemas do sonho e da hipnose.’’ (FREUD, 1923, p.15)
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FREUD, Sigmund. O EU E O ID. (1923). São Paulo: Companhia da Letras, 2011.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Consequências da modernidade

Na sociedade contemporânea, o individualismo, a competitividade, a busca da felicidade em velocidade estonteante, não deixa espaço para o recolhimento do sujeito. Contudo, nada pode aplacar de fato as dores que uma grande perda causa à subjetividade humana e não há medicamentos, ou qualquer espécie de fuga que possa mudar isso.
            O contexto em que nos encontramos, no qual está inserido o sujeito, é o meio capitalista. Como se sabe, o capitalismo é um modo de produção econômico onde a produção visa o lucro, com a compra e a venda, com o movimento do mercado.  Esse tipo de dinâmica exige do sujeito uma dedicação, onde ele precisa sempre estar em movimento, se não está, não produz, se não produz, é improdutivo para o capitalismo e logo descartado.

O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral da vida social, política e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina a sua consciência (MARX, apud ANDERY, 2007, p.403.).

Assim constatamos nas palavras de Karl Marx(1982) a severidade com que a sociedade exige do sujeito constante dedicação e de como ele é determinado por ela, porém, onde fica a subjetividade desse sujeito oprimido? Esse tipo de dinâmica exerce consequências psicológicas que este projeto convida agora a pensar.
 O capitalismo sempre visa a realização imediata dos desejos através de compras, compras que movimentam a produção de capital, quando certa pessoa tem um sofrimento psicológico, tal sofrimento logo é descartado, pois, se um sujeito para pra sofrer, também para de produzir.

A sociedade moderna quer banir do seu horizonte a realidade do infortúnio, da morte e da violência, ao mesmo tempo procurando integrar num sistema único as diferenças e as resistências. (ROUDINESCO, 2000, p.17).     
                                                                                                
          Com a dinâmica do capitalismo, ao sujeito não é permitido parar para sofrer e elaborar, parar é improdução, ao invés disso o capitalismo usa esse sofrimento a favor do mercado, de forma a estar sempre movimentando o desejo da compra, usa então da falta de um objeto para preenchê-lo com compras supérfluas, numa tentativa de preencher o faltoso do ser com compras, tal movimento está sempre gerando produção, fazendo da dor individual um modo de lucro, observamos isso com extrema facilidade se nos dermos algum tempo para analisar algumas propagandas onde está sempre posto à venda da felicidade, da realização dos seus desejos e dos seus sonhos através da compras de simples objetos ou bebidas.
Vivemos sob o domínio do discurso capitalista, em que os homens não se cercam mais de outros homens e sim de objetos produzidos pela tecnologia, suas relações sociais não estão centradas nos laços com outros homens, mas na recepção e manipulação de mercadorias e mensagens.                                                  (QUINET, 2010, p.170).

Tais movimentos iludem o sujeito com a falsa ideia de que comprando objetos satisfará e preencherá sua falta, esta falta por estar sempre presente torna-se então um meio de consumo.
          Observando todos esses aspectos resultantes da repressão da sociedade, vemos a necessidade de enfrentar a compreensão do que se sente, pois trata-se de um enfrentamento, um hábito que acabou sendo desnaturalizado. Essa elaboração do que se perde, esse luto, configurasse como algo atípico no processo da vida, quando antes disso devia ser considerado como fase importante e saudável no processo de vivencia de cada sujeito, pois é inegável a necessidade de compreender que a vida também são perdas e desprazeres.
  O enfrentamento do luto é um desafio que embora assustador, poderá reverter um longo processo de ignorância imposta pela sociedade que traz como resultado um recalque difícil de vencer que seguirá como companheiro indesejável na trajetória psicológica do sujeito.
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QUINET, Antonio. Teoria e clínica da psicose. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000.
ANDERY, Maria Amália. Para compreender a ciência: Uma perspectiva histórica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

ROUDINESCO, Elisabeth. Por que a psicanálise? . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000. 



terça-feira, 2 de junho de 2015

A Psicoterapia Breve

A psicoterapia breve trata-se de uma intervenção terapêutica diferente da comum, como o próprio nome diz, sua característica é ser breve, com tempo e objetivos delimitados. São pontos elaborados após uma análise diagnóstica em primeiro momento, buscando definir seus alicerces como o foco, a estratégia e os objetivos da terapia (OLIVEIRA, 1999).
Estudos apontam que um de seus precursores foi Freud, onde, no início do desenvolvimento de sua prática poucas eram as terapias que ultrapassavam algum tempo, tendo análises suas que duravam menos de algumas poucas sessões ou mesmo menos de algumas horas, como por exemplo Dora, o homem dos ratos e o compositor Gustav Mahler (FRANCHETTI, 2007).
Com o desenvolvimento de sua teoria, acabou deixando por estender os tempos de atendimento. Nesse movimento vemos que a psicoterapia surgiu dentro da psicanálise, porém, com o tempo, seguiu-se em diferentes orientações (FRANCHETTI, 2007).
É possível, de acordo com alguns autores, dividir a psicoterapia breve em três modelos (OLIVEIRA, 1999).
O modelo estrutural ou de Impulso, onde Malan (1976) propõe que seja pensada uma hipótese inicial onde através dela se é planejado a forma em que será elaborado o trabalho terapêutico, delimitando tempo e objetivos da terapia, buscando identificar o conflito primário que gerou o atual problema do sujeito. Outro pensador desse modelo, Sifneos (1979), com a psicoterapia breve provocadora de ansiedade, adota uma posição ativa, levando o sujeito a encarar e confrontar os seus conflitos. Já Davanloo (1980) pensa essa confrontação observando as interpretações, as defesas e os sonhos do sujeito, priorizando os conflitos intrapsíquicos. As críticas consideram uma postura muito autoritária do terapeuta, submetendo-o ao que o terapeuta imagina ser o certo (OLIVEIRA, 1999).
Já o modelo relacional apoia o seu foco nas relações objetais do sujeito. Ao contrário da Estrutural, não se baseiam tanto em uma teoria, dando mais importância à experiência do agora. Sua base é a relação interpessoal que o indivíduo estabelece e em como lida com a relação terapêutica, colocando o terapeuta como um observador participativo. Por outro lado, as críticas a esse método dizem de sua menor preocupação com a técnica (OLIVEIRA, 1999).
Por fim, o modelo Integrativo visa integrar as técnicas e conceitos de outros modelos com o intuito de aumentar a eficiência da psicoterapia breve. Pensadores como Mann(1973) consideram os constructos dos modelos anteriores como complementares, dizendo de diferentes formas de funcionamento mental (OLIVEIRA, 1999).
Em relação ao tempo, busca-se estabelecer um tempo limite de 12 horas de tratamento, divididas da forma que melhor convir a terapia. O objetivo aqui é pensar que estabelecido um momento de termino e separação da terapia, acelere o processo, tornando o trabalho mais ativo (OLIVEIRA, 1999).
Na psicoterapia breve as sessões devem ocorrer face-a-face, de modo a favorecer e intensificar a influência da terapia, sendo também de grande importância a delimitação do tempo, usualmente entre três meses a um ano. O estabelecimento do tempo também funcionará como combustível para manter a terapia mais ativa (FRANCHETTI, 2007).
Freud pensou essa ‘’chantagem’’ como facilitadora da terapia, contudo, arriscada, se o tempo pensado não agir com um bom encaixe no sujeito, seus efeitos podem não ser promissores (HEGENBERG, 2012).
No ponto de vista psicanalítico, o terapeuta manterá a perspectiva de interpretação, observando os movimentos da transferência, resistências e qualquer indicio do inconsciente (FRANCHETTI, 2007).
De acordo com Hegenberg (2012) o devido procedimento se dá a partir da fixação de quatro pilares essenciais para o andamento da terapia. : a investigação/análise transferencial, a interpretação, a utilização das associações livres/atenção flutuante e o respeito à neutralidade. Enfatiza que tanto a análise clássica quanto o Plantão psicológico seguem o vértice psicanalítico, o que vai diferenciar entre os dois é o enquadre em questão.  Na análise será Necessário a verificação da necessidade de uma terapia breve no sujeito, ele mesmo pode não ter a necessidade de se aprofundar em suas questões subjetivas, mas sim em um determinado acontecimento que lhe gera angustia, que pode ser a castração, de fragmentação ou de perda do objeto. Tratando-se então da escolha de um foco para reflexão, sendo definido alguns como o sintoma, as defesas, a crise, a relação objetal, um traço de caráter, um conflito, a questão edípica, entre outros.  Sendo na opinião do autor que o foco sempre incidirá na angústia de castração, de fragmentação e de perda do objeto (HEGENBERG, 2012).
A psicoterapia breve em psicanálise não tem a finalidade de eliminar o sintoma, mas sim o esclarecimento do foco, procurando propiciar auto-reflexão. O foco é um acordo entre o terapeuta e o paciente, uma forma de estabelecerem um plano inicial de trabalho, onde se endente o problema atual. O foco incidirá então na angústia de castração, de fragmentação ou de perda do objeto, ligada ao motivo da consulta, em conexão com a história do paciente (HEGENBERG, 2012).  
Apesar das críticas ao método psicanalítico envolvido na terapia breve, se Compreendido o vértice psicanalítico como a articulação da teoria com o procedimento, a variação de enquadre da psicoterapia breve, com o tempo limitado de terapia e a utilização de um foco, não afasta a psicanálise, apenas a coloca em um lugar diferente, com repercussões diferentes, mantendo-se o método, alterando apenas o enquadre (HEGENBERG, 2012).
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OLIVEIRA, Iraní Tomiatto de. PSICOTERAPIA PSICODINÂMICA BREVE: DOS PRECURSORES AOS MODELOS ATUAIS. Psicologia: Teoria e Prática, São Paulo, v. 2, n. 1, p.9-19, jan. 1999.

FRANCHETTI, Sílvia Helena Allane. Psicoterapia breve: uma possibilidade de trabalho psicanalítico na instituição.p.1-7, 2007.

HEGENBERG, Mauro. Psicoterapia breve psicanalítica., -. Disponível em: <http://www2.uol.com.br/percurso/main/pcs40/40Hegenberg.html>.             Acesso em: 10 out. 2012.