''Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro.''
Sigmund Freud

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Consequências da modernidade

Na sociedade contemporânea, o individualismo, a competitividade, a busca da felicidade em velocidade estonteante, não deixa espaço para o recolhimento do sujeito. Contudo, nada pode aplacar de fato as dores que uma grande perda causa à subjetividade humana e não há medicamentos, ou qualquer espécie de fuga que possa mudar isso.
            O contexto em que nos encontramos, no qual está inserido o sujeito, é o meio capitalista. Como se sabe, o capitalismo é um modo de produção econômico onde a produção visa o lucro, com a compra e a venda, com o movimento do mercado.  Esse tipo de dinâmica exige do sujeito uma dedicação, onde ele precisa sempre estar em movimento, se não está, não produz, se não produz, é improdutivo para o capitalismo e logo descartado.

O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral da vida social, política e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina a sua consciência (MARX, apud ANDERY, 2007, p.403.).

Assim constatamos nas palavras de Karl Marx(1982) a severidade com que a sociedade exige do sujeito constante dedicação e de como ele é determinado por ela, porém, onde fica a subjetividade desse sujeito oprimido? Esse tipo de dinâmica exerce consequências psicológicas que este projeto convida agora a pensar.
 O capitalismo sempre visa a realização imediata dos desejos através de compras, compras que movimentam a produção de capital, quando certa pessoa tem um sofrimento psicológico, tal sofrimento logo é descartado, pois, se um sujeito para pra sofrer, também para de produzir.

A sociedade moderna quer banir do seu horizonte a realidade do infortúnio, da morte e da violência, ao mesmo tempo procurando integrar num sistema único as diferenças e as resistências. (ROUDINESCO, 2000, p.17).     
                                                                                                
          Com a dinâmica do capitalismo, ao sujeito não é permitido parar para sofrer e elaborar, parar é improdução, ao invés disso o capitalismo usa esse sofrimento a favor do mercado, de forma a estar sempre movimentando o desejo da compra, usa então da falta de um objeto para preenchê-lo com compras supérfluas, numa tentativa de preencher o faltoso do ser com compras, tal movimento está sempre gerando produção, fazendo da dor individual um modo de lucro, observamos isso com extrema facilidade se nos dermos algum tempo para analisar algumas propagandas onde está sempre posto à venda da felicidade, da realização dos seus desejos e dos seus sonhos através da compras de simples objetos ou bebidas.
Vivemos sob o domínio do discurso capitalista, em que os homens não se cercam mais de outros homens e sim de objetos produzidos pela tecnologia, suas relações sociais não estão centradas nos laços com outros homens, mas na recepção e manipulação de mercadorias e mensagens.                                                  (QUINET, 2010, p.170).

Tais movimentos iludem o sujeito com a falsa ideia de que comprando objetos satisfará e preencherá sua falta, esta falta por estar sempre presente torna-se então um meio de consumo.
          Observando todos esses aspectos resultantes da repressão da sociedade, vemos a necessidade de enfrentar a compreensão do que se sente, pois trata-se de um enfrentamento, um hábito que acabou sendo desnaturalizado. Essa elaboração do que se perde, esse luto, configurasse como algo atípico no processo da vida, quando antes disso devia ser considerado como fase importante e saudável no processo de vivencia de cada sujeito, pois é inegável a necessidade de compreender que a vida também são perdas e desprazeres.
  O enfrentamento do luto é um desafio que embora assustador, poderá reverter um longo processo de ignorância imposta pela sociedade que traz como resultado um recalque difícil de vencer que seguirá como companheiro indesejável na trajetória psicológica do sujeito.
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QUINET, Antonio. Teoria e clínica da psicose. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000.
ANDERY, Maria Amália. Para compreender a ciência: Uma perspectiva histórica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

ROUDINESCO, Elisabeth. Por que a psicanálise? . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000. 



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