Na
sociedade contemporânea, o individualismo, a competitividade, a busca da
felicidade em velocidade estonteante, não deixa espaço para o recolhimento do
sujeito. Contudo, nada pode aplacar de fato as dores que uma grande perda causa
à subjetividade humana e não há medicamentos, ou qualquer espécie de fuga que
possa mudar isso.
O contexto em que nos encontramos,
no qual está inserido o sujeito, é o meio capitalista. Como se sabe, o
capitalismo é um modo de produção econômico onde a produção visa o lucro, com a
compra e a venda, com o movimento do mercado.
Esse tipo de dinâmica exige do sujeito uma dedicação, onde ele precisa
sempre estar em movimento, se não está, não produz, se não produz, é
improdutivo para o capitalismo e logo descartado.
O
modo de produção da vida material condiciona o processo em geral da vida
social, política e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o
seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina a sua consciência
(MARX, apud ANDERY, 2007, p.403.).
Assim
constatamos nas palavras de Karl Marx(1982) a
severidade com que a sociedade exige do sujeito constante dedicação e de como
ele é determinado por ela, porém, onde fica a subjetividade desse sujeito
oprimido? Esse tipo de dinâmica exerce consequências psicológicas que este
projeto convida agora a pensar.
O capitalismo sempre visa a realização
imediata dos desejos através de compras, compras que movimentam a produção de
capital, quando certa pessoa tem um sofrimento psicológico, tal sofrimento logo
é descartado, pois, se um sujeito para pra
sofrer, também para de produzir.
A
sociedade moderna quer banir do seu horizonte a realidade do infortúnio, da
morte e da violência, ao mesmo tempo procurando integrar num sistema único as
diferenças e as resistências. (ROUDINESCO, 2000, p.17).
Com a dinâmica do capitalismo, ao
sujeito não é permitido parar para sofrer e elaborar, parar é improdução, ao
invés disso o capitalismo usa esse sofrimento a favor do mercado, de forma a
estar sempre movimentando o desejo da compra, usa então da falta de um objeto
para preenchê-lo com compras supérfluas, numa tentativa de preencher o faltoso
do ser com compras, tal movimento está sempre gerando produção, fazendo da dor
individual um modo de lucro, observamos isso com extrema facilidade se nos
dermos algum tempo para analisar algumas propagandas onde está sempre posto à
venda da felicidade, da realização dos seus desejos e dos seus sonhos através
da compras de simples objetos ou bebidas.
Vivemos
sob o domínio do discurso capitalista, em que os homens não se cercam mais de
outros homens e sim de objetos produzidos pela tecnologia, suas relações
sociais não estão centradas nos laços com outros homens, mas na recepção e
manipulação de mercadorias e mensagens.
(QUINET, 2010, p.170).
Tais
movimentos iludem o sujeito com a falsa ideia de que comprando objetos
satisfará e preencherá sua falta, esta falta por estar sempre presente torna-se
então um meio de consumo.
Observando todos esses aspectos
resultantes da repressão da sociedade, vemos a necessidade de enfrentar a
compreensão do que se sente, pois trata-se de um enfrentamento, um hábito que
acabou sendo desnaturalizado. Essa elaboração do que se perde, esse luto,
configurasse como algo atípico no processo da vida, quando antes disso devia
ser considerado como fase importante e saudável no processo de vivencia de cada
sujeito, pois é inegável a necessidade de compreender que a vida também são
perdas e desprazeres.
O enfrentamento do luto é um desafio que embora assustador, poderá
reverter um longo processo de ignorância imposta pela sociedade que traz como
resultado um recalque difícil de vencer que seguirá como companheiro
indesejável na trajetória psicológica do sujeito.
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QUINET, Antonio. Teoria e clínica da psicose. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2000.
ANDERY, Maria Amália. Para
compreender a ciência: Uma perspectiva histórica. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2007.
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