''Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro.''
Sigmund Freud

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Sobre a Consciência e o Inconsciente

Um dos primeiros pontos da psicanálise é a diferenciação do que é consciente e inconsciente, informação básica necessária para se compreender os processos psicopatológicos. Para Freud (1923) estar consciente é uma expressão descritiva que nos diz de uma percepção imediata e segura. No entanto, um elemento psíquico não seria consciente o tempo inteiro nem mesmo de forma duradoura. Ou seja, a consciência é um estado e esse mesmo estado passa com rapidez, um pensamento consciente deixa de sê-lo no momento seguinte, contudo esse mesmo pensamento pode voltar a consciência. Durante esse momento ele torna-se latente, aguardando o ‘’ tornar-se consciente’’, porém aonde esse pensamento latente aguardaria? De certo que no Inconsciente.
            O inconsciente, arrisco dizer, é um dos principais pilares da psicanálise, nos trazendo um novo olhar de como se estrutura o psiquismo. Sim, ele guarda pensamentos latentes que deixam de ser conscientes, mas não só isso. No Inconsciente há diversos processos psíquicos que apesar de estarem longe de nossa consciência, ou digamos, de nosso conhecimento, repercutem de forma marcante em nossas vidas, podendo chegar a tornar-se ideias com os mesmos efeitos de pensamentos conscientes, ainda que seu conteúdo original continue sendo desconhecido.
            Aqui podemos levantar uma interessante questão; porque esse pensamento inconsciente precisa de tanto esforço para manifestar-se e ainda assim continuar inconsciente? O que diferencia esse pensamento do outro que normalmente encontra-se próximo a consciência?
            Há uma força que Freud (1923) denominou de repressão, que age impedindo que tais ideias tornem-se conscientes. Ainda assim pode ser questionado porque esses pensamentos seriam reprimidos então? Porque são pensamentos com um conteúdo nocivo ao sujeito, se tal pensamento tornar-se consciente poderia causar agravos a via psíquica do indivíduo.
            É a partir do estudo da consciência e inconsciente e de como se processa a repressão que a psicanálise vai pautando seu trabalho. Posteriormente Freud (1923) refinou essa teoria, desenvolvendo o estudo sobre uma segunda tópica que explicaria a organização psíquica através do entendimento do ID, Eu e Super-Eu.
            Por fim, levemos em conta essa citação de Freud (1923):

‘’ Para a maioria daqueles que tem cultura, é tão inapreensível a ideia de algo psíquico que não seja também consciente, que lhes parece absurda e refutável pela simples lógica. Acho que isto se deve ao fato de não terem jamais estudado os pertinentes fenômenos da hipnose e do sonho, que – sem considerar o dado patológico – obrigam a tal concepção. A sua psicologia da consciência é incapaz de resolver os problemas do sonho e da hipnose.’’ (FREUD, 1923, p.15)
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FREUD, Sigmund. O EU E O ID. (1923). São Paulo: Companhia da Letras, 2011.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Consequências da modernidade

Na sociedade contemporânea, o individualismo, a competitividade, a busca da felicidade em velocidade estonteante, não deixa espaço para o recolhimento do sujeito. Contudo, nada pode aplacar de fato as dores que uma grande perda causa à subjetividade humana e não há medicamentos, ou qualquer espécie de fuga que possa mudar isso.
            O contexto em que nos encontramos, no qual está inserido o sujeito, é o meio capitalista. Como se sabe, o capitalismo é um modo de produção econômico onde a produção visa o lucro, com a compra e a venda, com o movimento do mercado.  Esse tipo de dinâmica exige do sujeito uma dedicação, onde ele precisa sempre estar em movimento, se não está, não produz, se não produz, é improdutivo para o capitalismo e logo descartado.

O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral da vida social, política e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina a sua consciência (MARX, apud ANDERY, 2007, p.403.).

Assim constatamos nas palavras de Karl Marx(1982) a severidade com que a sociedade exige do sujeito constante dedicação e de como ele é determinado por ela, porém, onde fica a subjetividade desse sujeito oprimido? Esse tipo de dinâmica exerce consequências psicológicas que este projeto convida agora a pensar.
 O capitalismo sempre visa a realização imediata dos desejos através de compras, compras que movimentam a produção de capital, quando certa pessoa tem um sofrimento psicológico, tal sofrimento logo é descartado, pois, se um sujeito para pra sofrer, também para de produzir.

A sociedade moderna quer banir do seu horizonte a realidade do infortúnio, da morte e da violência, ao mesmo tempo procurando integrar num sistema único as diferenças e as resistências. (ROUDINESCO, 2000, p.17).     
                                                                                                
          Com a dinâmica do capitalismo, ao sujeito não é permitido parar para sofrer e elaborar, parar é improdução, ao invés disso o capitalismo usa esse sofrimento a favor do mercado, de forma a estar sempre movimentando o desejo da compra, usa então da falta de um objeto para preenchê-lo com compras supérfluas, numa tentativa de preencher o faltoso do ser com compras, tal movimento está sempre gerando produção, fazendo da dor individual um modo de lucro, observamos isso com extrema facilidade se nos dermos algum tempo para analisar algumas propagandas onde está sempre posto à venda da felicidade, da realização dos seus desejos e dos seus sonhos através da compras de simples objetos ou bebidas.
Vivemos sob o domínio do discurso capitalista, em que os homens não se cercam mais de outros homens e sim de objetos produzidos pela tecnologia, suas relações sociais não estão centradas nos laços com outros homens, mas na recepção e manipulação de mercadorias e mensagens.                                                  (QUINET, 2010, p.170).

Tais movimentos iludem o sujeito com a falsa ideia de que comprando objetos satisfará e preencherá sua falta, esta falta por estar sempre presente torna-se então um meio de consumo.
          Observando todos esses aspectos resultantes da repressão da sociedade, vemos a necessidade de enfrentar a compreensão do que se sente, pois trata-se de um enfrentamento, um hábito que acabou sendo desnaturalizado. Essa elaboração do que se perde, esse luto, configurasse como algo atípico no processo da vida, quando antes disso devia ser considerado como fase importante e saudável no processo de vivencia de cada sujeito, pois é inegável a necessidade de compreender que a vida também são perdas e desprazeres.
  O enfrentamento do luto é um desafio que embora assustador, poderá reverter um longo processo de ignorância imposta pela sociedade que traz como resultado um recalque difícil de vencer que seguirá como companheiro indesejável na trajetória psicológica do sujeito.
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QUINET, Antonio. Teoria e clínica da psicose. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000.
ANDERY, Maria Amália. Para compreender a ciência: Uma perspectiva histórica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

ROUDINESCO, Elisabeth. Por que a psicanálise? . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000. 



terça-feira, 2 de junho de 2015

A Psicoterapia Breve

A psicoterapia breve trata-se de uma intervenção terapêutica diferente da comum, como o próprio nome diz, sua característica é ser breve, com tempo e objetivos delimitados. São pontos elaborados após uma análise diagnóstica em primeiro momento, buscando definir seus alicerces como o foco, a estratégia e os objetivos da terapia (OLIVEIRA, 1999).
Estudos apontam que um de seus precursores foi Freud, onde, no início do desenvolvimento de sua prática poucas eram as terapias que ultrapassavam algum tempo, tendo análises suas que duravam menos de algumas poucas sessões ou mesmo menos de algumas horas, como por exemplo Dora, o homem dos ratos e o compositor Gustav Mahler (FRANCHETTI, 2007).
Com o desenvolvimento de sua teoria, acabou deixando por estender os tempos de atendimento. Nesse movimento vemos que a psicoterapia surgiu dentro da psicanálise, porém, com o tempo, seguiu-se em diferentes orientações (FRANCHETTI, 2007).
É possível, de acordo com alguns autores, dividir a psicoterapia breve em três modelos (OLIVEIRA, 1999).
O modelo estrutural ou de Impulso, onde Malan (1976) propõe que seja pensada uma hipótese inicial onde através dela se é planejado a forma em que será elaborado o trabalho terapêutico, delimitando tempo e objetivos da terapia, buscando identificar o conflito primário que gerou o atual problema do sujeito. Outro pensador desse modelo, Sifneos (1979), com a psicoterapia breve provocadora de ansiedade, adota uma posição ativa, levando o sujeito a encarar e confrontar os seus conflitos. Já Davanloo (1980) pensa essa confrontação observando as interpretações, as defesas e os sonhos do sujeito, priorizando os conflitos intrapsíquicos. As críticas consideram uma postura muito autoritária do terapeuta, submetendo-o ao que o terapeuta imagina ser o certo (OLIVEIRA, 1999).
Já o modelo relacional apoia o seu foco nas relações objetais do sujeito. Ao contrário da Estrutural, não se baseiam tanto em uma teoria, dando mais importância à experiência do agora. Sua base é a relação interpessoal que o indivíduo estabelece e em como lida com a relação terapêutica, colocando o terapeuta como um observador participativo. Por outro lado, as críticas a esse método dizem de sua menor preocupação com a técnica (OLIVEIRA, 1999).
Por fim, o modelo Integrativo visa integrar as técnicas e conceitos de outros modelos com o intuito de aumentar a eficiência da psicoterapia breve. Pensadores como Mann(1973) consideram os constructos dos modelos anteriores como complementares, dizendo de diferentes formas de funcionamento mental (OLIVEIRA, 1999).
Em relação ao tempo, busca-se estabelecer um tempo limite de 12 horas de tratamento, divididas da forma que melhor convir a terapia. O objetivo aqui é pensar que estabelecido um momento de termino e separação da terapia, acelere o processo, tornando o trabalho mais ativo (OLIVEIRA, 1999).
Na psicoterapia breve as sessões devem ocorrer face-a-face, de modo a favorecer e intensificar a influência da terapia, sendo também de grande importância a delimitação do tempo, usualmente entre três meses a um ano. O estabelecimento do tempo também funcionará como combustível para manter a terapia mais ativa (FRANCHETTI, 2007).
Freud pensou essa ‘’chantagem’’ como facilitadora da terapia, contudo, arriscada, se o tempo pensado não agir com um bom encaixe no sujeito, seus efeitos podem não ser promissores (HEGENBERG, 2012).
No ponto de vista psicanalítico, o terapeuta manterá a perspectiva de interpretação, observando os movimentos da transferência, resistências e qualquer indicio do inconsciente (FRANCHETTI, 2007).
De acordo com Hegenberg (2012) o devido procedimento se dá a partir da fixação de quatro pilares essenciais para o andamento da terapia. : a investigação/análise transferencial, a interpretação, a utilização das associações livres/atenção flutuante e o respeito à neutralidade. Enfatiza que tanto a análise clássica quanto o Plantão psicológico seguem o vértice psicanalítico, o que vai diferenciar entre os dois é o enquadre em questão.  Na análise será Necessário a verificação da necessidade de uma terapia breve no sujeito, ele mesmo pode não ter a necessidade de se aprofundar em suas questões subjetivas, mas sim em um determinado acontecimento que lhe gera angustia, que pode ser a castração, de fragmentação ou de perda do objeto. Tratando-se então da escolha de um foco para reflexão, sendo definido alguns como o sintoma, as defesas, a crise, a relação objetal, um traço de caráter, um conflito, a questão edípica, entre outros.  Sendo na opinião do autor que o foco sempre incidirá na angústia de castração, de fragmentação e de perda do objeto (HEGENBERG, 2012).
A psicoterapia breve em psicanálise não tem a finalidade de eliminar o sintoma, mas sim o esclarecimento do foco, procurando propiciar auto-reflexão. O foco é um acordo entre o terapeuta e o paciente, uma forma de estabelecerem um plano inicial de trabalho, onde se endente o problema atual. O foco incidirá então na angústia de castração, de fragmentação ou de perda do objeto, ligada ao motivo da consulta, em conexão com a história do paciente (HEGENBERG, 2012).  
Apesar das críticas ao método psicanalítico envolvido na terapia breve, se Compreendido o vértice psicanalítico como a articulação da teoria com o procedimento, a variação de enquadre da psicoterapia breve, com o tempo limitado de terapia e a utilização de um foco, não afasta a psicanálise, apenas a coloca em um lugar diferente, com repercussões diferentes, mantendo-se o método, alterando apenas o enquadre (HEGENBERG, 2012).
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OLIVEIRA, Iraní Tomiatto de. PSICOTERAPIA PSICODINÂMICA BREVE: DOS PRECURSORES AOS MODELOS ATUAIS. Psicologia: Teoria e Prática, São Paulo, v. 2, n. 1, p.9-19, jan. 1999.

FRANCHETTI, Sílvia Helena Allane. Psicoterapia breve: uma possibilidade de trabalho psicanalítico na instituição.p.1-7, 2007.

HEGENBERG, Mauro. Psicoterapia breve psicanalítica., -. Disponível em: <http://www2.uol.com.br/percurso/main/pcs40/40Hegenberg.html>.             Acesso em: 10 out. 2012.

terça-feira, 19 de maio de 2015

O Plantão psicológico e a triagem

O plantão psicológico consiste em uma intervenção psicológica que procura acolher o sujeito na urgência de sua necessidade, ajudando-o a lidar com seu sofrimento. É uma prática inspirada no atendimento clínico breve, fora dos moldes dos consultórios. O objetivo é o atendimento à demanda emergencial, buscando facilitar que o sujeito clarifique a natureza de seu sofrimento. O profissional se disponibiliza para encontrar-se com o não planejado (BARROS, 2008).
O Plantão, de imediato, ofereceu-se para mim como um espaço privilegiado de escuta do sofrimento humano. Nesse tipo de atendimento, não se trata de fazer-se uma triagem com intuito de encaminhamento dos pacientes pra um trabalho de psicodiagnóstico e posterior psicoterapia. O Plantão é já um atendimento psicológico no qual o conselheiro se debruça sobre a narração da história do paciente com propósito de, perpassando queixas, deixar aflorar uma demanda da existência. As queixas estão no âmbito do manifesto, constituindo-se no que aparece e emerge na fala; já a demanda é latente, situando-se no âmbito do velado, urgindo desvelamento por uma compreensão testemunhada. (ALMEIDA APUD CRISTINA, 2010, p. 131).

Ou seja, o plantão consiste em ficar pronto para a demanda emergencial que chegar ao atendimento, acolhe-la em seu sofrimento, na medida do possível. Além dessa função, o plantão atende a outra necessidade, a de triagem. Através do plantão, é possível dividir e melhor encaminhar as demandas que chegam.
O que podemos dizer sobre a relação da triagem tradicional com o plantão psicológico? É evidente a diferença entre ambos, a ruptura marcante está na relação entre o cliente e o psicólogo. Na triagem, o profissional busca informações que permitam recomendar o melhor encaminhamento possível. Faz- se necessária à coleta de alguns dados, cabendo ao cliente ofertar o que lhe é pedido. Em se tratando da triagem interventiva, essa postura muda, passando a dar importância à relação terapeuta e cliente, buscando sentidos e abrindo caminhos de compreensão para a experiência trazida. Nesse caso, a triagem se assemelha ao plantão.
Chammas (2009), afirma, contudo, que diferentemente da triagem, o plantão não tem o propósito de receber e distribuir uma clientela, mas de ser o espaço de acolhimento. Cristina (2010) propõe que o plantão não se pretende uma técnica, como se vê na triagem, mas uma disposição ao outro, sem uma exigência pré-estabelecida no que diz respeito a informações sobre o paciente.

As entrevistas do Plantão não visam uma continuidade do atendimento segundo o modelo psicoterápico; em cada uma, focam-se os desdobramentos possíveis para as questões patenteadas na elucidação de demandas, considerando-se, no diálogo com a pessoa, intervenções de práticas especializadas ou populares, contando com recursos institucionais, comunitários ou familiares. Assim, paciente e conselheiro examinam e apreciam aquilo que melhor responde, nesse momento, aos pedidos manifestados na ocasião. (ALMEIDA APUD CRISTINA, 2010, p.131).

      A princípio, observar a união de ambos parece resultar em uma possibilidade, pois, enquanto temos o plantão, atendendo a escuta e emergência do sujeito, também temos a favor o trabalho da triagem, que ajuda no melhor encaminhamento sem, no entanto, se abster da empatia. Porém, apontando um olhar mais detido, verificamos o problema em questão, a impessoalidade do atendimento. Apesar do primeiro contato do plantão ser satisfatório, o que se dirá do cliente que se apegar a esse primeiro momento e negar a continuar com outro profissional?
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CHAVESA, Priscila Barros; HENRIQUES, Wilma Magaldi. PLANTÃO PSICOLÓGICO: De frente com o inesperado. Psicol. Argum, São Paulo, n., p.151-157, 04 jun. 2008.
ROCHA, Maria Cristina. PLANTÃO PSICOLÓGICO E TRIAGEM: APROXIMAÇÕES E DISTANCIAMENTOS.  Rev. NUFEN [online]. 2011, vol.3, n.1, pp. 119-134. ISSN 2175-2591.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Observações sobre a doença de Parkinson

      A Doença de Parkinson é uma patologia neurodegenerativa que foi mencionada pela primeira vez por James Parkinson, considerando-a como ‘’paralisia agitante’’, onde se trata de uma deficiência no sistema nervoso central em relação ao neurotransmissor da dopamina, responsável por ações no sistema motor. Essa doença atinge a todas as classes, ocorrendo com maior frequência em homens, manifestando-se por volta dos 55 a 65 anos, no entanto pode ser classificada como precoce quando ocorre em pessoas com menos de 40 anos (STEIDL; ZIEGLER; FERREIRA, 2007).
            O Parkinson trata-se de alterações funcionais relacionadas ao controle motor onde manifesta-se por meio de tremores, rigidez, bracidinesia e alterações posturais. O diagnóstico é realizado através da exclusão dos sintomas, sendo utilizado exames para que se confirme que o paciente não sofre de outra doença cerebral (STEIDL; ZIEGLER; FERREIRA, 2007).
            As principais características sintomáticas do Parkinson consistem: na rigidez que ocorre devido a inflexibilidade dos músculos, estando sempre presente com a tendência de aumentar ao longo da doença; no tremor, que, além de afetar os membros superiores e inferiores, também poderá atingir a cabeça, pescoço, face e mandíbula; e na bracidinesia que trata-se de um retardo ao iniciar movimentos, em razão da demora do cérebro em enviar as instruções para as partes do corpo, o que origina a deambulação (o andar sem definição). Também podemos observar uma alteração na postura corporal do sujeito, onde pode comprometer as vias respiratórias em razão da perda de flexibilidade da musculatura respiratória (STEIDL; ZIEGLER; FERREIRA, 2007).
Os comprometimentos gerados por essa doença acabam provocando o isolamento do sujeito, fator que leva a tendência em desenvolver a depressão. Por se tratar de uma doença incurável, o tratamento visa controlar os sintomas e atrasar sua progressão. Para tanto, é de grande importância que o paciente seja assistido por vários profissionais (STEIDL; ZIEGLER; FERREIRA, 2007).
O acompanhamento farmacológico visará controlar os níveis de dopamina no cérebro, contudo também há a possibilidade do tratamento cirúrgico, recomendado em casos onde o paciente não está obtendo resposta do acompanhamento farmacológico. Contudo, o Parkinson continua sendo uma doença progressiva, o tratamento constituirá em uma busca de retarda seu avanço e proporcionar maior qualidade de vida (STEIDL; ZIEGLER; FERREIRA, 2007).
Um importante aliado no tratamento é a fisioterapia, que auxilia na reeducação e manutenção da atividade física, por lidar com a principal área prejudicada com a evolução da doença. O tratamento sobre as atividades motoras podem oferecer ao paciente uma melhora em sua mobilidade, lidando principalmente com os músculos atrofiados e enrijecidos pela doença (STEIDL; ZIEGLER; FERREIRA, 2007).
Outro aliado no combate ao Parkinson é a psicologia, considerando a dimensão psicológica que a doença abarca. Os fatores emocionais estão bastante envolvidos, principalmente em relação ao forte trauma que muitas vezes é o diagnóstico. O Parkinson impõe ao sujeito rever os seus conceitos, tendo de se readaptar e reaprender aspectos simples no seu dia-a-dia, sendo forçado a encarar o psiquicamente doloroso progresso de sua doença. Além disso, ainda em nível econômico e social o sujeito também se vê prejudicado, por estar incapacitado para algumas atividades, acaba por prejudicar sua produção de trabalho, bem como a tendência ao isolamento social (STEIDL; ZIEGLER; FERREIRA, 2007).
Vemos a importância do sujeito possuir um forte respaldo na psicologia, para que assim possa encontrar recursos para enfrentar e elaborar essa nova situação que se apresenta. Ainda não se tem certeza da causa da doença, se é hereditária ou não, contudo, há alguns estudos que apontam a relevância do aspecto emocional na vida do sujeito, onde experiências traumáticas, sentimentos de angústia ou ansiedade, contribuiriam para a produção de certa substancia (salsolinol) responsável por destruir células nervosas (VALE, 2009).
Pensar nas possíveis causas dessa doença pode ser mais uma ferramenta no combate, principalmente se considerado a nível de políticas públicas. Apesar das expectativas desanimadoras que o Parkinson oferece, atualmente, com os mais variados tipos de tratamentos que são oferecidos, é possível viver com qualidade.

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STEIDL, Eduardo Matias dos Santos; ZIEGLER, Juliana Ramos; FERREIRA, Fernanda Vargas. DOENÇA DE PARKINSON: REVISÃO BIBLIOGRÁFICA. Disc. Scientia.: Série: Ciências da Saúde, Santa Maria, v. 8, n. 1, p.115-129, 2007.

VALE, Natalia do. Dor emocional é a principal causa do Mal de Parkinson. 2009. Disponível em: <http://www.minhavida.com.br/saude/materias/10236-dor-emocional-e-a-principal-causa-do-mal-de-parkinson>. Acesso em: maio 2015.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

A libido

A teoria da libido consiste em um dos pilares básicos da psicanálise, sendo trabalhada por Freud ao longo de muitos anos, mas não foi ele o responsável pela criação do termo, este termo surgiu com o pesquisador Moll, em 1898 e daí então passou a ser usado por Freud para atribuir ao desejo sexual. Através da citação de Alfredo (2004) temos uma forma simples do que Freud atribuía à libido: ''Freud afirma a propriedade específica da libido em se referir a um potencial de desejo sexual e não outro’' (CARVALHO, 2004, p. 01).
Acompanhando o surgimento dessa teoria veio uma das mais importantes descobertas feitas por Freud, a de que, primeiro, o psiquismo humano forma-se a partir de conflitos que desde o nascimento confrontam os instintos sexuais de um lado e a realidade de outro, sendo essa força dos instintos sexuais, a Libido, e segundo que a sexualidade não é algo própria da adolescência, e sim que já faz parte da estrutura psíquica do bebê.
O surgimento dessa teoria na psicanálise gerou conflitos e repulsa, pois com ela, Freud assegurou que crianças também possuíam uma sexualidade e tal afirmação, na época em que Freud se encontrava, entre fins do século XIX, foi recebida como algo ultrajante pela sociedade. Tinha-se que a sexualidade só viria a surgir posteriormente, na adolescência e que bebês e crianças pequenas eram tidos como puras e inocentes e com essa nova ideia sobre a infância, Freud atraiu maus olhares (CUNHA, 2008). 
Porém, ao contrário do que os outros entendiam, Freud quis dizer que na verdade as crianças também sentiam prazer, como por exemplo, ao sugar o leite do seio materno, haveria, portanto prazer nesse ato e Freud postulou que esse prazer seria da mesma natureza que o prazer sexual do adulto. Para esse prazer Freud designou o termo Libido e considerou-o como uma energia que move o humano na direção do prazer, independentemente de ser uma criança ou um homem (CUNHA, 2008).
            A libido do ponto de vista conceitual e em um sentido desenvolvimentista viria então a possuir ou obedecer a três fases de evolução onde seria amalgamada numa interação entre o psíquico e o orgânico do sujeito, determinando a construção da mente normal ou patológica. As fases da libido consistem nos momentos de maior atenuação da libido em determinadas áreas do corpo no desenvolvimento infantil, as zonas erógenas (partes do corpo que são excitadas com facilidade), zonas que se tornam pontos de vazão à energia sexual (CUNHA, 2008).
Ou seja, há fases de expressão da libido onde genericamente podemos resumir: a fase Oral ocorre quando a vivência prazerosa da criança se vê pela via da boca; em seguida temos a fase Anal, onde a atividade excretória assume um papel importante na vida da criança, e então posteriormente atinge a fase fálica onde a relevância para criança passa a ser seus genitais.
Cada fase de expressão da libido é importante no desenvolvimento, dependendo de como essas vivências irão ocorrer, isso irá ajudar na definição da personalidade do sujeito ou prejudicá-lo, criando algum resíduo fixado da libido em determinada fase mal desenvolvida, prejudicando o sujeito posteriormente na fase adulta.
 Esse tópico tem o objetivo de buscar expor resumidamente uma aproximação sobre o conceito de libido para que seja possível formarmos uma ideia básica do que se trata, lembrando que o universo que abarca a libido perpassa quase todas as teorias psicanalíticas e não se restringe aos conceitos freudianos retratados aqui.
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CUNHA, Marcus Vinícius da. Freud: psicanálise e educação. , 2008. Disponível em:<http://www.acervodigital.unesp.br/bitstream/123456789/140/3/01d08t01.pdf>. Acesso em: 03 set. 2012.

CARVALHO, Luís Alfredo Vidal de. O conceito de libido em psicanálise, 2004. Disponível em: <http://www.cos.ufrj.br/~alfredo/classnotes/LUIS%20ALFREDO%20LIBIDO.pdf>. Acesso em: 27 ago. 2012.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Caso clínico ''O homem dos ratos'' (Freud, 1909)

Apresento aqui uma breve resenha do caso clínico do homem dos ratos, um caso de neurose obsessiva acompanhado por Freud, buscarei observar os principais pontos abordados em seu acompanhamento, contudo, lembro que para uma compreensão mais aprofundada da história é indispensável a leitura do caso clínico encontrado em suas obras.
Um jovem apresentou-se a Freud afirmando ter ideias obsessivas que surgem em forma de temores de que aconteça alguma coisa a duas pessoas que muito ama, seu pai e uma dama, na qual tem grande admiração. Essas obsessões se manifestam em impulsos de cortar a própria garganta enquanto se barbeia ou criar proibições em relação a coisas sem importância alguma. Diante disto, Freud impôs uma única condição ao tratamento.

‘’ Dizer tudo que lhe vier à mente, ainda que lhe seja  desagradável, ainda   que lhe pareça insignificante, impertinente e sem sentido.’’ (FREUD, 1909, p.18.)

No decorrer da análise, Freud pode observar que na infância o jovem foi uma criança sob o domínio do componente sexual, o de olhar pessoas nuas. No entanto, justamente a esse desejo, carrega a ideia obsessiva de que sempre que tiver esse pensamento, irá temer que algo muito ruim deverá acontecer.

‘’ Restaurado conforme o seu sentido, o temor obsessivo é este, portanto:’ se tenho o desejo de ver uma mulher nua, meu pai vai morrer.’’’ (FREUD, 1909, p.23.)

Esse tipo de atitude começou a dar origem a impulsos para prevenir qualquer desgraça que possa acontecer. Ocorre que há um instinto erótico e uma revolta contra ele, ou seja, um desejo que vêm acompanhado por um temor que a ele se impõe. Nisso também observa Freud (1909), há uma espécie de delírio ao imaginar que os pais saberiam dos seus desejos.
Vemos então que essa neurose infantil traz uma questão incomum ao considerar que o pai vai morrer se o filho tiver um desejo sensual. O que se pode por em questão é que durante sua infância aconteceram vivências e conflitos que geraram repressões que sucumbiram a amnésia, deixando para trás esse temor obsessivo.
Em se tratando do afeto e sua recriminação, não é, portanto, sem sentido. Há sim a culpa, ela não é injustificada, acontece que ela ligou-se a outro conteúdo, um inconsciente, ou seja, esse conteúdo ideativo chegou a esse lugar por um nexo errado. Pensando dessa forma, Freud (1909) traz a indagação de como poderia alcançar o efeito curativo a informação de que a sua recriminação é justificada? A conclusão é que não é esta informação que causará esse efeito, mas sim a descoberta deste temor que se liga a repressão.
No decorrer da análise, pode-se alcançar que esse medo corresponde a um desejo antigo, então reprimido e por isso, justamente o oposto do que se trata. Ou seja, apesar de alegar o temor pela morte e desgraça do seu pai, na realidade o conteúdo inconsciente de suas manifestações traz o real desejo de que isso se realize. Apesar do intenso amor que nutria por seu pai, este grande amor é condição para o ódio reprimido. A natureza de sua hostilidade para com o pai vem da origem de seus apetites sexuais onde percebeu ele como estorvo aos seus desejos. Esse desejo pode ter surgido em um momento onde não amasse o pai mais que o seu desejo sensual, não sendo capaz de tornar clara essa decisão.
Apesar disso, ele não deve se considerar responsável por todas essas atitudes e pensamentos pois todos esses impulsos reprováveis procedem da infância, derivam do caráter infantil que existe no inconsciente, onde a responsabilidade ética não tem validez para a criança. Freud (1909) observa então que é no luto do pai a principal fonte da doença.
Sobre as ideias obsessivas, Freud (1909) traz que são pensamentos desprovidos de motivo ou de sentido, tal como os sonhos, o problema principal é dar sentido e lugar na vida psíquica de modo que torne-se compreensível. Essas ideias obsessivas por mais absurdas que pareçam, podem ser compreendidas se analisadas adequadamente, sendo então situados estes aspectos com as vivencias do paciente como por exemplo, quando surgiu e em quais circunstancias ela costuma aparecer e se repetir. Descobrindo o nexo da ideia obsessiva e de vivência do sujeito, será mais fácil a compreensão de suas formações patológicas.
No caso do rapaz, constata-se uma luta entre o amor e ódio direcionado a mesma pessoa onde essa luta se representa em manifestações no ato obsessivo. Na neurose obsessiva, diferentemente da histeria, onde busca-se um compromisso em comum que contemple os dois opostos em uma só representação, na obsessão os opostos são satisfeitos isoladamente.
Outro aspecto diferente entre a histeria e a neurose obsessiva é que na histeria as razões da enfermidade sucumbem à amnésia, amnésia esta fruto da repressão. Na neurose obsessiva ocorre de outra forma, assim como a histeria, os fatores infantis também podem ter sido sucumbidos a amnésia, porém os fatos recentes da enfermidade não, continuando preservados na memória.  A repressão agiu através de outro mecanismo, em vez de esquecer o trauma, retirou-lhe o investimento afetivo, restando na consciência apenas um conteúdo sem atribuição significativa ao fato.
Retomando agora a história do rapaz e do que levou a seu ponto chave com seu pai. Em sua infância teve o conhecimento de que seu pai era apaixonado por outra mulher que não sua mãe, porém acabou por casar-se com ela devido ao seu status social, essa atitude acabou por impressionar por demais o filho.
Devido a essa impressão acabou por reproduzir certos acometimentos semelhantes. Após a morte de seu pai, sua mãe lhe conta sobre planos futuros de arrumar um casamento que lhe abra muitas portas e atraia muito prestígio e oportunidade, o que lhe acomete o conflito em permanecer fiel ao amor de uma garota pobre que amava ou repetir os passos do pai.
O conflito, do seu amor e a vontade do pai, no entanto, solucionou-se através de um adoecimento onde sua enfermidade tornou-se incapacitante para o trabalho e estudos, temos então esta pertinente colocação de Freud (1909):

‘’ Mas o resultado da doença já estava na intenção dela; o que parece ser consequência é, na realidade, a causa, o motivo do adoecimento’’. (FREUD, 1909, p.60.)

Ainda em relação ao seu verdadeiro amor, o pai se interpôs, pouco antes de sua morte, afirmando esta atitude ser imprudente e ridícula.
Sua questão conflituosa com o pai vai além do que se trata de um comportamento peculiar, no que diz respeito a masturbação. Sua prática era realizada em ocasiões extraordinárias, onde considerasse situações belas e enaltecedoras, no entanto o que realmente acontecia era a ação de um ato proibido em um momento inadequado, sendo um desafio a ordem, tal como seus desejos eram em relação aos de seu pai.
Outro habito incomum que nutriu durante algum tempo consistia em estudar durante horas pela madrugada, indo em seguida até a porta observar se o seu pai estava ali, como que voltasse a vida, para então vê-lo fazendo algo que gostava, como estudar. No entanto, quando retornava ao quarto, postava-se frente ao espelho com o pênis para fora, coisa que com certeza desagradaria o pai. Portanto vemos assim em um mesmo ato, duas ações opostas, uma a fim de agradar, outra com o intuito de irritar.
Agora voltemo-nos para a ocasião chave que levou o rapaz a buscar ajuda. Ele relata que durante um período serviu o serviço militar e que lá esforçava-se por mostrar aos oficiais de que sabia lidar com as dificuldades lá apresentadas. Porém em uma das marchas, perdeu sua pincenê (um modelo de óculos), deixando o para trás para não atrapalhar o progresso, posteriormente encomendando um outro de Viena.
Durante seu descanso, tomou lugar entre dois oficiais, sendo um deles um capitão tcheco que relatou alguns métodos de castigo, um em especial que o impressionou bastante, onde é colocado um recipiente cheio de ratos virado sobre o anus do condenado, eles eram atiçados até perfurarem o anus do sujeito. Ficou muito afetado com a ideia de que isso sucederia a uma pessoa muito cara a ele, como o seu pai ou sua amada.
Na noite seguinte recebeu sua encomenda de Viena, porém descobriu que ficara em dívida com um tenente que teria pago o seu reembolso, e que devia pagar-lhe o devido valor. Sobre o pretexto dessa dívida ocorreu-lhe que a fantasia do rato tornar-se-ia realizada se não restituir o que era devido.
Nesse ponto ele acaba por ter outra identificação com o pai, este em seu tempo de juventude ocorrera de perder uma grande aposta na qual não teria se saído bem se o amigo não tivesse lhe ajudado, no entanto, posteriormente o pai não conseguira restituir seu amigo, atitude essa que sempre reprovou, no entanto, agora se encontrava em situação semelhante, afligindo-o imensamente.
A ideia da tortura com ratos estimulou e despertou várias recordações de modo que nesse intervalo de tempo adquiriu vários significados simbólicos. A história dos ratos despertou impulsos cruéis e de conotação sexual, no entanto, o paciente assimilou certas vivencias suas com características do rato, tanto como um animal pequeno, sujo, enraivecido, que costuma ser perseguido e castigado, exatamente como inconscientemente se imaginava na infância, pequeno, cometendo atitudes sujas, vindo a ser punido pelo pai.
Constata-se então, de acordo com suas experiências e vivencias que os ratos eram representações de crianças. Quando o capitão falou dos castigos com ratos, ele estabeleceu um vínculo com a sua infância onde ele mesmo havia dado mordidas.
Podemos observar um vasto material analítico e várias ideias obsessivas. Apesar do grande número de formações obsessivas, a ideia mostra-se sendo a mesma, porém com o teor diferenciado. Essa ideia obsessiva rejeitada, retorna deformada e por não ser reconhecida, possui mais chances de obter êxito.
Pode-se observar também que a neurose obsessiva tem a necessidade de ter a incerteza, pois é um dos métodos que a neurose se utiliza para se afastar da realidade do doente: ‘’ A neurose obsessiva utiliza-se prodigamente da incerteza da memória para a formação os sintomas.’’ (FREUD, 1909, p.95.)
Já as atitudes de amor e ódio do paciente são características da neurose obsessiva. Se há um amor que se contrapõe a um ódio igualmente forte o resultado é uma incapacidade de decisão. Essa dúvida corresponde a irresolução interna entre amor e ódio. A obsessão surge então com o intuito de compensar a dúvida e corrigi-la. Torna-se, portanto, ações obsessivas que se realizam com um dispêndio de energia onde normalmente é destinado aqueles pensamentos que buscam representar atos regressivos.
Apesar de tantas regressões incomodas ao paciente, o objetivo é introduzir os complexos reprimidos na consciência estimulando a elaboração desses assuntos no terreno da atividade psíquica consciente, facilitando a emergência e elaboração de outros conteúdos do inconsciente. 
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FREUD, Sigmund. OBSERVAÇÕES SOBRE UM CASO DE NEUROSE OBSESSIVA [‘’O HOMEM DOS RATOS’’] (1909). São Paulo: Companhia das letras, 2011. 

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Considerações psíquicas sobre o Luto

Desde a antiguidade o tema do luto vem sendo discutido sob diferentes olhares. Heráclito, considerado o filósofo que chorava, lamentava o caráter efêmero e passageiro das coisas. No seu entendimento esse aspecto da vida legar-nos-ia a dor e tristeza (TIBURI, 2008). Enquanto Demócrito, em oposição a Heráclito, tornara-se conhecido como filósofo que ria, esse riso, segundo o padre Antônio Vieira (1608-1697), pode ser entendido como uma maneira diferente de chorar, esse riso não seria de caráter cômico mas sim algo que ultrapassaria o irônico, sarcástico, que surge justo quando temos consciência da condição da nossa própria miséria (TIBURI, 2008).
Em Aristóteles a tristeza não seria algo ruim, uma vez que a sensação de sentir-se sozinho e abandonado em um total vazio de sentido seria necessária para a meditação. A melancolia seria um modo de existir, devendo o melancólico acostumar-se e a partir disso tentar produzir (TIBURI, 2008). 
Pensar a tristeza e o recolhimento em diferentes contextos históricos mostra-nos claramente o quanto o modelo de sociedade de cada época determina o modo como os homens vivenciam suas perdas.
Na Idade Média ficar triste era considerado um pecado, pois em tristeza se afastaria de Deus e iria contra seus princípios de amor e bem estar. Percebe-se claramente que toda a lógica do pensamento medieval conduzia a uma visão acrítica da realidade. O modelo de sociedade imposto e as desigualdades sociais eram entendidos como predestinação, a ordem não poderia ser questionada, uma vez que nada acontecia sem a permissão de Deus, logo, nada estava errado. Desse modo, a religião católica atendia perfeitamente aos interesses econômicos da época. E com esse entendimento, toda produção de conhecimento assim como toda a lógica de organização social deveria ser controlada pela Igreja, até mesmo os sentimentos mais íntimos ligados as dores pessoais.
            Mais tarde, contrariando o pensamento de Aristóteles e o controle medieval, Johann Wolfgang Von Goethe (1749 - 1832), viria a dizer que a tristeza seria uma doença do pensamento, está idéia foi apoiada por Sigmund Freud no seu artigo Luto e Melancolia (1917).
Nesse trabalho, Freud define o luto como a reação à perda de um ente querido ou de alguma abstração que tenha tomado lugar de ente querido, como país, pátria, algo ou alguém ideal. Ele acredita que em algumas pessoas pode haver uma propensão a produzirem melancolia em vez de luto, e que isso seria uma disposição patológica. Ele frisa que mesmo que o luto envolva graves afastamentos daquilo que constitui a atitude normal para a vida, jamais se deve pensar que isso seja uma condição patológica e submeter a tratamento médico, conclui que tudo é superado após certo tempo e que é inútil ou até mesmo prejudicial qualquer interferência em relação a isso. (FREUD, 1917)
De acordo com Freud (1917), o processo de luto se dá com a prova de que a realidade revela que o objeto amado está perdido, passando a exigir que toda a libido seja retirada de suas ligações com o objeto perdido. Essa exigência, por sua vez, provoca uma oposição compreensível, pois, afirma, é fato notório que as pessoas nunca abandonam de bom grado uma posição libidinal, mesmo que haja um substituto para ela. Existe um período necessário para que se elabore o luto e a perda sofrida e esse tempo não deve ser alterado, burlado ou ignorado, sendo importante para que possa se fazer a devida elaboração do luto do perdido. (FREUD, 1917).
Em Kovács (1992), a morte vem como vinculo que se rompe, de forma irreversível, sobretudo quando há uma perda real. Na representação de morte se encontraria duas pessoas, a pessoa perdida e a outra que sente e lamenta a falta. O outro seria uma parte internalizada nas memórias e lembranças. A morte como perda nos traz sentimentos, e que pode ser chamada de morte de sentimentos, que é vivida por todos nós. Diz que é impossível que alguém nunca tenha vivido uma perda. Essa perda é vivida conscientemente, por isso é mais temida que a própria morte. Como a morte não pode ser vivida concretamente, a única morte é a perda, quer seja concreta ou simbólica. (KOVÁCS, 1992).
Essa compreensão do luto é reforçada nas ideias de Mazorra quando afirma que “[...] o luto é o processo de reconstrução, de reorganização, diante da morte, desafio emocional e cognitivo com o qual o sujeito tem de lidar” (MAZORRA apud LOUZETTE; GATTI 2007, p.77). Assim como em Rebelo ao defender o luto como “um período mais ou menos longo que é necessário viver, após a perda de um ente querido, para que todos os momentos belos com ele partilhados se transformem em doces e suaves memórias” (REBELO, 2004).
Podemos observar que para tais pensadores, encontramos a importância do luto em suas afirmações. Concordam perfeitamente entre si a ideia da necessidade de viver e elaborar as perdas que a vida traz que, como diz Kovács, é impossível que ninguém nunca tenha vivido uma perda na vida e podemos concluir esse pensamento com o de Freud que é necessário um tempo para elaborar o luto e a perda sofrida e que esse tempo não deve ser burlado.
No entanto, como se dá esse processo? Em termos psicanalíticos, o luto se mostra como processo mais adequado para lidar com a perda do objeto. Através dele há uma elaboração do afeto investido no objeto perdido, com isso, o Eu por esse processo consegue trabalhar o desinvestimento libidinal para que assim seja possível reinvesti-lo em outro objeto. Como nos diz Quinet (2010, p. 173) ’[...] o sujeito, para sair da dor, deve fazer o luto do que perdeu”. Ou seja, elaborar a dor do objeto que perdeu, necessário para poder investir o afeto em outro objeto.  A elaboração do afeto pelo luto ajuda a reconhecer a dor, a ter consciência da perda, da impossibilidade do acesso ao objeto desejante. Reconhecer esse fato impede uma fixação sintomática bem como um auto investimento libidinal, tal elaboração evitará caminhos impróprios para a libido, trabalhando-a para investi-la em um novo objeto, de forma positiva e saudável.
Percebemos que o luto consiste no trabalho sobre o afeto e o caminho que este poderá tomar, buscando viabilizar a superação da perda através de um caminho mais construtivo e satisfatório, contudo, esse não é o único caminho que poderá ser tomado. O afeto mal investido que decorre da perda do objeto, consequência da não elaboração promovida pelo luto, acaba por tomar caminhos que podem trazer prejuízos psíquicos. Podemos citar duas possibilidades, uma formação sintomática ou a entrada para a depressão.
A formação do sintoma trata-se da manifestação deste afeto sem caminho, represado (ou seja, o afeto que acabou encontrando um outro caminho ao invés do luto), impedido de encontrar satisfação na realidade. A questão é que o desejo a partir do inconsciente continuará forçando o seu extravasamento e como o objeto antes desejado estará impedido pelas forças da realidade a saída encontrada será a formação do sintoma. O sintoma então se mostrará como uma alternativa para o extravasamento do desejo, uma vez que novos caminhos para satisfazer o desejo estarão bloqueados. O sintoma representará o afeto que foi retido e mal direcionado buscando formas distorcidas de realizar sua satisfação, esta substitutiva, deformada pela repressão processada para com o desejo original, que torna impossível o acesso ao objeto desejado. Contudo, se trata de uma satisfação de natureza problemática, sendo sentido pelo sujeito com sofrimento e gerador de desprazer.
            Vejamos agora o caminho que esse afeto toma para que incida na formação melancólica (depressão). Na melancolia a reação a perda age diferentemente do luto, nela o sujeito não consegue mais identificar o seu objeto perdido no mundo externo, ou seja, falta o processo de elaboração da perda. Dito de outro modo, o sujeito não sabe o que perdeu e por não saber o que perdeu, identifica-se de forma inconsciente com o objeto perdido. Devido a esse processo, ele não busca desinvestir libidinalmente o objeto que perdeu, mas sim se identificar com ele, o que faz com que haja um auto investimento libidinal.
Todo aquele afeto que havia investido no objeto perdido, ao invés de elabora-lo para um outro caminho, acaba por investir nele mesmo. A libido que era investida no objeto é deslocada para o Eu, de forma que o Eu assume o lugar do objeto perdido, identificando-se com ele, tomando-o como o objeto a ser criticado. O ódio que devia se voltar para objeto perdido, se volta para o próprio eu. Essa desorganização imaginária aparece num desinvestimento da realidade, do outro e do próprio eu.
Nesse breve estudo podemos perceber como age o processo de luto, onde embora pareça ser uma aceitação passiva das perdas que a vida lhe traz, mostrasse uma ação ativa onde precisasse encarar a perda e saber lidar com ela.  Vemos que o Luto vem elaborar o afeto antes investido no objeto, este agora perdido, evitando seu mal direcionamento para que não haja consequências negativas no psiquismo do sujeito como a depressão ou uma formação sintomática, ajudando a eleger um novo objeto, construtivo e saudável.
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TIBURI, Marcia. Tristeza. Observações sobre palestra exibida no programa Café Filosófico - Tv Cultura por Luciano Ventura. Disponível em: <http://www.lucianoventura.com.br/resenhacoment.php?evto=14>. Acesso em: 08 out. 2011.
FREUD, Sigmund. LUTO E MELANCOLIA. Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund vol XIV Rio de Janeiro: Imago, 1917. v.
QUINET, Antonio. Psicose e laço social: esquizofrenia, paranóia e melancolia. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.
LOUZETTE, Fernanda Lucena; GATTI, Ana Lúcia. Luto na infância e as suas conseqüências no desenvolvimento psicológico. Disponível em: <ftp://ftp.usjt.br/pub/revistaic/pag77_edi01.pdf>. Acesso em: 23 nov. 2011.
PAULA, Joanna D’arc de. O Luto e Suas Manifestações. Disponível em: <http://www.actassnip2010.com/conteudos/actas/PsiCli_12.pdf>. Acesso em: 29 set. 2011.
CENTRO DE MEDICINA PSICOSSOMATICA E PSICOLOGIA MÉDICA HOSPITAL GERAL DA SANTA CASA DE MISERICIRDIA DO RIO DE JANEIRO. Luto patológico. Rio de Janeiro, [s.n.]., 2004. Disponível em: <http://http://www.medicinapsicossomatica.com.br/glossario/luto_patologico.htm>. Acesso em: 20 nov. 2011.
KOVACS.M.J. Morte e Desenvolvimento Humano. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1992.
 CAPITÃO, Cláudio Garcia; SANTOS, Elaine Santana dos. Luto e Depressão: Perdas e danos. 2009. Disponível em: <http://www.psicopedagogia.com.br/artigos/artigo.asp?entrID=1128>. Acesso em: 03 dez. 2011.


sábado, 18 de abril de 2015

O que são cuidados paliativos?

O cuidado paliativo é uma prática que visa oferecer ao sujeito que não possui expectativa de cura um atendimento que estimule bem-estar e qualidade de vida tanto para ele quanto para sua família. Essa proposta terapêutica surgiu com o avanço da medicina no enfrentamento de doenças graves e fatais, o que acabou por prolongar a vida de pacientes que já não possuíam grandes possibilidades de cura (FERREIRA; LOPES; MELO, 2011).
Ou seja, são medidas terapêuticas que não possuem a intenção de curar mas sim de aliviar os efeitos negativos do adoecimento (MELO; VALERO; MENEZES, 2013).
Logo o objetivo não é mais a cura propriamente dita mas sim o de aliviar os sintomas, a dor e o sofrimento, oferecendo uma assistência mais humanizada, dando suporte a todas as dimensões psicológicas neste período que antecede a morte. Certas doenças causam muito sofrimento ao sujeito e além de impactos físicos, também há fortes impressões na visa psíquica, econômica e social. Todos os transtornos que a doença traz consigo acabam por gerar muitos transtornos psicológicos, afetando a qualidade de vida e até mesmo alguma possibilidade de cura que ainda exista pelo tratamento (FERREIRA; LOPES; MELO, 2011).
O psicólogo deve oferecer um espaço onde o sujeito possa expressar seus sentimentos e angustias, que sinta-se seguro e encontre um cúmplice nessa última etapa, aliviando a solidão e o sofrimento psíquico. É interessante que o psicólogo explore as fantasias que o sujeito cria diante de seus medos, buscando uma elaboração desse conteúdo afim de que novas possibilidades de enfrentamento surjam (MELO; VALERO; MENEZES, 2013).
Cabe ao psicólogo além do suporte a vida, saber identificar os recursos que o sujeito ainda dispõe para enfrentar essas situações. Neste momento é imprescindível que o sujeito encontre formas de controlar os sintomas para que consiga encontrar meios que diminuam o sofrimento e assim clareei a mente para que possa enxergar esses novos caminhos (FERREIRA; LOPES; MELO, 2011).
O psicólogo também deve trabalhar a questão da morte tanto para o sujeito como pra sua família, criando um espaço de despedidas e de preparação para a separação, sendo preciso que se faça entender que a morte é um processo natural da vida, analisando as fantasias de imortalidade e ressignificação dessa experiência (FERREIRA; LOPES; MELO, 2011).
No cuidado paliativo o psicólogo deve buscar promover o controle da dor e de fatores estressantes, trabalhando a questão da morte e oferecendo suporte para a família. Para tanto é necessário que esteja atento a sintomatologia e patologia, para que possa identificar quais as causas dos transtornos que geram mais fatores de estresse e sofrimento. Uma abordagem que se mostra interessante nesse tipo de processo é o trabalho referente a questões de espiritualidade, revelando uma fonte de conforto e recurso para o enfrentamento da doença (FERREIRA; LOPES; MELO, 2011).
É importante visualizar a importância de que o cuidado paliativo tenha sempre que possível uma abordagem multidisciplinar, para que se possa oferecer um suporte integral em todos as dimensões do corpo e mente do sujeito (FERREIRA; LOPES; MELO, 2011).
Para esse tipo de atuação o psicólogo deve possuir empatia e escuta acolhedora, sendo preciso compreender a transmissão de mensagens que muitas vezes poderão ocorrer de forma não verbal. Neste sentido é importante observar como o psicólogo atua como um canal de comunicação entre o sujeito e os familiares e a equipe envolvida, favorecendo a identificação de necessidades do sujeito e da família (FERREIRA; LOPES; MELO, 2011).
Por fim, talvez o ponto mais importante nesta modalidade terapêutica é o trabalho sobre a autonomia do sujeito, que muitas vezes se mostra não só vítima de um processo de adoecimento, como também de um grande processo de medicalização, onde vai perdendo cada vez mais sua autonomia e opção de escolhas. Por isso é importante que o psicólogo incentive junto a equipe e a família o respeito as escolhas, os desejos e os limites emocionais do paciente, compreendendo a dimensão da experiência na qual ele está passando (FERREIRA; LOPES; MELO, 2011).
Podemos concluir que o objetivo do cuidado paliativo é oferecer um suporte ao sujeito em sua última etapa de vida, auxiliando no enfrentamento de situações desconfortantes e difíceis, apoiando-o para que essa experiência possa se tornar algo significativo e consolador a todos os envolvidos.
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FERREIRA, Ana Paula de Queiroz; LOPES, Leany Queiroz Ferreira e MELO, Mônica Cristina Batista de. O papel do psicólogo na equipe de cuidados paliativos junto ao paciente com câncer*. Rev. SBPH [online]. 2011, vol.14, n.2, pp. 85-98. ISSN 1516-0858.

MELO, Anne Cristine de; VALERO, Fernanda Fernandes e MENEZES, Marina. A intervenção psicológica em cuidados paliativos. Psic., Saúde & Doenças [online]. 2013, vol.14, n.3, pp. 452-469. ISSN 1645-0086.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Atendimento domiciliar em psicologia

O atendimento domiciliar é oferecido a pessoas com impedimentos físicos ou psicológicos de irem ao consultório, sendo exemplo disso pacientes acidentados ou idosos. Esta prática apresenta obstáculos que fazem com que o psicólogo deva ser versátil em sua atuação, devendo estar pronto para atender o sujeito em sua casa, sabendo lidar com toda a interferência familiar ou de cunho pessoal do paciente. É preciso analisar a dinâmica familiar e saber tomar uma postura junto a ela, sem se deixar levar  por ela (ROTH, 2001).
Por tratar-se de um assunto que diz respeito ao adoecimento é importante compreender como esse processo afeta o sujeito. O adoecimento impõe a ele uma situação desagradável, incerto de como será o seu futuro e sua recuperação, e por mais que exista a dor o sofrimento psicológico depende da postura do sujeito frente a esse processo (ROTH, 2001).
A psicologia então vem para auxiliar o sujeito a encontrar seus próprios recursos, propiciando um melhor enfrentamento da situação. Para tanto é importante entender como se deu o processo de adoecimento, se foi algo repentino ou fruto de um longo processo. Esta doença traz junto dela problemas sérios que não afetam só o doente mas também a família. Apesar disso é importante lembrarmos de como é curioso o funcionamento psíquico, pois é bem possível (talvez, até mesmo fácil) que se encontrem pessoas que o adoecimento lhes traz vantagens, como mais atenção e cuidado, revelando então uma realidade para além da doença, mostrando uma condição que possa inconscientemente prolongar o adoecimento (ROTH, 2001).
Portanto é de extrema necessidade que o psicólogo saiba observar a expressão de como o paciente está compreendendo sua doença. Deve estar atento a forma que a pessoa vivencia esse momento pois essa atitude é um material cheio e significados atribuídos a doença e as suas consequências (ROTH, 2001).
Em sua atuação o psicólogo deve atentar para os recursos disponíveis para a terapia, é importante perceber que a pessoa encontra-se fragilizada e que não conta com 100% de sua capacidade, onde nem sempre terá condições de verbalizar o que sente ou de conversar por muito tempo. Porém o psicólogo não pode compreender isso como limitação do paciente e obstáculo ao atendimento. Deve ser capaz de conseguir contornar esta situação tendo em mente como este fator afeta a ansiedade e angustia do sujeito (ROTH, 2001).

O terapeuta deve sempre ter em mente que o fato do paciente não poder falar muitas vezes é apenas mais um fator gerador de ansiedade e angustia para o paciente, e não deve entender essa dificuldade como limitação para o atendimento. Não poder atender um paciente impossibilitado de falar é sempre limitação do terapeuta e não do paciente. (ROTH, 2001, p.12.)

Também é importante para o psicólogo observar que esse sujeito pode estar sendo acompanhado por vários outros profissionais, sendo interessante saber o que o sujeito pensa de estar em meio a toda essa dinâmica que foge do seu controle. Quando se atende alguém que está sendo acompanhado é importante que entre em contato tanto para comunicar que agora também faz parte do acompanhamento bem como para saber da situação clínica em que se encontra. E justamente por ter tantos profissionais atendendo sobre ele de uma forma que lhe tira toda a autonomia é de especial relevância que seja acertado com o próprio paciente se ele realmente tem ou não o interesse de fazer a psicoterapia (ROTH, 2001).
Entrar na casa do paciente é outro assunto delicado, esta entrada expõe informações que fogem do controle do paciente, não se sabe se ele desejaria revelar ou não, podendo ser constrangedor para ele e para família, portanto é importante que se respeite a dinâmica e as regras no espaço domiciliar, a fim que a visita profissional não seja interpretada como uma invasão (LAHAM, 2003).
Tendo então esse contato com a família, deve-se observar em como ela também é afetada, sondando os eventuais problemas familiares que possam estar prejudicando a recuperação e tratamento do sujeito. Porém o psicólogo não deve permitir que sua visita torne-se algo social, seu objetivo é terapêutico e por isso deve delimitar o devido espaço para a realização do seu trabalho (LAHAM, 2003).
Por fim o psicólogo pode chegar à conclusão de que o paciente tenha apenas a possibilidade de receber cuidados paliativos, sendo portanto necessário que se ofereça a ele todos os recursos possíveis para que possa passar por esse momento da melhor maneira possível. Podemos concluir que o atendimento domiciliar oferece um novo leque de possibilidades de atuação como também um contato profundo com a realidade do sujeito e mesmo que este contato tão cru revele vários obstáculos, é o dever de um bom profissional lidar com isso (LAHAM, 2003).
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ROTH, Maria Cecília. Atendimento Psicológico Domiciliar. 2001. Disponível em: <http://www.neppho.com.br/saiba-mais/19-atendimento-psicológico-domiciliar>. Acesso em: 15 mar. 15.
LAHAM, Cláudia Fernandes. Peculiaridades do atendimento psicológico em domicílio e o trabalho em equipe. --, São Paulo, p.1-9, 2003.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Psicoterapia com Idosos

A psicoterapia na terceira idade vem ampliando seu alcance ao longo de sua caminhada, tem se visto o aumento do acompanhamento em idosos, em sua maioria acima de 60 anos. Estes idosos têm se mostrado mais interessados que públicos de outras idades, levando mais a sério a terapia e suas novas elaborações
Mas qual o caminho percorrido até se chegar a esse ponto? Podemos começar por um possível diagnóstico demencial, esta informação pode causar um grande efeito, tanto no idoso quanto em sua família. Tal estado psicológico gerado pode ser considerado alguma sintomatologia da doença diagnosticada, sem então da atenção a situação psíquica que o sujeito se encontra. O acompanhamento desta doença passa a mudar as interpretações dos comportamentos habituais sendo relacionados a estágios da doença, gerando uma expectativa do declínio que está por vir, colocando o idoso em uma situação que não há muitas escolhas a serem oferecidas (DOURADO; SOUSA; SANTOS, 2012).
Eles sofrem um duplo ataque onde a princípio sentem a perda de sua própria imagem e enfraquecimento do Eu e a alienação social na qual são submetidos. Neste ponto a terapia busca ajudar no enfrentamento deste sentimento de desamparo relacionado a sua imagem e consciência prejudicada. A terapia estimulará sua capacidade de reação, autoestima, a expressão de seus afetos, oferecendo um espaço para que o idoso possa falar do medo de estar enlouquecendo, de sua frustração em tentar lembrar de algo e esquecer, do desamparo que sente ao estar no meio de toda esta situação. A escuta oferece a chance de ser compreendido (DOURADO; SOUSA; SANTOS, 2012).
Para tanto, é necessário que se compreenda o processo narcísico, ponto chave na psicologia do idoso. O narcisismo é uma energia (libido) que investe o eu e variavelmente o objeto. Em certa circunstancia esta energia estaria completamente esvaziada do eu e investida no objeto, contrariando, dessa forma, as pulsões de autoconservação, causando no Eu uma grande fragilidade para lidar com as perdas e limitações que a vida traz (DOURADO; SOUSA; SANTOS, 2012).
Este desequilíbrio narcísico gera prejuízos graves a consciência, deixando-a vulnerável para a instalação de quadros depressivos e melancólicos. No entanto, podemos encontrar no processo do luto algumas respostas que podem auxiliar a lidar com essas reações. O luto trata-se de uma reação normal ao rompimento de um vínculo com o intuito de proporcionar a reconstrução de recursos e estimular um processo de adaptação e enfrentamento as mudanças ocorridas (DOURADO; SOUSA; SANTOS, 2012).
Esta dinâmica mental da elaboração da perda é um processo ativo que retira os investimentos libidinais do objeto perdido, sendo este objeto uma condição de ser, um sentimento ou mesmo um estado de saúde. Durante a psicoterapia as recordações a este objeto perdido podem ser elaboradas, trazendo a possibilidade de que surja um novo objeto que preencha o espaço vazio do Eu. Ainda assim o trabalho do luto na terceira idade é difícil pois os recursos a serem utilizados como novos objetos são mais escassos. Segundo Dourado, Souza e Santos (2012) é possível considerar a clínica com idosos uma clínica do luto.
Podemos considerar a clínica psicológica com idosos uma clínica do luto, na medida em que o luto na velhice se apresenta em toda a sua radicalidade. Neste momento devido às perdas acumuladas, o desencadeamento da depressão pode consistir uma reação à perda da juventude no que ela traz de beleza, produtividade, saúde e, principalmente, expectativa de vida. (DOURADO; SOUZA; SANTOS, 2012, p.7.)

            As manifestações na clínica com idosos traz suas vivências no processo do envelhecimento e adoecimento; seus temores e preocupações as novas mudanças em sua vida a que estão sujeitos, estando sua autoestima ferida, encarando uma queda em suas capacidades físicas e mentais, atenuando muito sua insatisfação na medida que passam a cada vez mais depender de outros, (obviamente não se exclui aqui casos diversos onde o idoso gosta dessa dependência). Aos poucos ele constata que não possui mais os mesmos recursos de outrora. Contudo um recurso que pode ser usado é a lembrança. Elas podem ser usadas para ressignificar um passado, repensando-o afim de encontrar novas possibilidades e recursos (DOURADO; SOUSA; SANTOS, 2012).
É então importante ao idoso elaborar o seu passado, pois sem ele encontra-se vazio e dessa maneira, carente de recursos para enfrentar as perdas que a vida reserva. Essa terapia objetiva, portanto, uma revisitação ao passado, a fim de reinventá-lo, recriá-lo, interpretando-o para que se encontre um espaço para as mudanças necessárias para o trabalho de elaboração. Podemos concluir que este tipo de psicoterapia pode oferecer novos recursos na elaboração das perdas recorrentes a esta etapa da vida, melhorando a qualidade de vida e sua capacidade de lidar com situações estressantes (DOURADO; SOUSA; SANTOS, 2012).
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DOURADO, Marcia Cristina Nascimento; SOUSA, Maria Fernanda Barroso de; SANTOS, Raquel Luiza. Ensinando Psicoterapia com Idosos: desafios e impasses. Rbpsicoterapia, Rio de Janeiro, v. 14, n. 1, p.92-102, 2012.