''Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro.''
Sigmund Freud

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Psicoterapia com Idosos

A psicoterapia na terceira idade vem ampliando seu alcance ao longo de sua caminhada, tem se visto o aumento do acompanhamento em idosos, em sua maioria acima de 60 anos. Estes idosos têm se mostrado mais interessados que públicos de outras idades, levando mais a sério a terapia e suas novas elaborações
Mas qual o caminho percorrido até se chegar a esse ponto? Podemos começar por um possível diagnóstico demencial, esta informação pode causar um grande efeito, tanto no idoso quanto em sua família. Tal estado psicológico gerado pode ser considerado alguma sintomatologia da doença diagnosticada, sem então da atenção a situação psíquica que o sujeito se encontra. O acompanhamento desta doença passa a mudar as interpretações dos comportamentos habituais sendo relacionados a estágios da doença, gerando uma expectativa do declínio que está por vir, colocando o idoso em uma situação que não há muitas escolhas a serem oferecidas (DOURADO; SOUSA; SANTOS, 2012).
Eles sofrem um duplo ataque onde a princípio sentem a perda de sua própria imagem e enfraquecimento do Eu e a alienação social na qual são submetidos. Neste ponto a terapia busca ajudar no enfrentamento deste sentimento de desamparo relacionado a sua imagem e consciência prejudicada. A terapia estimulará sua capacidade de reação, autoestima, a expressão de seus afetos, oferecendo um espaço para que o idoso possa falar do medo de estar enlouquecendo, de sua frustração em tentar lembrar de algo e esquecer, do desamparo que sente ao estar no meio de toda esta situação. A escuta oferece a chance de ser compreendido (DOURADO; SOUSA; SANTOS, 2012).
Para tanto, é necessário que se compreenda o processo narcísico, ponto chave na psicologia do idoso. O narcisismo é uma energia (libido) que investe o eu e variavelmente o objeto. Em certa circunstancia esta energia estaria completamente esvaziada do eu e investida no objeto, contrariando, dessa forma, as pulsões de autoconservação, causando no Eu uma grande fragilidade para lidar com as perdas e limitações que a vida traz (DOURADO; SOUSA; SANTOS, 2012).
Este desequilíbrio narcísico gera prejuízos graves a consciência, deixando-a vulnerável para a instalação de quadros depressivos e melancólicos. No entanto, podemos encontrar no processo do luto algumas respostas que podem auxiliar a lidar com essas reações. O luto trata-se de uma reação normal ao rompimento de um vínculo com o intuito de proporcionar a reconstrução de recursos e estimular um processo de adaptação e enfrentamento as mudanças ocorridas (DOURADO; SOUSA; SANTOS, 2012).
Esta dinâmica mental da elaboração da perda é um processo ativo que retira os investimentos libidinais do objeto perdido, sendo este objeto uma condição de ser, um sentimento ou mesmo um estado de saúde. Durante a psicoterapia as recordações a este objeto perdido podem ser elaboradas, trazendo a possibilidade de que surja um novo objeto que preencha o espaço vazio do Eu. Ainda assim o trabalho do luto na terceira idade é difícil pois os recursos a serem utilizados como novos objetos são mais escassos. Segundo Dourado, Souza e Santos (2012) é possível considerar a clínica com idosos uma clínica do luto.
Podemos considerar a clínica psicológica com idosos uma clínica do luto, na medida em que o luto na velhice se apresenta em toda a sua radicalidade. Neste momento devido às perdas acumuladas, o desencadeamento da depressão pode consistir uma reação à perda da juventude no que ela traz de beleza, produtividade, saúde e, principalmente, expectativa de vida. (DOURADO; SOUZA; SANTOS, 2012, p.7.)

            As manifestações na clínica com idosos traz suas vivências no processo do envelhecimento e adoecimento; seus temores e preocupações as novas mudanças em sua vida a que estão sujeitos, estando sua autoestima ferida, encarando uma queda em suas capacidades físicas e mentais, atenuando muito sua insatisfação na medida que passam a cada vez mais depender de outros, (obviamente não se exclui aqui casos diversos onde o idoso gosta dessa dependência). Aos poucos ele constata que não possui mais os mesmos recursos de outrora. Contudo um recurso que pode ser usado é a lembrança. Elas podem ser usadas para ressignificar um passado, repensando-o afim de encontrar novas possibilidades e recursos (DOURADO; SOUSA; SANTOS, 2012).
É então importante ao idoso elaborar o seu passado, pois sem ele encontra-se vazio e dessa maneira, carente de recursos para enfrentar as perdas que a vida reserva. Essa terapia objetiva, portanto, uma revisitação ao passado, a fim de reinventá-lo, recriá-lo, interpretando-o para que se encontre um espaço para as mudanças necessárias para o trabalho de elaboração. Podemos concluir que este tipo de psicoterapia pode oferecer novos recursos na elaboração das perdas recorrentes a esta etapa da vida, melhorando a qualidade de vida e sua capacidade de lidar com situações estressantes (DOURADO; SOUSA; SANTOS, 2012).
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DOURADO, Marcia Cristina Nascimento; SOUSA, Maria Fernanda Barroso de; SANTOS, Raquel Luiza. Ensinando Psicoterapia com Idosos: desafios e impasses. Rbpsicoterapia, Rio de Janeiro, v. 14, n. 1, p.92-102, 2012.

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