A
psicoterapia na terceira idade vem ampliando seu alcance ao longo de sua caminhada,
tem se visto o aumento do acompanhamento em idosos, em sua maioria acima de 60
anos. Estes idosos têm se mostrado mais interessados que públicos de outras idades,
levando mais a sério a terapia e suas novas elaborações
Mas
qual o caminho percorrido até se chegar a esse ponto? Podemos começar por um
possível diagnóstico demencial, esta informação pode causar um grande efeito,
tanto no idoso quanto em sua família. Tal estado psicológico gerado pode ser
considerado alguma sintomatologia da doença diagnosticada, sem então da atenção
a situação psíquica que o sujeito se encontra. O acompanhamento desta doença
passa a mudar as interpretações dos comportamentos habituais sendo relacionados
a estágios da doença, gerando uma expectativa do declínio que está por vir,
colocando o idoso em uma situação que não há muitas escolhas a serem oferecidas
(DOURADO; SOUSA; SANTOS, 2012).
Eles
sofrem um duplo ataque onde a princípio sentem a perda de sua própria imagem e
enfraquecimento do Eu e a alienação social na qual são submetidos. Neste ponto
a terapia busca ajudar no enfrentamento deste sentimento de desamparo
relacionado a sua imagem e consciência prejudicada. A terapia estimulará sua
capacidade de reação, autoestima, a expressão de seus afetos, oferecendo um
espaço para que o idoso possa falar do medo de estar enlouquecendo, de sua
frustração em tentar lembrar de algo e esquecer, do desamparo que sente ao estar
no meio de toda esta situação. A escuta oferece a chance de ser compreendido (DOURADO;
SOUSA; SANTOS, 2012).
Para
tanto, é necessário que se compreenda o processo narcísico, ponto chave na
psicologia do idoso. O narcisismo é uma energia (libido) que investe o eu e
variavelmente o objeto. Em certa circunstancia esta energia estaria
completamente esvaziada do eu e investida no objeto, contrariando, dessa forma,
as pulsões de autoconservação, causando no Eu uma grande fragilidade para lidar
com as perdas e limitações que a vida traz (DOURADO; SOUSA; SANTOS, 2012).
Este
desequilíbrio narcísico gera prejuízos graves a consciência, deixando-a
vulnerável para a instalação de quadros depressivos e melancólicos. No entanto,
podemos encontrar no processo do luto algumas respostas que podem auxiliar a
lidar com essas reações. O luto trata-se de uma reação normal ao rompimento de
um vínculo com o intuito de proporcionar a reconstrução de recursos e estimular
um processo de adaptação e enfrentamento as mudanças ocorridas (DOURADO; SOUSA;
SANTOS, 2012).
Esta
dinâmica mental da elaboração da perda é um processo ativo que retira os
investimentos libidinais do objeto perdido, sendo este objeto uma condição de
ser, um sentimento ou mesmo um estado de saúde. Durante a psicoterapia as
recordações a este objeto perdido podem ser elaboradas, trazendo a
possibilidade de que surja um novo objeto que preencha o espaço vazio do Eu. Ainda
assim o trabalho do luto na terceira idade é difícil pois os recursos a serem
utilizados como novos objetos são mais escassos. Segundo Dourado, Souza e Santos
(2012) é possível considerar a clínica com idosos uma clínica do luto.
Podemos considerar a clínica psicológica com
idosos uma clínica do luto, na medida em que o luto na velhice se apresenta em
toda a sua radicalidade. Neste momento devido às perdas acumuladas, o
desencadeamento da depressão pode consistir uma reação à perda da juventude no
que ela traz de beleza, produtividade, saúde e, principalmente, expectativa de
vida. (DOURADO; SOUZA; SANTOS, 2012, p.7.)
As manifestações na clínica com
idosos traz suas vivências no processo do envelhecimento e adoecimento; seus
temores e preocupações as novas mudanças em sua vida a que estão sujeitos, estando
sua autoestima ferida, encarando uma queda em suas capacidades físicas e
mentais, atenuando muito sua insatisfação na medida que passam a cada vez mais
depender de outros, (obviamente não se exclui aqui casos diversos onde o idoso gosta
dessa dependência). Aos poucos ele constata que não possui mais os mesmos
recursos de outrora. Contudo um recurso que pode ser usado é a lembrança. Elas
podem ser usadas para ressignificar um passado, repensando-o afim de encontrar
novas possibilidades e recursos (DOURADO; SOUSA; SANTOS, 2012).
É
então importante ao idoso elaborar o seu passado, pois sem ele encontra-se
vazio e dessa maneira, carente de recursos para enfrentar as perdas que a vida
reserva. Essa terapia objetiva, portanto, uma revisitação ao passado, a fim de
reinventá-lo, recriá-lo, interpretando-o para que se encontre um espaço para as
mudanças necessárias para o trabalho de elaboração. Podemos concluir que este
tipo de psicoterapia pode oferecer novos recursos na elaboração das perdas
recorrentes a esta etapa da vida, melhorando a qualidade de vida e sua
capacidade de lidar com situações estressantes (DOURADO; SOUSA; SANTOS, 2012).
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DOURADO,
Marcia Cristina Nascimento; SOUSA, Maria Fernanda Barroso de; SANTOS, Raquel
Luiza. Ensinando Psicoterapia com Idosos: desafios e impasses. Rbpsicoterapia,
Rio de Janeiro, v. 14, n. 1, p.92-102, 2012.
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