No
acompanhamento terapêutico infantil muitas vezes faz-se necessário o uso de
métodos para que seja possível alcançar um olhar mais aprofundado sobre a
criança e os fatores que a envolvem, principalmente quando é preciso o caminho
certo para se estabelecer uma clara comunicação com a criança. Aqui venho
apresentar algumas dessas práticas.
A
primeira delas é o Jogo do rabisco do
psicanalista Winnicott. Neste jogo dá-se a criança total liberdade para
escolher as formas de comunicação, seja através de desenhos, jogos, brinquedos
ou diálogos, é uma técnica que facilita a comunicação com a criança e a
observação mais aprofundada do psiquismo, possuindo um caráter diagnóstico e
terapêutico. Winnicott afirma que propõe
o jogo a criança, pegando um lápis e rabiscando às cegas em um papel em branco,
após isso, pede a criança para que mostre a ele se parece com algo ou se pode
transformá-lo em outro desenho, depois disso, repetindo o mesmo processo de
modo inverso, pedindo a criança para desenhar às cegas e ele mesmo
esforçando-se em reconhecer ou completar os rabiscos em um novo desenho.
Este
método pode produzir muito material analítico em uma só sessão, onde vão se
tornando cada vez mais significativos, expressando conflitos, medos e angústias
vividas pela criança (ARAÚJO, 2007).
Outro
método é a hora do jogo, esse
procedimento trata-se de uma entrevista diagnóstica que tem como ponto
principal o brincar livre da criança. Ela estrutura através dos brinquedos a
representação dos seus conflitos, suas defesas e fantasias, permitindo o aparecimento
de uma perspectiva ampla sobre o seu funcionamento mental. Ao brincar, a
criança desloca para fora seus medos, angústias e problemas internos, externalizando,
através disso, aspectos do seu inconsciente. Todas as situações em que passou
por um nível de estresse muito alto para o seu ego são repetidas no jogo, o que
permite à criança um domínio diferente sobre suas brincadeiras, tornando ativo
o que sofreu passivamente em sua história (ARAÚJO, 2007).
É necessário observar como a criança
inicia a sua brincadeira, qual a sequência dos jogos e brinquedos preferidos,
quais os comentários verbais que faz, e por ai vai. Este procedimento depende
da experiência clínica do psicólogo e na observação e interpretação do material
obtido (ARAÚJO, 2007).
O
procedimento de desenho-estórias funciona
com um recurso auxiliar da entrevista, utilizando desenhos para levantar
informações sobre aspectos da personalidade e associando estórias para tornar-se
um método de investigação diagnóstica eficiente na prática clínica. Baseia-se
no método de associação livre, objetivando dar liberdade a criança de criar e
associar. Ele consiste de cinco unidades de produção, cada uma composta de um
desenho livre, estória, inquérito e título. No procedimento coloca-se uma folha
diante do sujeito e é pedido a ele para fazer um desenho, dando a liberdade de
fazê-lo como bem entender. Em seguida é solicitado que crie uma estória sobre o
desenho. Concluído esta etapa, realiza-se um inquérito, com o objetivo de
esclarecer os aspectos que não ficaram claros no desenho e na estória. O inquérito
é parte importante do processo, pois estimula o surgimento de novas associações.
Ao fim, pede-se que a criança de um título a sua produção (ARAÚJO,
2007).
Na
análise é importante levar em conta todo o material recolhido das produções em
que a criança expressa suas fantasias, angustias e desejos. Este método
possibilita investigar aspectos do funcionamento mental como fantasias e
ansiedades, pontos de regressão ou fixação, recursos defensivos, capacidade
elaborativa do ego, entre outros fatores que colaboram na obtenção de uma visão
dinâmica da personalidade (ARAÚJO, 2007).
Freud
afirma que tanto o escritor quanto a criança que brinca reajustam os elementos
do ambiente externo de um modo que lhes agrade; essa atitude permite a obtenção
de prazer ao nível da fantasia, pois a gratificação do desejo ocorre dessa
maneira já que se acontecesse de fato, na crua realidade, poderia ser muito penoso.
Dessa forma a produção literária (juntamente do ato de brincar) tem valor
semelhante ao do sintoma e ao do sonho, pois são idênticos os processos de
formação em termos de esforços do ego para conciliar os desejos com a realidade.
Sendo assim a mesma coisa pode se suceder aos estímulos das técnicas e métodos mencionados,
estas podem atuar como substitutos dos sintomas, garantindo a satisfação
pulsional de uma forma simbólico, sendo passível a criança expressar-se mais
claramente já que a responsabilidade por ela é artificialmente retirada do
sujeito e atribuída aos personagens de suas histórias e desenhos (BARBIERI;
JACQUEMIN; ALVES, 2007).
Ao
lidar com uma destas técnicas, a criança não está se expondo a uma regressão
onde precisa lidar com prazeres e angustias, mas encarando a riqueza de suas
representações, neste ponto o profissional age de forma importante auxiliando
no enriquecimento simbólico do cenário (BARBIERI; JACQUEMIN; ALVES, 2007).
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ARAÚJO,
Maria de Fátima. Estratégias de diagnóstico e avaliação psicológica.
Psicologia: Teoria e Prática, São Paulo, p.126-141, set. 2007.
BARBIERI,
Valéria; JACQUEMIN, André; ALVES, Zélia M. M. Biasoli. O Psicodiagnóstico
Interventivo como método terapêutico no tratamento infantil: fundamentos
teóricos e prática clínica. Psico, Ribeirão Preto, v. 2, n. 38, p.174-181, ago.
2007.
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