''Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro.''
Sigmund Freud

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Alguns métodos de observação na clínica infantil

No acompanhamento terapêutico infantil muitas vezes faz-se necessário o uso de métodos para que seja possível alcançar um olhar mais aprofundado sobre a criança e os fatores que a envolvem, principalmente quando é preciso o caminho certo para se estabelecer uma clara comunicação com a criança. Aqui venho apresentar algumas dessas práticas.
A primeira delas é o Jogo do rabisco do psicanalista Winnicott. Neste jogo dá-se a criança total liberdade para escolher as formas de comunicação, seja através de desenhos, jogos, brinquedos ou diálogos, é uma técnica que facilita a comunicação com a criança e a observação mais aprofundada do psiquismo, possuindo um caráter diagnóstico e terapêutico.  Winnicott afirma que propõe o jogo a criança, pegando um lápis e rabiscando às cegas em um papel em branco, após isso, pede a criança para que mostre a ele se parece com algo ou se pode transformá-lo em outro desenho, depois disso, repetindo o mesmo processo de modo inverso, pedindo a criança para desenhar às cegas e ele mesmo esforçando-se em reconhecer ou completar os rabiscos em um novo desenho. Este método pode produzir muito material analítico em uma só sessão, onde vão se tornando cada vez mais significativos, expressando conflitos, medos e angústias vividas pela criança (ARAÚJO, 2007).
Outro método é a hora do jogo, esse procedimento trata-se de uma entrevista diagnóstica que tem como ponto principal o brincar livre da criança. Ela estrutura através dos brinquedos a representação dos seus conflitos, suas defesas e fantasias, permitindo o aparecimento de uma perspectiva ampla sobre o seu funcionamento mental. Ao brincar, a criança desloca para fora seus medos, angústias e problemas internos, externalizando, através disso, aspectos do seu inconsciente. Todas as situações em que passou por um nível de estresse muito alto para o seu ego são repetidas no jogo, o que permite à criança um domínio diferente sobre suas brincadeiras, tornando ativo o que sofreu passivamente em sua história (ARAÚJO, 2007).
            É necessário observar como a criança inicia a sua brincadeira, qual a sequência dos jogos e brinquedos preferidos, quais os comentários verbais que faz, e por ai vai. Este procedimento depende da experiência clínica do psicólogo e na observação e interpretação do material obtido (ARAÚJO, 2007).
O procedimento de desenho-estórias funciona com um recurso auxiliar da entrevista, utilizando desenhos para levantar informações sobre aspectos da personalidade e associando estórias para tornar-se um método de investigação diagnóstica eficiente na prática clínica. Baseia-se no método de associação livre, objetivando dar liberdade a criança de criar e associar. Ele consiste de cinco unidades de produção, cada uma composta de um desenho livre, estória, inquérito e título. No procedimento coloca-se uma folha diante do sujeito e é pedido a ele para fazer um desenho, dando a liberdade de fazê-lo como bem entender. Em seguida é solicitado que crie uma estória sobre o desenho. Concluído esta etapa, realiza-se um inquérito, com o objetivo de esclarecer os aspectos que não ficaram claros no desenho e na estória. O inquérito é parte importante do processo, pois estimula o surgimento de novas associações. Ao fim, pede-se que a criança de um título a sua produção (ARAÚJO, 2007).
Na análise é importante levar em conta todo o material recolhido das produções em que a criança expressa suas fantasias, angustias e desejos. Este método possibilita investigar aspectos do funcionamento mental como fantasias e ansiedades, pontos de regressão ou fixação, recursos defensivos, capacidade elaborativa do ego, entre outros fatores que colaboram na obtenção de uma visão dinâmica da personalidade (ARAÚJO, 2007).
Freud afirma que tanto o escritor quanto a criança que brinca reajustam os elementos do ambiente externo de um modo que lhes agrade; essa atitude permite a obtenção de prazer ao nível da fantasia, pois a gratificação do desejo ocorre dessa maneira já que se acontecesse de fato, na crua realidade, poderia ser muito penoso. Dessa forma a produção literária (juntamente do ato de brincar) tem valor semelhante ao do sintoma e ao do sonho, pois são idênticos os processos de formação em termos de esforços do ego para conciliar os desejos com a realidade. Sendo assim a mesma coisa pode se suceder aos estímulos das técnicas e métodos mencionados, estas podem atuar como substitutos dos sintomas, garantindo a satisfação pulsional de uma forma simbólico, sendo passível a criança expressar-se mais claramente já que a responsabilidade por ela é artificialmente retirada do sujeito e atribuída aos personagens de suas histórias e desenhos (BARBIERI; JACQUEMIN; ALVES, 2007).
Ao lidar com uma destas técnicas, a criança não está se expondo a uma regressão onde precisa lidar com prazeres e angustias, mas encarando a riqueza de suas representações, neste ponto o profissional age de forma importante auxiliando no enriquecimento simbólico do cenário (BARBIERI; JACQUEMIN; ALVES, 2007).
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ARAÚJO, Maria de Fátima. Estratégias de diagnóstico e avaliação psicológica. Psicologia: Teoria e Prática, São Paulo, p.126-141, set. 2007.

BARBIERI, Valéria; JACQUEMIN, André; ALVES, Zélia M. M. Biasoli. O Psicodiagnóstico Interventivo como método terapêutico no tratamento infantil: fundamentos teóricos e prática clínica. Psico, Ribeirão Preto, v. 2, n. 38, p.174-181, ago. 2007.

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