''Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro.''
Sigmund Freud

terça-feira, 31 de março de 2015

Conhecendo a psicanálise III

A psicanálise é um ofício ousado, pois sua proposta trata da expansão da personalidade, no sentido de tolerar a realidade opressora, sem tentar negá-la através de evasivas psicológicas. A psicanálise não é uma psicoterapia que visa à redução do sintoma, mas sim confrontá-lo e alcançar sua causa primária, no intuito de cortar o mal pela raiz, sendo assim, ela não vem com o objetivo de apagar o incêndio, mas de conhecer o que o provocou. 
O método de investigação psicanalítica procura investigar o inconsciente do sujeito, e a ferramenta usada para isso como a associação livre de ideias, onde se mantem o paciente acordado, utiliza-se de suas forças conscientes, a procura e investigação de sua história, estudando com critério os atos falhos, os chistes e interpretação dos sonhos, sempre com o objetivo de chegar ao inconsciente (CARPIGIANI, 2010).
O método usado no atendimento é a associação livre, que consiste em fazer o sujeito contar o que vier em sua mente. Nas palavras de Freud (1909): ‘’Mandamos o doente dizer o que quiser cônscios de que nada lhe ocorrerá à mente senão aquilo que indiretamente dependa do complexo procurado. ‘’ (FREUD,1909, p. 31). A aplicação desse método pode causar incerteza, tanto por parte do analista, quanto por parte do paciente, porém é algo que se mostra válido em prática, como explica Freud (1909) a seguir:

No emprego dessa técnica o que ainda nos perturba é que com frequência o doente se detém, afirmando não saber dizer mais nada, que nada mais lhe vem à ideia. Se assim fosse, se o doente tivesse razão, o método ter-se-ia revelado impraticável. Uma observação atenta mostra, contudo, que as ideias livres nunca deixam de aparecer. (FREUD, 1909, p. 31).

O material associativo coletado pelo analista servirá de artifício para a interpretação e deve, assim, chegar ao inconsciente. Além da associação livre do sujeito, há também a interpretação dos sonhos e o estudo dos lapsos e atos causais (FREUD, 1909).
A psicanálise detém um olhar especial ao sujeito, sendo assim, confiro a psicanálise uma prática clínica coerente, com sua própria instrumentação e técnicas apropriadas para enfrentar o desconhecido da clínica, respaldando e servindo de apoio à prática do estágio clínico. Nas palavras de Berenice Carpigiani (2010), encontramos esta idéia.

A teoria psicanalítica subsidia teórica e tecnicamente o profissional que trabalha com o ser humano, mas são muitos conceitos, muitas ideias e ainda nos encontramos na periferia do conhecimento psicanalítico. O enfoque no mundo mental deixado pela psicanálise nos ajuda a repensar conceitos de normalidade e patologia. (CARPIGIANI, 2010, p. 116).

Vejo a psicanálise como uma teoria privilegiada sobre a mente humana, nela encontramos realmente um instrumento de investigação científica que nos possibilita a compreensão da psicodinâmica de um sujeito. Apesar disso, a psicanálise não se restringe somente à clínica, havendo ensaios sobre diversos assuntos sociais, políticos e culturais, demonstrando que a psicanálise sai do seu lugar de abordagem psicológica e segue uma linha de pensamento teórico que tem respaldo em muitos assuntos que dizem respeito ao ser humano.

A psicanálise deve possibilitar uma psiquiatria científica no futuro, que não mais se contente em descrever estranhos casos clínicos, evoluções incompreensíveis, e acompanhar a influência de grosseiros traumas anatômicos e tóxicos sobre um aparelho psíquico inacessível ao nosso conhecimento. (FREUD, 1924, p. 244).

____________________________________________________________________________
FREUD, Sigmund. CINCO LIÇÕES DE PSICANÁLISE. Worcester, Massachusetts: Clark University, 1909.
CARPIGIANI, Berenice. PSICOLOGIA: Das raízes aos movimentos contemporâneos. 3a Edição São Paulo: Cengage Learning, 2010.
FREUD, Sigmund. RESUMO DA PSICANÁLISE (1924). São Paulo: Companhia Das Letras, 2011.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Conhecendo a psicanálise II

Outro conceito que também se tornou um dos pilares da psicanálise foi o de libido, a força dos instintos sexuais dirigidos a objetos. Com o desenvolvimento desta teoria, fez se necessária justapor a essa libido do objeto uma libido do eu ou narcísica.
A teoria da libido consiste em um dos pilares da psicanálise, sendo trabalhada por Freud ao longo de muitos anos, mas não foi ele o responsável pela criação do termo. Este termo surgiu com o pesquisador Moll, em 1898 e dai então usado por Freud para atribuir ao desejo sexual. Através da citação de Alfredo, temos uma forma simples do que Freud atribuía à libido ''Freud afirma a propriedade específica da libido em se referir a um potencial de desejo sexual e não outro. ''(ALFREDO, 2004, p.01).
Acompanhando o surgimento dessa teoria veio uma das mais importantes descobertas feitas por Freud, a de que o psiquismo humano forma-se a partir dos conflitos que, desde o nascimento confrontam os instintos sexuais e a realidade, sendo essa força dos instintos sexuais, a libido. O surgimento dessa teoria na psicanálise gerou conflitos e repulsa, pois queria dizer que crianças também possuíam uma sexualidade em uma época em que Freud se encontrava, entre fins do século XIX, o que era ultrajante para a sociedade. A sexualidade só viria a surgir posteriormente, na adolescência e que bebês e crianças pequenas eram tidos como puras e inocentes, com essa nova ideia sobre a infância, Freud atraiu maus olhares (CUNHA, 2008).
Com o desenvolvimento da libido, ocorre o processo de escolha do objeto que virá a desempenhar grande influência na vida psíquica. O primeiro objeto alvo desta libido, para ambos os sexos, é a mãe. Ainda na infância irá se vivenciar o complexo edípico, onde o menino concentra seus desejos sexuais em sua mãe desenvolvendo impulsos hostis para o pai, tendo-o como um rival. De maneira diferenciada, comporta-se a menina (FREUD, 1925).
Com o desenvolvimento dessas e outras teorias, a psicanálise tornou-se aplicável na psiquiatria, contribuindo com os estudos de neuroses e psicoses.  Contudo, ela não se conteve somente nesse campo, apesar de ter chamado a atenção do mundo intelectual com sua atuação na psiquiatria, a psicanálise vem da relação com a vida psíquica normal, não com a patológica. Inicialmente, a pesquisa psicanalítica tinha por objetivo investigar alguns estados psíquicos que poderiam ser a gênese de certas psicopatologias. Contudo nesses estudos veio a conhecer relações de importância fundamental (FREUD, 1924).
O estudo das repressões e de outros fenômenos abordados fez com que a psicanálise levasse em consideração o inconsciente. O psiquismo era primeiramente inconsciente, tornando a consciência uma qualidade que poderia ou não juntar-se a ela.  A partir daí, a tentativa de subdividir o inconsciente veio com o intuito de imaginar o aparelho psíquico composto por várias instâncias e sistemas com relações entre si, sem, apesar disso, associar esses espaços anatomicamente com o cérebro (FREUD, 1925).
A pesquisa das causas e motivações de certos quadros psíquicos levou aos conflitos entre os impulsos sexuais e a resistência à sexualidade. As vivências infantis sempre diziam sobre excitações sexuais e reações a elas, chegando à questão da sexualidade infantil. Verificou-se que a função sexual existe desde o princípio, apoiando-se primeiramente em outras funções vitais, posteriormente tornando-se independente delas, passando por vários desenvolvimentos até chegar à vida sexual normal do adulto. Apesar do conflito e da resistência com o termo sexual, a vantagem em desprender a sexualidade dos genitais permite considerar a atividade sexual da criança e do pervertido aos mesmos olhos da dos adultos normais, dando assim chance para uma nova compreensão. Na psicanálise as mais estranhas e repulsivas atitudes sexuais também se explicam como manifestações de instintos sexuais (1925, FREUD).
As teorias da repressão, do inconsciente, da vida sexual e seu surgimento, juntamente com as vivências infantis, são os principais componentes teóricos do edifício psicanalítico (1925, FREUD).
A psicanálise é uma linha teórica que se preocupa em compreender os atos e produções psíquicas do ser humano. Para isso, desenvolveu uma teoria geral do homem que se propõe a estudá-lo na intersecção entre seus aspectos históricos e dinâmicos, com o objetivo de encontrar ligações causais entre o passado, presente e futuro do sujeito (CARPIGIANI, 2010).
Voltada para a descoberta e compreensão do inconsciente, a psicanálise começou a desenvolver com base na prática clínica, de forma absolutamente original, em um período em que a psicologia estava fixando alicerces nos laboratórios, nas bibliotecas e nas salas de aula, utilizando especialmente os métodos experimental, empírico e de introspecção. Porém, a psicanálise direcionou seu interesse para o comportamento anormal, para a dor psíquica, a partir da observação clínica. Freud enfrentou desde o começo de suas formulações e exposições de idéias e métodos grandes resistência por parte da sociedade médica da época. Ele mesmo reconhecia que a compreensão intelectual de sua teoria não era difícil, o complicado era a aceitação da sexualidade infantil e o reconhecimento de que o homem é dominado por processos psíquicos que desconhece (CARPIGIANI, 2010).
Temos, nas palavras de Mezan (1993):            

A psicanálise é simultaneamente um método de investigação do sentido dos atos e produções psíquicas do ser humano, uma teoria geral do homem, baseada nos resultados desta investigação, e uma forma de tratamento de problemas mentais e emocionais derivadas do método e da teoria mencionados. É aproximadamente assim que Freud define em 1924, e esta definição conservam toda a sua validade        (MEZAN apud CARPIGIANI, 2010).


FREUD, Sigmund. AUTOBIOGRAFIA (1925). São Paulo: Companhia Das Letras, 2011.

FREUD, Sigmund. ALGUMAS CONSEQUÊNCIAS PSÍQUICAS DA DIFERENÇA ANATÔMICA 
ENTRE OS SEXOS (1925). São Paulo: Companhia Das Letras, 2011.

FREUD, Sigmund. RESUMO DA PSICANÁLISE (1924). São Paulo: Companhia Das Letras, 2011.

CARPIGIANI, Berenice. PSICOLOGIA: Das raízes aos movimentos contemporâneos. 3a Edição São Paulo: Cengage Learning, 2010.

CARVALHO, Luís Alfredo Vidal de. O CONCEITO DE LIBIDO EM PSICANÁLISE, 2004. Disponível em: http://www.cos.ufrj.br/~alfredo/classnotes/LUIS%20ALFREDO%20LIBIDO.pdf. Acesso em: 27 ago. 2012. 

Conhecendo a psicanálise I

A psicanálise foi fundada por Sigmund Freud, posteriormente com contribuições de novos pensadores como Melanie Klein, Winnicott, Lacan, entre outros, a psicanálise trata-se de um método onde o homem é compreendido como um ser dotado de um inconsciente, alheia à consciência desperta. Sendo assim, chama atenção a questão que o homem conhece muito pouco sobre si mesmo. A psicanálise vem propor essencialmente a busca de evidências do significado do inconsciente em palavras, ações e produções imaginárias do sujeito, podendo propiciar uma ampliação da mente, tornando pensáveis e nomeáveis sentimentos e sensações desconhecidos.
Para Freud (1924), a psicanálise cresceu em um terreno delimitado, a princípio seu único objetivo era apenas conhecer um pouco da natureza de doenças nervosas denominadas funcionais. Na época, estas doenças eram vistas pelo lado químico-físico e anatômico-fisiológico, enquanto sobre o fator psíquico, contentavam-se em considerar a fórmula de que isso tudo se devia a transtornos funcionais das partes do cérebro.  A mudança desse pensamento veio com os fenômenos do hipnotismo. A questão era ser admitida a veracidade destas experiências. Admitindo-se isso, seriam possíveis duas colocações, as mudanças físicas eram resultados de influências psíquicas que o próprio hipnotizador havia colocado e a convicção de que há a existência de processos chamados inconscientes (FREUD, 1924).
            A hipnose se revelou um meio para o estudo das neuroses. Através dos estudos e experiências do médico Dr. Josef Breuer (1881), foi possível observar o uso da hipnose também na cura da histeria. Após estudos e experiências, Breuer, juntamente com Freud, publicaram juntos ‘’Estudos sobre a histeria’’ em 1895, onde afirmava que o sintoma histérico surge quando o afeto de um processo psíquico é afastado da elaboração consciente normal, sendo então encaminhada para uma via errada. A partir disso, ele é convertido em uma inervação somática. Através da revivência pela hipnose de episódio específico do sujeito, este afeto pode ser guiado para uma nova direção e despachado, denominando esse processo de Catarse (FREUD, 1924).
No entanto, o passo decisivo para o surgimento da psicanálise foi dado ao decidir abster-se da técnica hipnótica. Há dois motivos para isso, pois nem todos os pacientes entravam em transe hipnótico e pela insatisfação dos resultados através do método catártico.  O papel da hipnose era conduzir a lembrança que fora esquecida a consciência, fazia-se necessário encontrar outra técnica para isso, foi quando Freud decidiu trocá-la pelo método de associação livre, que requeria que o paciente abandonasse sua reflexão consciente e se entregasse ao curso de seus pensamentos espontâneos (FREUD, 1924).
            A ideia da associação livre não se revelaria realmente livre. Após a supressão da corrente consciente, ficaria claro que o determinante das decisões estaria sendo de forma inconsciente. Dessa maneira, seguindo a associação livre, era possível obter rico material das coisas que viam da mente do paciente, podendo assim chegar a pistas do que o sujeito havia se esquecido. Mesmo o material não trazendo o que foi essencialmente esquecido, trazia claras e numerosas alusões a ele, tornando possível a construção do esquecido (FREUD, 1924).
            Passou a se ter noção de uma força que fazia resistir de forma constante e intensa, manifestando objeções e críticas com que o paciente procurava excluir da comunicação os pensamentos que lhe ocorriam agindo contra a análise. Foi a partir disso que nasceu um dos pilares teóricos da psicanálise, a teoria da repressão. As manifestações e os impulsos psíquicos, no qual os sintomas serviam de substitutos, não foram esquecidos sem nenhuma razão. Por influência de outras forças psíquicas, experimentam a repressão com o intuito de manter fora da consciência e excluídos da lembrança certas memórias (FREUD, 1924).
Nas palavras de Freud (1924) sobre a repressão:
  
Via de regra, a repressão partia da personalidade consciente (do Eu) do paciente, invocando motivos éticos e estéticos; eram atingidos por elas impulsos de egoísmo e crueldade geralmente considerados maus, mas sobre tudo desejos sexuais, com frequência da espécie mais crua e mais proibida. Os sintomas patológicos eram, portanto, um substituto para satisfações proibidas, e a doença parecia corresponder a uma imperfeita subjugação do que há de imoral no ser humano.  (FREUD, 1924, p. 233).

A partir disso, o progresso dos estudos revelou cada vez mais a importância que os desejos sexuais têm na vida psíquica. Também as vivências e os conflitos nos primeiros anos de vida possuem grande importância no desenvolvimento do sujeito, deixando predisposições para sua vida adulta. Destas, destacou-se a complicada relação com os pais, sendo denominado ‘’complexo de Édipo’’ (FREUD, 1924).

FREUD, Sigmund. RESUMO DA PSICANÁLISE (1924). São Paulo: Companhia Das Letras, 2011.

sábado, 28 de março de 2015

Sobre a prática clínica em psicologia

A clínica se apresenta em várias versões e diferentes abordagens e modos de intervenções. A prática clínica é descrita como uma psicoterapia, um tratamento psicológico que engloba pelo menos três etapas: observar, analisar e intervir (QUADROS, 2012).
A clínica é por vezes definida pelo seu local de realização, considerada uma atividade do consultório privado, em detrimento de atividades de caráter público, ou de sua área de atuação, como em clinica ou hospitais, diferentemente da psicologia escolar ou organizacional.  Contudo, nenhuma dessas definições é precisa, realizam uma compartimentalização da disciplina psicológica, sendo fonte de mitos e controvérsias. O ofício de ser terapeuta se constrói na reflexidade, no diálogo constante e no questionamento do que isso suscita. A clínica é também uma prática enquanto o psicólogo, a partir de suas escolhas, cria realidades que podem tanto restringir quanto ampliar fronteiras entre mundos (QUADROS, 2012).
Uma das intervenções e compreensão dos aspectos do comportamento pode ser obtida pela prática de intervenção grupal, atendimento psicológico e grupos terapêuticos. Na psicologia clínica considera-se que o processo terapêutico problematiza o comportamento humano e pesquisa as possibilidades de dota-lo de sentido, transformando as representações que acontecem no processo clinico (OLIVEIRA et al., 2009).
A possibilidade de um espaço de grupo pode se tornar uma importante estratégia de trabalho, possibilitando trocas e redefinições em que os recursos do próprio grupo se potencializam. Valoriza-se os movimentos do grupo e sua capacidade de produzir saberes sobre ele mesmo tão ou mais importante que o saber teórico muitas vezes colocado na figura do terapeuta. Como estratégia é possível utilizar nos grupos dispositivos que funcionam como geradores de pontos de problematizações e enriquecem as conversações. O uso de dramatizações, leitura de histórias, jogos e brincadeiras, palestras informativas e até mesmo algumas técnicas de avaliação são exemplos de dispositivos (OLIVEIRA et al., 2009).
Por fim, a prática clínica, seja ela um acompanhamento individual ou um trabalho em grupo terapêutico, nos traz um trabalho cheio de diferenças e singularidades. Este acaba não sendo um ofício que se faz pela teoria, mas sim pelo encontro, pois a técnica, por mais que seja elaborada e instruída, jamais preparará para o encontro com o outro (QUADROS, 2012).
  ______________________________________________________________
   QUADROS, Laura Cristina de Toledo. Desafios da prática clínica na formação de psicólogos: revendo fronteiras e criando possibilidades. Igt na Rede, Rio de Janeiro, v. 9, n. 17, p.187-199, 2012.
    OLIVEIRA, Beatriz et al. Psicologia Clínica – Psicologia e prática clínica – Psicologia de Grupo – Atendimento psicológico de grupos. 2009. Disponível em: < http://www.psicologiananet.com.br/psicologia-clinica-psicologia-e-pratica-clinica-psicologia-de-grupo-atendimento-psicologico-de-grupos/853/>. Acesso em: 15 dez. 2014.

sexta-feira, 27 de março de 2015

As principais abordagens psicológicas

Em psicologia há três abordagens referenciais onde cada uma delas nos levará a sua concepção teórica e a um procedimento técnico diante do Sujeito. Obviamente que não se restringe a apenas esses três movimentos, mas explanemos aqui sobre os seus referenciais.
O Behaviorismo, conceito de análise aplicada ao comportamento, teve sua origem a partir de trabalhos sobre condicionamento operante em animais, posteriormente os conceitos foram aplicados aos comportamentos humanos em diversas áreas como a educação, desenvolvimento infantil, aconselhamento, psicoterapia, etc. Skinner, seu principal teórico, baseou-se nos comportamentos observáveis das pessoas e dos animais. A abordagem comportamental, como é também denominada, tem tentado através do estudo de modelos experimentais, entender as variáveis de controle de vários problemas psicológicos. Dessa forma seus estudos procuravam descrever causas, efeitos de variáveis e possíveis formas de modificar esses problemas. (OLIVEIRA et al., 2012)
Sua metodologia prioriza o estudo do sujeito único, em suas relações comportamentais estabelecidas com o ambiente no qual está inserido. O comportamento é o objeto de estudo que tenta descrever dentro de quais determinantes circunstanciais o indivíduo responde daquela forma e quais as consequências seguem-se a essa resposta de forma a mantê-la. Qualquer dúvida nas circunstâncias, na resposta ou nas consequências, modificará toda a relação e, portanto, comportamento. Dessa forma, efetua intervenções de forma a criar, propor ou estabelecer relações de contingências, auxiliando a elaborar melhor seu repertório e assim modificar os comportamentos que causam sentimentos confusos. (OLIVEIRA et al., 2012)
A Abordagem fenomenológica Existencial, esta inclui uma ampla gama de técnicas e funções em psicologia, em função de sua constituição filosófica. Contribui principalmente com os procedimentos da terapia em si, descrevendo a como uma terapia existencial, utilizando-se de princípios em geral considerados existencialistas e fenomenológicos. A Gestalt-terapia é uma síntese de abordagens que visa a compreensão da psicologia e dos comportamentos humanos. A originalidade e utilidade repousam na natureza do todo e não na derivação das partes. (OLIVEIRA et al., 2012)
Ou seja, uma análise das partes nunca poderá proporcionar uma compreensão do todo uma vez que o todo é definido pela interação e interdependência das partes. As partes de uma Gestalt não mantêm sua identidade quando estão separadas de sua função e lugar no todo. O terapeuta age de maneira a catalisar as atitudes e comportamentos de seu paciente a fim de evidenciara-las, tendo o intuito de ajuda-lo a perceber como ele mesmo se interrompe constantemente e os papeis que esse desempenha, além de mostrar como o paciente exercita sua própria conscientização em relação as suas fugas. As projeções que estão envolvidas na relação do paciente com o terapeuta fornecem aspectos bastante significativos da fuga que o paciente vivência em relação aos seus impasses. (OLIVEIRA et al., 2012)
Na psicanálise, o funcionamento psíquico, para ela, é concebido a partir de três pontos de vista: o econômico (existe uma quantidade de energia que alimenta os processos psíquicos); o tópico (o aparelho psíquico é construído por um número de sistemas que são diferenciados quanto a sua natureza e modo de funcionamento, o que permite considera-lo como um lugar psíquico) e o dinâmico (no interior do psiquismo há forças que entram em contato e conflito e que se encontraram permanentemente ativos, sendo a origem de suas forças a pulsão). (OLIVEIRA et al., 2012)
A pulsão se refere a um estado de tensão que busca através de um objeto a supressão desse estado. Uma nova concepção sobre estrutura da personalidade é a denominada de segunda tópica, conhecida como concepção estrutural da personalidade. Ela foi dividida em três regiões que possuem relações mutuas entre si: o Id, Ego e o Super-Ego. (OLIVEIRA et al., 2012)
O Id é orientado exclusivamente pelo princípio do prazer e não conhece nenhum tipo de julgamento de valor. Já o Ego tem a função de lidar com o mundo externo, ele se interpõe entre as pulsões do Id e a ação do indivíduo, com o intuito de identificar as circunstâncias em que tais impulsos poderão ser realizados com um mínimo de conflito. Ele necessita de uma quantidade de energia que será por ele retirada do Id. Para que isso seja possível o Ego utiliza-se de uma artimanha na qual ele se identifica com o objeto de desejo da libido do Id, desviando dessa forma para si próprio. (OLIVEIRA et al., 2012)
O Super-Ego se situa face ao Ego como modelo e obstáculo sendo o responsável pela origem da consciência moral, auto-estima e culpa. A meta na interação entre as três instâncias mencionadas consiste em estabelecer e manter um nível aceitável de equilíbrio dinâmico que maximiza o prazer e minimiza o desprazer. (OLIVEIRA et al., 2012)
O Id é inteiramente inconsciente e o Ego e o Super-Ego o são em parte. Assim o objetivo prático da psicanálise é fortalecer o Ego, fazê-lo mais independente do super-Ego, ampliar seu campo de percepção e expandir sua organização de maneira a poder assenhora-se de novas partes do Id. (OLIVEIRA et al., 2012)
Para a psicanálise a maneira como o sujeito se comporta diante de seus objetos de amor ou sexuais é critério central na avaliação do seu desenvolvimento, tornando-se necessário compreender o processo de desenvolvimento psicossocial, para então se compreender a formação do caráter. A grande maioria dos pensamentos e desejos reprimidos referem-se a conflitos de ordem sexual, localizados nos primeiros anos de vida, que se configura como origem dos sintomas atuais. Freud identificou que essas ocorrências deixavam marcas profundas na estrutura da personalidade dos indivíduos e, assim, postulada a existência de uma sexualidade infantil. (OLIVEIRA et al., 2012)
O principal problema da psique é encontrar maneiras de enfrentar a ansiedade que é um obstáculo ao crescimento. Há duas formas de diminuir a ansiedade: enfrentando o problema ou fugindo dele. O ego atua nesses momentos com o intuito de proteger toda a personalidade contra ameaças, falsificando, deformando ou enganando a natureza da realidade. Essas distorções são chamadas de mecanismos de defesa, que possuem a função de diminuir a ansiedade do indivíduo, ajudando-o a fugir do problema. (OLIVEIRA et al., 2012)
Os principais mecanismos de defesa são o recalque, a formação reativa, a regressão, a projeção, o isolamento e a racionalização. A função primordial da clínica psicanalítica é buscar a origem do sintoma ou do comportamento manifesto, ou do que é verbalizado, com o objetivo de curar. Contudo é necessário vencer as barreiras do indivíduo, que impedem o acesso ao inconsciente. O processo pelo qual ocorre a cura na psicanálise esta associado a expansão do campo da consciência. Por fim, a noção mais importante é a maneira como o consciente e o inconsciente do paciente comunicam-se entre si. (OLIVEIRA et al., 2012)
_______________________________________________________________

OLIVEIRA, Beatriz et al. Quais as principais abordagens da Psicologia: Tipos de psicoterapia e abordagens da Psicologia. 2012. Disponível em: <http://www.psicologiananet.com.br/quais-as-principais-abordagens-da-psicologia-tipos-de-psicoterapia-e-abordagens-da-psicologia/2946/>. Acesso em: 02 mar. 2015.

Os primeiros passos da psicologia

A psicologia surge em meados de XIX, em um período dominado pelo positivismo, ainda muito associada a filosofia. No entanto, Fechner e Wundt pensavam em uma psicologia enquanto ciência, associada aos processos fisiológicos. Wundt então afirma uma psicologia autônoma e experimental, reunindo e classificando em grupos os elementos da vida mental. Dessa forma estruturada deixa de ser um apêndice da filosofia ou fisiologia. Com isso, surgem diversas ramificações como o Estruturalismo, Behaviorismo, a Gestalt e a psicanálise.  (PANTALEÃO; BAIA, 2012)
No Estruturalismo, a psicologia é a ciência da consciência ou da mente, sendo esta a soma total dos processos mentais. Seu maior representante foi Titchener e seu objetivo era descobrir qual era o verdadeiro conteúdo da mente. Já o funcionalismo surge como uma reação contrária ao estruturalismo. Para eles, as operações e processos mentais seriam instrumentos da adaptação.  (PANTALEÃO; BAIA, 2012)
O Behaviorismo, a psicologia do comportamento trouxe relevante colaboração a educação, entre seus principais pontos destacam-se:  A lei do exercício, o qual afirma que, quanto mais frequente, recente e fortemente um vínculo é exercido, mais ele é fixado. Defendia que as experiências subjetivas não possuem nada de imediato, são construídas pela sociedade. O sujeito não seria livre, sendo o mundo privado uma construção social.  (PANTALEÃO; BAIA, 2012)
A Gestalt surgiu na Alemanha onde parte da percepção. A partir de seus estudos visuais e dos movimentos, descobriram que os fenômenos mentais eram vividos pelo sujeito sob a forma de estruturas, sob a forma de relações entre pontos que faziam com que as formas resultantes fossem mais que suas somas.  (PANTALEÃO; BAIA, 2012)
Contudo foi com a psicanálise que surgiu um método verdadeiramente psicológico. Através dela o paciente fala espontaneamente de tudo, onde estes processos andariam entre o consciente e o inconsciente, sendo estes os que buscam ser revividos e analisados. Nesse sentido várias escolas formaram um sistema fechado, que, no entanto, possuía pontos comuns e divergentes. Apesar de tudo, o cientificismo que se apoiava em um rígido padrão positivista não concebeu a psicologia o termo de ciência, esta, contudo, só foi se constituir como ciência a partir do contexto moderno. Cada abordagem traz seus princípios éticos, porém há uma ética que define a clínica, esta se compromete com a escuta do interditado e a sustentação das tensões e dos conflitos.  (PANTALEÃO; BAIA, 2012)
_______________________________________________________________

PANTALEÃO, Ana Paula Florêncio; BAIA, Angela Fernandes. A Atuação do Psicólogo Clínico: Ética e Técnica em Discussão. 2012. Disponível em: <https://psicologado.com/atuacao/psicologia-clinica/a-atuacao-do-psicologo-clinico-etica-e-tecnica-em-discussao>. Acesso em: 02 fev. 2015.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Introdução a Psicologia - O surgimento da psicologia

A evolução da Medicina, do significado da doença, do papel do doente e do médico, a evolução das pesquisas e da tecnologia que avançavam rapidamente nos laboratórios das universidades, forneceram lastros para que houvesse a primeira estruturação sistemática da psicologia, portanto está surgiu profundamente amalgamada aos métodos aplicados nos laboratórios de medicina. Em 1879 foi criado o primeiro Instituto de Psicologia Experimenta do mundo, na cidade de Leipzig, Alemanha, e seu fundador chamava-se Wilhelm Wundt. Ensinava fisiologia em um século que o espírito positivista e empirista impregnava a medicina, portanto, suas preocupações e suas experiências estavam fortemente amparadas pelo método experimental. No início do século XIX, a tendência de utilização de métodos experimentais se confirma em função dos registros conhecidos que descrevem numerosos experimentos que fundamentaram a compreensão sobre o funcionamento orgânico. Estudos sobre a velocidade do impulso nervoso, a audição, a visão, os nervos sensoriais, a percepção e suas nuanças, a relação quantitativa entre corpo e mente, realizados por diferentes métodos, foram propiciando descobertas e forçando o desenvolvimento de técnicas de pesquisas cada vez mais elaboradas. E foi nesse movimento que deu base para o surgimento da psicologia experimental. O objeto de estudo dela era a experiência em si, a que acontece antes da reflexão, livre de qualquer interpretação na qual ele incluía sensações, percepções, sentimentos e emoções, mas para chegar até essas experiências o psicólogo deverá utilizar os métodos de experimentação e de introspecção.  
A introspecção era praticada pelos estudantes que passavam por um longo e rigoroso treinamento no método introspectivo, antes de serem capacitados a fornecer dados reconhecidos e confiáveis, deveriam realizar mais ou menos 10 mil observações introspectivas. O problema da psicologia era a análise desses fenômenos mentais, divididos em três classes: sensações, imagens e sentimentos. Para Titchener, a psicologia era definida como uma ciência pura, sem interesses utilitários ou aplicados, sem preocupação como patologias, sistemas sociais e econômicos ou com as condições culturais dentro das quais a mente opera.
O mundo científico começou a se dar conta das diferenças individuais e a se preocupar com a força da cultura, portanto a psicologia também precisou voltar suas pesquisas para essas questões. Não cabia mais no cenário científico ou mesmo social e político uma ciência sem finalidade útil para a humanidade. As principais características do surgimento dessa nova linha de pensamento em psicologia surgem como oposição ao pensamento estrutural e defendem a importância do conhecimento sobre o funcionamento da mente.
Com o surgimento desses diversos pensamentos de pesquisa, um deles foi a escola funcional, onde esta pretendeu compreender tanto o comportamento e suas inter-relações complexas e continuar quanto à consciência, abrindo um campo de interesse de estudos que permaneceu hermético na escola estrutural. Tornou-se a principal corrente psicológica e ampliou os campos de estudo e pesquisa sobre a compreensão da atividade mental, levando em conta as diferenças individuais e as influências culturais. Assim temos o início de uma ciência em suas tentativas de descobrir os segredos do funcionamento mental humano.         

CARPIGIANI, Berenice. PSICOLOGIA: Das raízes aos movimentos contemporâneos. 3a Edição São Paulo: Cengage Learning, 2010.

Introdução a Psicologia - A filosofia faz o prelúdio a psicologia

A partir do pensamento pré-socrático, as perguntas vagarosamente passaram a se dirigir na direção do sujeito pensante, buscando pontos de apoio na razão, na percepção e na observação, separando-o do mundo material. O surgimento da filosofia foi marcado pela inserção do método socrático. Esse foi o primeiro encontro do Homem-Razão com a subjetividade. Os pré-socráticos já tinham deixado para a humanidade um valioso alicerce, com base no qual a natureza do corpo, da alma, da ética e da moral foi implantada e, com Sócrates, a consciência do significado dos fenômenos instalou-se, definitivamente, no mundo mental do humano. Para Sócrates, a alma é virtude e conhecimento, um conhecimento de si mesmo, é uma autoconsciência despertada e é desse conceito que se determinou a posição ocidental da alma como sede da consciência e do caráter. Quanto mais próximo da verdade contida na alma, quanto mais perto do conhecimento de si mesmo, mas longe da ignorância, da maldade e da doença o homem estaria. Sócrates ia facilitando o desenvolvimento da subjetividade e da crítica, separando o sistema moral da religiosidade, enfatizando a conduta moral na ancorada na consciência responsável.
Ele entendia que se fosse possível ensinar ao homem perceber de forma clara e inteligente a causa e o resultado de seus atos, talvez bastasse para que fizesse escolhas éticas e trilhasse um caminho bom. Desenvolveu um método de conhecimento cujo ponto de partida estava localizado na consciência da ignorância. É exatamente essa consciência o início para a prática de seu método que se divide em duas partes, a primeira denominada ironia que consiste na formulação de uma sequência de perguntas bem articuladas que são formuladas no decorrer do diálogo sobre um tema proposto, que leva a um processo de desmontagem do pensamento, até o ponto de contato com o ‘’não saber’’, momento em que se dá a segunda parte de seu método, denominado de maiêutica, que consiste no trabalho de dar à luz ideias consistentes. A força do pensamento socrático está na racionalização presente no modelo de aplicação do seu método, racionalização essa que leva a pessoa a se despir de pseudoverdades que, porventura, estejam na base de sua forma de pensar e as quais vão gerando equívocas e falsas ideias sobre si e sobre a sociedade. No processo ironia-maiêutica que compõe o método, o homem aproxima-se do seu conhecimento real.
Um grande precursor do pensamento socrático foi Platão, este cresceu entre políticos de destaque, em plena efervescência da democracia, convivendo com os bastidores da vida política de sua época, discípulo de Sócrates durante nove anos, foi muito influenciado pelo modo de pensar de seu mestre. Mas, ao contrário de Sócrates, Platão registrava suas ideias, que estão expostas em 36 diálogos, todos apoiados no modo socrático. Nesses diálogos é possível se aproximar de seu modo de pensar sobre o homem e a sociedade, sobre o ato de conhecer e a existência individual, sobre a educação e a organização política da sociedade. Platão defendera que existem duas fontes principais de conhecimento, uma que se dá por meio do mundo sensível, ou dos fenômenos, e outra por meio do mundo inteligível, ou das ideias. Sua teoria transita entre esses dois pontos: o conhecimento que vem por meio do corpo e o que vem por meio da alma. O corpo, no pensamento platônico, é definido como o túmulo da alma, isso significa que o conhecimento adquirido por meio das sensações é fugaz e dificulta a aquisição do verdadeiro conhecimento. O mundo material é ilusório, passageiro e não se consolida como verdadeiro conhecimento. É necessário entender que acima desse ilusório mundo sensível está o mundo das ideias, das essências imutáveis que o homem pode atingir por meio da contemplação e da depuração dos sentidos, segundo Platão, a alma humana, antes de seu nascimento, ou seja, da alma se prender ao corpo, já teria entrado em contato com essas ideias, significa que a alma possui a verdade em si, ela é o princípio do movimento. Para Platão, o conceito de saúde vinculou-se fortemente à ideia da relação corpo-alma. A Alma é soberana sobre o corpo e tudo que chegou a escrever sobre o funcionamento do organismo e sobre as perturbações psíquicas está apoiado na ideia de que a alma é tripartida em intelecto, razão e desejo que articulados, garantirão a saúde, portanto, o conhecimento constituiria uma engrenagem na qual se movimentam intelecto e emoção, razão e vontade, inteligência e amor.
Outro precursor dessa linha de pensamento vem ser agora Aristóteles, aluno de Platão, esse veio a estabelecer critérios de sistematização que caracterizam a sua força intelectual e, desse modo, ofereceu todo o alicerce para o desenvolvimento do pensamento científico posterior. Ele tratou da questão da dicotomia corpo-alma da seguinte maneira, para ele a alma não poderia viver sem corpo que ela pudesse animar, porque ela está inexoravelmente ligada às funções desse corpo por meio das sensações, percepções, memórias e etc. Dessa maneira, a alma não é entendida como uma substância angustiada, presa no corpo, lutando para se livrar dele e retornar a seu mundo de plenitude e conhecimento. Ao contrário, a alma é o que assegura a harmonia das funções vitais. Aristóteles estruturou sua filosofia de maneira diferente de Platão e de Sócrates. Ele fazia registros de seus experimentos, de suas observações e das aulas que preparava. Para ele há quatro causas que determinam o ser e o devir das coisas, a causa formal que seria a forma e a essência das coisas, a causa material ou matéria que viria a ser aquilo que forma a coisa, a causa eficiente ou motora que seria então aquilo que provem a mudança e o movimento das coisas e a causa final que constitui o fim do escopo das coisas e ações.
Da mesma maneira que Sócrates e Platão, Aristóteles também pretendeu pensar e compreender a origem das coisas e da vida. A maiêutica de Sócrates e a dialética de Platão são métodos abertos. Aristóteles rompe esse subjetivismo impondo um caminho de regras lógicas para conclusões corretas.
Vamos agora andar um pouco mais no tempo para buscar compreender melhor a força dialética ‘’corpo-alma’’ que subsidiaram as construções de teorias que respaldaram a psicologia.  Abrindo um olhar para novas linhas de pensamentos que surgiram ao longo do tempo que também buscavam compreender o sentido da vida, temos novos núcleos filosóficos e cada um deles buscou aprofundar, de acordo com seus princípios, a compreensão do que é o ser humano e quais são suas funções na sociedade. A primeira delas era Epicurismo, considerada a primeira das grandes escolas helenísticas, fundada por Epicuro. Sua preocupação com a ética fundamentada no prazer e no afastamento da dor merece ser destacada, ela praticamente criou a contracultura por meio de trezentas obras e da fundação de um lugar chamado O Jardim. Nesse lugar eram realizadas discussões filosóficas sobre critérios da verdade, validade das sensações, sentido do prazer e da dor, da opinião. Estudava-se sobre a física, sobre a imortalidade da alma, sobre a ética e a sabedoria. Epicuro dizia que o prazer não podia ser considerado um mal, dado que mal é aquilo que causa dor. O homem feliz deve saber escolher sempre prazeres que neutralizem a dor e reduzam a perturbação do espírito.
Outra escola foi a Estoicismo, fundada por Zenão, esta pregava que o homem pode alcançar a verdade e a certeza absoluta e essa é a segurança de que encontrará a paz de espírito. Ceticismo foi a escola de Pirro e seu pensamento é considerada uma filosofia de ruptura, um pensamento que assinala a passagem de um mundo para outro. Seu pensamento dizia que deseja ser feliz deveria entender que as coisas são ‘’indiferentes, imensuráveis e indiscrimináveis e, por isso, nem as nossas sensações, nem as nossas opiniões podem ser verdadeiras ou falsas, portanto, para os céticos, é impossível tentar encontrar o conhecimento.
Na escola de Neoplatonismo, cujo nome mais importante é o de Plotino, possui uma corrente filosófica que pretende voltar à discussão corpo-alma. Tinha a finalidade de ensinar aos homens a libertar-se da vida deste mundo para reunir-se ao divino e para poder contemplá-lo até o ápice de uma união transcendente. A finalidade da nova escola era fortemente religiosa e mística.
Cada uma das escolas filosóficas manifestava inquietação em relação a esse homem transformador e em transformação. A consolidação da cultura ocidental é sustentada por uma base estrutural cujos pilares são: helenismo, judaísmo e cristianismo. O povo judeu, apoiado pelos princípios do velho testamento da Bíblia, vive em seu ritual cotidiano a expressão da esperança no Deus todo-poderoso que, ao criar o universo, o escolhe para ser o povo com o qual faz a aliança de salvação.
O povo grego explica o universo a partir de uma base racional e tem a compreensão de um Deus individual. A ênfase no dualismo corpo e alma, com soberania da alma é sustentada mediante um princípio originador e impessoal, ou seja, cada homem responde pessoalmente por seu destino. É possível constatar uma mescla desordenada de culturas, fés e condutas sociais que gerou um campo propício para a investida em um processo de sistematização que veio por meio da doutrina cristã e da criação de métodos pedagogos que tinham a função de organizar o império Romano.
A medicina na antiguidade é descrita a partir de uma visão do homem em relação com a natureza. É importante citar Hipócrates que lentamente foi negando a intervenção dos deuses ou dos demônios no desenvolvimento da doença e afirmando que as perturbações do corpo e mesmo as mentais, tinham causas naturais e exigiam tratamento especial. De uma compreensão mágica a uma compreensão lógica e subjetiva da doença, passaram-se muitos séculos. O médico foi xamã, feiticeiro, sacerdote. Foi apaziguador do espírito e, na antiguidade, desenvolveu uma forma particular de escuta porque a relação do médico com o paciente caracterizava-se por uma escuta muito particular dos sintomas da pessoa em seu cotidiano.
Já na idade média, o pensamento que não era mais sustentado pelas características da Igreja primitiva, passou a ser por uma lógica institucional que objetivou sistematizar a doutrina cristã a fim de firmar a soberania político-religiosa romana, foi, exatamente, a doutrina religiosa que se apropriou dos movimentos culturais e religiosos determinando drasticamente as relações sociais durante alguns séculos. A filosofia, suas discussões e exercícios intelectuais sobre a alma e sobre o homem, sobreviveram algemados ao pensamento da igreja e não muitos pensadores se destacaram por retomar, rediscutir ou valorizar o pensamento e a cultura até então desenvolvida pelos gregos. Assim também se sucedeu com a medicina, que em sua prática deixou dispersar as contribuições de Hipócrates e Galeno, e logo se misturou às superstições que envolviam o cotidiano popular, propiciando um retorno à demonologia. O homem era visto como um local onde os demônios e espíritos batalhavam pelo domínio da alma.
Com o renascimento, a expressão do mundo interior humano pela arte, pela literatura, pela ciência explodiu de maneiras impressionantes. Nesse momento encontramos as reais estruturas para o surgimento da psicologia. Nesse período, podemos destacar Descartes, um filósofo que conseguiu libertar a investigação dos pensamentos dogmáticos da igreja. Seus estudos inovavam com a ideia de que a mente e o corpo, mesmo de naturezas distintas e separadas, sofrem um processo de interação no organismo, influenciando-se mutuamente. Se a mente possuía capacidade de perceber e querer, de alguma maneira, deve influenciar e ser influenciado pelo corpo. A divisão corpo-mente, sedimentada na filosofia, influenciou o desenvolvimento posterior da vivência e, com relação à psicologia, o processo de geração de ideias.
O pensamento científico moderno se desenvolveu com muita rapidez e já no fim do século XVII e início do século XVIII, surgiram novas vertentes de pensamento, como o positivismo, o materialismo e o empirismo. O século XVII foi marcado por uma característica que era a tensão entre opostos irreconciliáveis. Tantos outros filósofos definem visões de homem e de mundo praticamente antagônicas. Por exemplo, segundo Lock, o homem nasce vazio e ao ser invadido por estimulações sensoriais, escreverá sua história de conhecimento, mas já para Spinosa e Leibniz, o homem traz em si uma estrutura independente, dinâmica, única, que preexiste à estimulação. No renascimento houve um processo de restauração da antiguidade. Lentamente os mosteiros e as prisões foram delegando o cuidado dos pacientes aos asilos que aumentava de números embora o cuidado propriamente dito com o doente ainda estivesse longe de ser satisfatório. Esse período revigorou o espirito humano em todas as áreas da medicina, principalmente foi forçada a rever seu conceito de doença do corpo e da alma. O que marcou o século XVII foi a tônica na experimentação e no desenvolvimento de teorias sobre a doença, o que deixava o paciente sem espaço para ser ouvido. Já durante o século XVIII, o terreno do conhecimento da medicina sedimentou-se e as descobertas foram inevitáveis e precisas. As vacinas e anestesias podem ser consideradas exemplos. A marca do desenvolvimento da medicina no século XIX ficou por conta da mecanização advinda do desenvolvimento industrial, da bioquímica, do uso preciso dos laboratórios. Esse cenário intelectual propiciava a busca de compreensões mais sistematizadas sobre o homem e seu funcionamento físico e mental.

CARPIGIANI, Berenice. PSICOLOGIA: Das raízes aos movimentos contemporâneos. 3a Edição São Paulo: Cengage Learning, 2010.

Introdução a Psicologia - Uma breve contextualização histórica

Como se deu sua origem e quais foram seus primeiros passos? Através de um abreviado resumo do livro Psicologia, das raízes aos movimentos contemporâneos de Berenice Carpigiani (2010), acompanhemos os primeiros passos da psicologia e como se deu o seu surgimento, sendo, a princípio, o surgimento do conhecimento e do pensar.
A busca do conhecimento é uma força inerente à constituição e é um movimento realizado pelo homem para compreender a realidade. Suas raízes originais estão fincadas profundamente na história da humanidade e das civilizações e seu desenvolvimento acontece sobre um trilho misterioso e fascinante. No início do desenvolvimento das civilizações, o pensamento humano era voltado para a sobrevivência e para as necessidades biológicas básicas. Pesquisas antropológicas nos mostram o modo mais antigo utilizado pelos homens na busca de sentido para os fenômenos naturais e para a própria vida: o mito, ou seja, uma forma de pensamento que representa a expressão de uma primeira tentativa de consciência do homem primitivo em direção ao estabelecimento de alguma ordem.
Vejamos o mito como foi vivenciado entre os gregos, lá podemos encontrar o mito da criação do mundo, este com uma síntese de relatos míticos tradicionais mostrando a possível visão, naquela época, da criação do universo. Nos poemas míticos, percebe-se a presença constante da interferência de forças poderosas e divinas no comando da vida do homem. Os deuses, no pensamento mítico, são seres imortais que exercem sua eterna soberania sobre o destino dos mortais. O mito então corresponde a satisfação do desejo humano de encontrar o sentido e a sistematicidade dos fenômenos que o envolvem.
Voltemo-nos agora para a área da saúde, investigando seu sentido nesse período. Na mitologia, Asclépio, ou Esculápio, foi coroado como o deus da medicina, no que sugeriu o nome dos santuários de Esculápio, onde eram desempenhados cerimonias de tratamentos para os gregos. É permitido conhecer o papel do médico, da doença e os conceitos de saúde e de morte, onde vários mitos revelam uma trilogia médico-saúde-doença de forma contundente. Nessa estrutura, feiticeiros, xamãs, sacerdotes, cada qual a seu tempo e cultura, se debruçaram sobre o conceito de cuidar e de curar, por meio de rituais míticos ou religiosos com características mágicas. Tanto na Grécia, como na China e no Egito, essas técnicas foram passando ás mãos dos sacerdotes considerados pelos estudiosos uma mistura de padres, médicos e mágicos, sempre na tentativa de defender o doente da ação maléfica dos deuses.  
Em torno de 2000 a.C, entre os assírios e os babilônios, tanto sacerdotes como cirurgiões, descritos como homens comuns e do povo, cuidavam dos doentes. Esses médicos prescreviam remédios em forma de comprimidos, supositórios e pós, que sempre carregavam consigo no caso de serem chamados para atender um doente. No Egito a prática da medicina ficou conhecida por causa das explicações encontradas nos papiros, pois aí puderam ser verificados tantos registros das formas de tratamento de feridas, fraturas, etc., quanto de diagnósticos e também práticas de registro de prognósticos. Na medicina praticada entre os povos judeu e persa, possuía características comuns, pois ambas apresentam refinadas práticas cirúrgicas fundamentadas nos livros sagrados. Em seu aspecto mítico, entre os judeus a doença era vista como maldição sobre o corpo, no caso, da desobediência a Deus. Na Índia as práticas médicas estavam apoiadas em oito volumes escritos ao longo do século IX a.C. Esses textos ensinam técnicas diagnósticas, tratamentos, cirurgias, dietas. A China debruçou-se muito precoce e profundamente sobre o ato de curar, desenvolvendo minuciosa compreensão sobre a estrutura do corpo humano assim como estudos sobre ervas e acupuntura.
Tais características principais encontradas no pensamento mítico. A projeção, nos deuses imortais, dos desejos e das tentativas de organização do caos de informações que rodeava o homem.  A intervenção dos deuses sempre está na essência da busca de sistematização ritualizada dessas realidades. A ritualização das práticas de cura caracteriza a estrutura mítica presente no exercício da medicina nesse período e essa ritualização permanece ao longo do tempo com as evoluções que se sucedem. A figura do médico toma novas dimensões no período pré-socrático entre os séculos VII e VI a.C. Retórica e observação da natureza subsidia o surgimento do pensamento racional.
Na Grécia, em função das novas necessidades sociais, foi forçada a desenvolver técnicas voltadas para o processo ‘’ensinar-aprender’’, desconectando-se lentamente do apoio oferecido pelo pensamento mítico, começando a sustentar-se na realidade percebida do cotidiano. O pensamento do homem começou a se teorizar, vejamos agora sobre o período pré-socrático. No pensamento pré-socrático destacam-se duas formas de compreensão do mundo. Um grupo preocupava-se com a natureza e por meio da observação tentava encontra o elemento básico originador e princípio ordenador da vida e da totalidade do universo, os fisiólogos. Cada um desses pensadores exercitava o pensamento numa compreensão apoiada em embriões de lógica, aportados na observação e na experiência direta com os fenômenos, podendo ser considerados os precursores da ciência, inclusive da psicologia.
O segundo grupo de pensadores pré-socráticos, denominado sofista, pensava o homem em sociedade, enfocava a importância do sujeito. Ligavam o conhecimento ao sujeito conhecedor, entendendo este como instantâneo, passageiro, relativo e puramente individual, ou seja: o homem é a medida de todas as coisas, das que são o que são e das que não são o que não são. Argumenta que o conhecimento e a verdade são impossíveis de serem alcançados, pois nada existe, e ainda que existisse, não poderia ser conhecido, e mesmo que fosse não poderia ser transmitido a outra pessoa, já que o sujeito que conhece e transmite não está nas mesmas condições de quem o ouve, e cada um deles está embasado em sua experiência particular. Os sofistas, assim como os fisiólogos, ao exercitarem a observação e a razão com o objetivo de compreender a transformação e dar sentido atualizado às relações do homem com a realidade, criam uma linguagem que, lentamente, irá se opor à dos mitos, apontando bases referenciais e elaborando princípios, que seja no plano do social, que seja no do natural.
O conceito de saúde, nesse período, aponta para a ideia de uma compreensão integral da natureza humana. O período pré-socrático simbolizou a conquista do pensamento racional, conquista esta que incitou a curiosidade humana a pensar na sua própria existência, o que culminou no aguçamento da observação e da prática empírica tanto sobre os fenômenos da natureza quanto da própria estrutura do corpo humano, na tentativa de entender a vida e a morte. 
______________________________________________________________
CARPIGIANI, Berenice. PSICOLOGIA: Das raízes aos movimentos contemporâneos. 3a Edição São Paulo: Cengage Learning, 2010.

Apresentação

Início aqui um Blog objetivando estudar e discutir sobre as diversas áreas da psicologia e principalmente sobre o referencial teórico da psicanálise. Como bom profissional e eterno estudante, buscarei tratar aqui de todas as teorias possíveis, mesmo aquelas que venham de encontro com certos dizeres psicanalíticos, pois acredito que o estudo da mente humana objetiva o mesmo fim, no entanto acabamos traçando vários caminhos para a mesma finalidade. Todo o material usado será devidamente referenciado, e caso alguma informação do autor estiver errada ou o mesmo sinta-se incomodado, favor comunicar que o texto será revisado ou retirado.