''Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro.''
Sigmund Freud

quinta-feira, 26 de março de 2015

Introdução a Psicologia - Uma breve contextualização histórica

Como se deu sua origem e quais foram seus primeiros passos? Através de um abreviado resumo do livro Psicologia, das raízes aos movimentos contemporâneos de Berenice Carpigiani (2010), acompanhemos os primeiros passos da psicologia e como se deu o seu surgimento, sendo, a princípio, o surgimento do conhecimento e do pensar.
A busca do conhecimento é uma força inerente à constituição e é um movimento realizado pelo homem para compreender a realidade. Suas raízes originais estão fincadas profundamente na história da humanidade e das civilizações e seu desenvolvimento acontece sobre um trilho misterioso e fascinante. No início do desenvolvimento das civilizações, o pensamento humano era voltado para a sobrevivência e para as necessidades biológicas básicas. Pesquisas antropológicas nos mostram o modo mais antigo utilizado pelos homens na busca de sentido para os fenômenos naturais e para a própria vida: o mito, ou seja, uma forma de pensamento que representa a expressão de uma primeira tentativa de consciência do homem primitivo em direção ao estabelecimento de alguma ordem.
Vejamos o mito como foi vivenciado entre os gregos, lá podemos encontrar o mito da criação do mundo, este com uma síntese de relatos míticos tradicionais mostrando a possível visão, naquela época, da criação do universo. Nos poemas míticos, percebe-se a presença constante da interferência de forças poderosas e divinas no comando da vida do homem. Os deuses, no pensamento mítico, são seres imortais que exercem sua eterna soberania sobre o destino dos mortais. O mito então corresponde a satisfação do desejo humano de encontrar o sentido e a sistematicidade dos fenômenos que o envolvem.
Voltemo-nos agora para a área da saúde, investigando seu sentido nesse período. Na mitologia, Asclépio, ou Esculápio, foi coroado como o deus da medicina, no que sugeriu o nome dos santuários de Esculápio, onde eram desempenhados cerimonias de tratamentos para os gregos. É permitido conhecer o papel do médico, da doença e os conceitos de saúde e de morte, onde vários mitos revelam uma trilogia médico-saúde-doença de forma contundente. Nessa estrutura, feiticeiros, xamãs, sacerdotes, cada qual a seu tempo e cultura, se debruçaram sobre o conceito de cuidar e de curar, por meio de rituais míticos ou religiosos com características mágicas. Tanto na Grécia, como na China e no Egito, essas técnicas foram passando ás mãos dos sacerdotes considerados pelos estudiosos uma mistura de padres, médicos e mágicos, sempre na tentativa de defender o doente da ação maléfica dos deuses.  
Em torno de 2000 a.C, entre os assírios e os babilônios, tanto sacerdotes como cirurgiões, descritos como homens comuns e do povo, cuidavam dos doentes. Esses médicos prescreviam remédios em forma de comprimidos, supositórios e pós, que sempre carregavam consigo no caso de serem chamados para atender um doente. No Egito a prática da medicina ficou conhecida por causa das explicações encontradas nos papiros, pois aí puderam ser verificados tantos registros das formas de tratamento de feridas, fraturas, etc., quanto de diagnósticos e também práticas de registro de prognósticos. Na medicina praticada entre os povos judeu e persa, possuía características comuns, pois ambas apresentam refinadas práticas cirúrgicas fundamentadas nos livros sagrados. Em seu aspecto mítico, entre os judeus a doença era vista como maldição sobre o corpo, no caso, da desobediência a Deus. Na Índia as práticas médicas estavam apoiadas em oito volumes escritos ao longo do século IX a.C. Esses textos ensinam técnicas diagnósticas, tratamentos, cirurgias, dietas. A China debruçou-se muito precoce e profundamente sobre o ato de curar, desenvolvendo minuciosa compreensão sobre a estrutura do corpo humano assim como estudos sobre ervas e acupuntura.
Tais características principais encontradas no pensamento mítico. A projeção, nos deuses imortais, dos desejos e das tentativas de organização do caos de informações que rodeava o homem.  A intervenção dos deuses sempre está na essência da busca de sistematização ritualizada dessas realidades. A ritualização das práticas de cura caracteriza a estrutura mítica presente no exercício da medicina nesse período e essa ritualização permanece ao longo do tempo com as evoluções que se sucedem. A figura do médico toma novas dimensões no período pré-socrático entre os séculos VII e VI a.C. Retórica e observação da natureza subsidia o surgimento do pensamento racional.
Na Grécia, em função das novas necessidades sociais, foi forçada a desenvolver técnicas voltadas para o processo ‘’ensinar-aprender’’, desconectando-se lentamente do apoio oferecido pelo pensamento mítico, começando a sustentar-se na realidade percebida do cotidiano. O pensamento do homem começou a se teorizar, vejamos agora sobre o período pré-socrático. No pensamento pré-socrático destacam-se duas formas de compreensão do mundo. Um grupo preocupava-se com a natureza e por meio da observação tentava encontra o elemento básico originador e princípio ordenador da vida e da totalidade do universo, os fisiólogos. Cada um desses pensadores exercitava o pensamento numa compreensão apoiada em embriões de lógica, aportados na observação e na experiência direta com os fenômenos, podendo ser considerados os precursores da ciência, inclusive da psicologia.
O segundo grupo de pensadores pré-socráticos, denominado sofista, pensava o homem em sociedade, enfocava a importância do sujeito. Ligavam o conhecimento ao sujeito conhecedor, entendendo este como instantâneo, passageiro, relativo e puramente individual, ou seja: o homem é a medida de todas as coisas, das que são o que são e das que não são o que não são. Argumenta que o conhecimento e a verdade são impossíveis de serem alcançados, pois nada existe, e ainda que existisse, não poderia ser conhecido, e mesmo que fosse não poderia ser transmitido a outra pessoa, já que o sujeito que conhece e transmite não está nas mesmas condições de quem o ouve, e cada um deles está embasado em sua experiência particular. Os sofistas, assim como os fisiólogos, ao exercitarem a observação e a razão com o objetivo de compreender a transformação e dar sentido atualizado às relações do homem com a realidade, criam uma linguagem que, lentamente, irá se opor à dos mitos, apontando bases referenciais e elaborando princípios, que seja no plano do social, que seja no do natural.
O conceito de saúde, nesse período, aponta para a ideia de uma compreensão integral da natureza humana. O período pré-socrático simbolizou a conquista do pensamento racional, conquista esta que incitou a curiosidade humana a pensar na sua própria existência, o que culminou no aguçamento da observação e da prática empírica tanto sobre os fenômenos da natureza quanto da própria estrutura do corpo humano, na tentativa de entender a vida e a morte. 
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CARPIGIANI, Berenice. PSICOLOGIA: Das raízes aos movimentos contemporâneos. 3a Edição São Paulo: Cengage Learning, 2010.

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