''Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro.''
Sigmund Freud

quinta-feira, 26 de março de 2015

Introdução a Psicologia - A filosofia faz o prelúdio a psicologia

A partir do pensamento pré-socrático, as perguntas vagarosamente passaram a se dirigir na direção do sujeito pensante, buscando pontos de apoio na razão, na percepção e na observação, separando-o do mundo material. O surgimento da filosofia foi marcado pela inserção do método socrático. Esse foi o primeiro encontro do Homem-Razão com a subjetividade. Os pré-socráticos já tinham deixado para a humanidade um valioso alicerce, com base no qual a natureza do corpo, da alma, da ética e da moral foi implantada e, com Sócrates, a consciência do significado dos fenômenos instalou-se, definitivamente, no mundo mental do humano. Para Sócrates, a alma é virtude e conhecimento, um conhecimento de si mesmo, é uma autoconsciência despertada e é desse conceito que se determinou a posição ocidental da alma como sede da consciência e do caráter. Quanto mais próximo da verdade contida na alma, quanto mais perto do conhecimento de si mesmo, mas longe da ignorância, da maldade e da doença o homem estaria. Sócrates ia facilitando o desenvolvimento da subjetividade e da crítica, separando o sistema moral da religiosidade, enfatizando a conduta moral na ancorada na consciência responsável.
Ele entendia que se fosse possível ensinar ao homem perceber de forma clara e inteligente a causa e o resultado de seus atos, talvez bastasse para que fizesse escolhas éticas e trilhasse um caminho bom. Desenvolveu um método de conhecimento cujo ponto de partida estava localizado na consciência da ignorância. É exatamente essa consciência o início para a prática de seu método que se divide em duas partes, a primeira denominada ironia que consiste na formulação de uma sequência de perguntas bem articuladas que são formuladas no decorrer do diálogo sobre um tema proposto, que leva a um processo de desmontagem do pensamento, até o ponto de contato com o ‘’não saber’’, momento em que se dá a segunda parte de seu método, denominado de maiêutica, que consiste no trabalho de dar à luz ideias consistentes. A força do pensamento socrático está na racionalização presente no modelo de aplicação do seu método, racionalização essa que leva a pessoa a se despir de pseudoverdades que, porventura, estejam na base de sua forma de pensar e as quais vão gerando equívocas e falsas ideias sobre si e sobre a sociedade. No processo ironia-maiêutica que compõe o método, o homem aproxima-se do seu conhecimento real.
Um grande precursor do pensamento socrático foi Platão, este cresceu entre políticos de destaque, em plena efervescência da democracia, convivendo com os bastidores da vida política de sua época, discípulo de Sócrates durante nove anos, foi muito influenciado pelo modo de pensar de seu mestre. Mas, ao contrário de Sócrates, Platão registrava suas ideias, que estão expostas em 36 diálogos, todos apoiados no modo socrático. Nesses diálogos é possível se aproximar de seu modo de pensar sobre o homem e a sociedade, sobre o ato de conhecer e a existência individual, sobre a educação e a organização política da sociedade. Platão defendera que existem duas fontes principais de conhecimento, uma que se dá por meio do mundo sensível, ou dos fenômenos, e outra por meio do mundo inteligível, ou das ideias. Sua teoria transita entre esses dois pontos: o conhecimento que vem por meio do corpo e o que vem por meio da alma. O corpo, no pensamento platônico, é definido como o túmulo da alma, isso significa que o conhecimento adquirido por meio das sensações é fugaz e dificulta a aquisição do verdadeiro conhecimento. O mundo material é ilusório, passageiro e não se consolida como verdadeiro conhecimento. É necessário entender que acima desse ilusório mundo sensível está o mundo das ideias, das essências imutáveis que o homem pode atingir por meio da contemplação e da depuração dos sentidos, segundo Platão, a alma humana, antes de seu nascimento, ou seja, da alma se prender ao corpo, já teria entrado em contato com essas ideias, significa que a alma possui a verdade em si, ela é o princípio do movimento. Para Platão, o conceito de saúde vinculou-se fortemente à ideia da relação corpo-alma. A Alma é soberana sobre o corpo e tudo que chegou a escrever sobre o funcionamento do organismo e sobre as perturbações psíquicas está apoiado na ideia de que a alma é tripartida em intelecto, razão e desejo que articulados, garantirão a saúde, portanto, o conhecimento constituiria uma engrenagem na qual se movimentam intelecto e emoção, razão e vontade, inteligência e amor.
Outro precursor dessa linha de pensamento vem ser agora Aristóteles, aluno de Platão, esse veio a estabelecer critérios de sistematização que caracterizam a sua força intelectual e, desse modo, ofereceu todo o alicerce para o desenvolvimento do pensamento científico posterior. Ele tratou da questão da dicotomia corpo-alma da seguinte maneira, para ele a alma não poderia viver sem corpo que ela pudesse animar, porque ela está inexoravelmente ligada às funções desse corpo por meio das sensações, percepções, memórias e etc. Dessa maneira, a alma não é entendida como uma substância angustiada, presa no corpo, lutando para se livrar dele e retornar a seu mundo de plenitude e conhecimento. Ao contrário, a alma é o que assegura a harmonia das funções vitais. Aristóteles estruturou sua filosofia de maneira diferente de Platão e de Sócrates. Ele fazia registros de seus experimentos, de suas observações e das aulas que preparava. Para ele há quatro causas que determinam o ser e o devir das coisas, a causa formal que seria a forma e a essência das coisas, a causa material ou matéria que viria a ser aquilo que forma a coisa, a causa eficiente ou motora que seria então aquilo que provem a mudança e o movimento das coisas e a causa final que constitui o fim do escopo das coisas e ações.
Da mesma maneira que Sócrates e Platão, Aristóteles também pretendeu pensar e compreender a origem das coisas e da vida. A maiêutica de Sócrates e a dialética de Platão são métodos abertos. Aristóteles rompe esse subjetivismo impondo um caminho de regras lógicas para conclusões corretas.
Vamos agora andar um pouco mais no tempo para buscar compreender melhor a força dialética ‘’corpo-alma’’ que subsidiaram as construções de teorias que respaldaram a psicologia.  Abrindo um olhar para novas linhas de pensamentos que surgiram ao longo do tempo que também buscavam compreender o sentido da vida, temos novos núcleos filosóficos e cada um deles buscou aprofundar, de acordo com seus princípios, a compreensão do que é o ser humano e quais são suas funções na sociedade. A primeira delas era Epicurismo, considerada a primeira das grandes escolas helenísticas, fundada por Epicuro. Sua preocupação com a ética fundamentada no prazer e no afastamento da dor merece ser destacada, ela praticamente criou a contracultura por meio de trezentas obras e da fundação de um lugar chamado O Jardim. Nesse lugar eram realizadas discussões filosóficas sobre critérios da verdade, validade das sensações, sentido do prazer e da dor, da opinião. Estudava-se sobre a física, sobre a imortalidade da alma, sobre a ética e a sabedoria. Epicuro dizia que o prazer não podia ser considerado um mal, dado que mal é aquilo que causa dor. O homem feliz deve saber escolher sempre prazeres que neutralizem a dor e reduzam a perturbação do espírito.
Outra escola foi a Estoicismo, fundada por Zenão, esta pregava que o homem pode alcançar a verdade e a certeza absoluta e essa é a segurança de que encontrará a paz de espírito. Ceticismo foi a escola de Pirro e seu pensamento é considerada uma filosofia de ruptura, um pensamento que assinala a passagem de um mundo para outro. Seu pensamento dizia que deseja ser feliz deveria entender que as coisas são ‘’indiferentes, imensuráveis e indiscrimináveis e, por isso, nem as nossas sensações, nem as nossas opiniões podem ser verdadeiras ou falsas, portanto, para os céticos, é impossível tentar encontrar o conhecimento.
Na escola de Neoplatonismo, cujo nome mais importante é o de Plotino, possui uma corrente filosófica que pretende voltar à discussão corpo-alma. Tinha a finalidade de ensinar aos homens a libertar-se da vida deste mundo para reunir-se ao divino e para poder contemplá-lo até o ápice de uma união transcendente. A finalidade da nova escola era fortemente religiosa e mística.
Cada uma das escolas filosóficas manifestava inquietação em relação a esse homem transformador e em transformação. A consolidação da cultura ocidental é sustentada por uma base estrutural cujos pilares são: helenismo, judaísmo e cristianismo. O povo judeu, apoiado pelos princípios do velho testamento da Bíblia, vive em seu ritual cotidiano a expressão da esperança no Deus todo-poderoso que, ao criar o universo, o escolhe para ser o povo com o qual faz a aliança de salvação.
O povo grego explica o universo a partir de uma base racional e tem a compreensão de um Deus individual. A ênfase no dualismo corpo e alma, com soberania da alma é sustentada mediante um princípio originador e impessoal, ou seja, cada homem responde pessoalmente por seu destino. É possível constatar uma mescla desordenada de culturas, fés e condutas sociais que gerou um campo propício para a investida em um processo de sistematização que veio por meio da doutrina cristã e da criação de métodos pedagogos que tinham a função de organizar o império Romano.
A medicina na antiguidade é descrita a partir de uma visão do homem em relação com a natureza. É importante citar Hipócrates que lentamente foi negando a intervenção dos deuses ou dos demônios no desenvolvimento da doença e afirmando que as perturbações do corpo e mesmo as mentais, tinham causas naturais e exigiam tratamento especial. De uma compreensão mágica a uma compreensão lógica e subjetiva da doença, passaram-se muitos séculos. O médico foi xamã, feiticeiro, sacerdote. Foi apaziguador do espírito e, na antiguidade, desenvolveu uma forma particular de escuta porque a relação do médico com o paciente caracterizava-se por uma escuta muito particular dos sintomas da pessoa em seu cotidiano.
Já na idade média, o pensamento que não era mais sustentado pelas características da Igreja primitiva, passou a ser por uma lógica institucional que objetivou sistematizar a doutrina cristã a fim de firmar a soberania político-religiosa romana, foi, exatamente, a doutrina religiosa que se apropriou dos movimentos culturais e religiosos determinando drasticamente as relações sociais durante alguns séculos. A filosofia, suas discussões e exercícios intelectuais sobre a alma e sobre o homem, sobreviveram algemados ao pensamento da igreja e não muitos pensadores se destacaram por retomar, rediscutir ou valorizar o pensamento e a cultura até então desenvolvida pelos gregos. Assim também se sucedeu com a medicina, que em sua prática deixou dispersar as contribuições de Hipócrates e Galeno, e logo se misturou às superstições que envolviam o cotidiano popular, propiciando um retorno à demonologia. O homem era visto como um local onde os demônios e espíritos batalhavam pelo domínio da alma.
Com o renascimento, a expressão do mundo interior humano pela arte, pela literatura, pela ciência explodiu de maneiras impressionantes. Nesse momento encontramos as reais estruturas para o surgimento da psicologia. Nesse período, podemos destacar Descartes, um filósofo que conseguiu libertar a investigação dos pensamentos dogmáticos da igreja. Seus estudos inovavam com a ideia de que a mente e o corpo, mesmo de naturezas distintas e separadas, sofrem um processo de interação no organismo, influenciando-se mutuamente. Se a mente possuía capacidade de perceber e querer, de alguma maneira, deve influenciar e ser influenciado pelo corpo. A divisão corpo-mente, sedimentada na filosofia, influenciou o desenvolvimento posterior da vivência e, com relação à psicologia, o processo de geração de ideias.
O pensamento científico moderno se desenvolveu com muita rapidez e já no fim do século XVII e início do século XVIII, surgiram novas vertentes de pensamento, como o positivismo, o materialismo e o empirismo. O século XVII foi marcado por uma característica que era a tensão entre opostos irreconciliáveis. Tantos outros filósofos definem visões de homem e de mundo praticamente antagônicas. Por exemplo, segundo Lock, o homem nasce vazio e ao ser invadido por estimulações sensoriais, escreverá sua história de conhecimento, mas já para Spinosa e Leibniz, o homem traz em si uma estrutura independente, dinâmica, única, que preexiste à estimulação. No renascimento houve um processo de restauração da antiguidade. Lentamente os mosteiros e as prisões foram delegando o cuidado dos pacientes aos asilos que aumentava de números embora o cuidado propriamente dito com o doente ainda estivesse longe de ser satisfatório. Esse período revigorou o espirito humano em todas as áreas da medicina, principalmente foi forçada a rever seu conceito de doença do corpo e da alma. O que marcou o século XVII foi a tônica na experimentação e no desenvolvimento de teorias sobre a doença, o que deixava o paciente sem espaço para ser ouvido. Já durante o século XVIII, o terreno do conhecimento da medicina sedimentou-se e as descobertas foram inevitáveis e precisas. As vacinas e anestesias podem ser consideradas exemplos. A marca do desenvolvimento da medicina no século XIX ficou por conta da mecanização advinda do desenvolvimento industrial, da bioquímica, do uso preciso dos laboratórios. Esse cenário intelectual propiciava a busca de compreensões mais sistematizadas sobre o homem e seu funcionamento físico e mental.

CARPIGIANI, Berenice. PSICOLOGIA: Das raízes aos movimentos contemporâneos. 3a Edição São Paulo: Cengage Learning, 2010.

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