A
partir do pensamento pré-socrático, as perguntas vagarosamente passaram a se
dirigir na direção do sujeito pensante, buscando pontos de apoio na razão, na
percepção e na observação, separando-o do mundo material. O surgimento da
filosofia foi marcado pela inserção do método socrático. Esse foi o primeiro
encontro do Homem-Razão com a subjetividade. Os pré-socráticos já tinham
deixado para a humanidade um valioso alicerce, com base no qual a natureza do
corpo, da alma, da ética e da moral foi implantada e, com Sócrates, a
consciência do significado dos fenômenos instalou-se, definitivamente, no mundo
mental do humano. Para Sócrates, a alma é virtude e conhecimento, um conhecimento
de si mesmo, é uma autoconsciência despertada e é desse conceito que se
determinou a posição ocidental da alma como sede da consciência e do caráter. Quanto
mais próximo da verdade contida na alma, quanto mais perto do conhecimento de
si mesmo, mas longe da ignorância, da maldade e da doença o homem estaria.
Sócrates ia facilitando o desenvolvimento da subjetividade e da crítica,
separando o sistema moral da religiosidade, enfatizando a conduta moral na
ancorada na consciência responsável.
Ele
entendia que se fosse possível ensinar ao homem perceber de forma clara e
inteligente a causa e o resultado de seus atos, talvez bastasse para que
fizesse escolhas éticas e trilhasse um caminho bom. Desenvolveu um método de
conhecimento cujo ponto de partida estava localizado na consciência da ignorância.
É exatamente essa consciência o início para a prática de seu método que se
divide em duas partes, a primeira denominada ironia que consiste na formulação
de uma sequência de perguntas bem articuladas que são formuladas no decorrer do
diálogo sobre um tema proposto, que leva a um processo de desmontagem do
pensamento, até o ponto de contato com o ‘’não saber’’, momento em que se dá a
segunda parte de seu método, denominado de maiêutica, que consiste no trabalho
de dar à luz ideias consistentes. A força do pensamento socrático está na
racionalização presente no modelo de aplicação do seu método, racionalização
essa que leva a pessoa a se despir de pseudoverdades que, porventura, estejam
na base de sua forma de pensar e as quais vão gerando equívocas e falsas ideias
sobre si e sobre a sociedade. No processo ironia-maiêutica que compõe o método,
o homem aproxima-se do seu conhecimento real.
Um
grande precursor do pensamento socrático foi Platão, este cresceu entre
políticos de destaque, em plena efervescência da democracia, convivendo com os
bastidores da vida política de sua época, discípulo de Sócrates durante nove
anos, foi muito influenciado pelo modo de pensar de seu mestre. Mas, ao
contrário de Sócrates, Platão registrava suas ideias, que estão expostas em 36
diálogos, todos apoiados no modo socrático. Nesses diálogos é possível se
aproximar de seu modo de pensar sobre o homem e a sociedade, sobre o ato de
conhecer e a existência individual, sobre a educação e a organização política
da sociedade. Platão defendera que existem duas fontes principais de
conhecimento, uma que se dá por meio do mundo sensível, ou dos fenômenos, e
outra por meio do mundo inteligível, ou das ideias. Sua teoria transita entre
esses dois pontos: o conhecimento que vem por meio do corpo e o que vem por
meio da alma. O corpo, no pensamento platônico, é definido como o túmulo da
alma, isso significa que o conhecimento adquirido por meio das sensações é
fugaz e dificulta a aquisição do verdadeiro conhecimento. O mundo material é ilusório,
passageiro e não se consolida como verdadeiro conhecimento. É necessário
entender que acima desse ilusório mundo sensível está o mundo das ideias, das
essências imutáveis que o homem pode atingir por meio da contemplação e da
depuração dos sentidos, segundo Platão, a alma humana, antes de seu nascimento,
ou seja, da alma se prender ao corpo, já teria entrado em contato com essas
ideias, significa que a alma possui a verdade em si, ela é o princípio do
movimento. Para Platão, o conceito de saúde vinculou-se fortemente à ideia da
relação corpo-alma. A Alma é soberana sobre o corpo e tudo que chegou a
escrever sobre o funcionamento do organismo e sobre as perturbações psíquicas
está apoiado na ideia de que a alma é tripartida em intelecto, razão e desejo
que articulados, garantirão a saúde, portanto, o conhecimento constituiria uma
engrenagem na qual se movimentam intelecto e emoção, razão e vontade,
inteligência e amor.
Outro
precursor dessa linha de pensamento vem ser agora Aristóteles, aluno de Platão,
esse veio a estabelecer critérios de sistematização que caracterizam a sua
força intelectual e, desse modo, ofereceu todo o alicerce para o
desenvolvimento do pensamento científico posterior. Ele tratou da questão da
dicotomia corpo-alma da seguinte maneira, para ele a alma não poderia viver sem
corpo que ela pudesse animar, porque ela está inexoravelmente ligada às funções
desse corpo por meio das sensações, percepções, memórias e etc. Dessa maneira,
a alma não é entendida como uma substância angustiada, presa no corpo, lutando
para se livrar dele e retornar a seu mundo de plenitude e conhecimento. Ao
contrário, a alma é o que assegura a harmonia das funções vitais. Aristóteles
estruturou sua filosofia de maneira diferente de Platão e de Sócrates. Ele fazia
registros de seus experimentos, de suas observações e das aulas que preparava.
Para ele há quatro causas que determinam o ser e o devir das coisas, a causa
formal que seria a forma e a essência das coisas, a causa material ou matéria
que viria a ser aquilo que forma a coisa, a causa eficiente ou motora que seria
então aquilo que provem a mudança e o movimento das coisas e a causa final que
constitui o fim do escopo das coisas e ações.
Da
mesma maneira que Sócrates e Platão, Aristóteles também pretendeu pensar e
compreender a origem das coisas e da vida. A maiêutica de Sócrates e a
dialética de Platão são métodos abertos. Aristóteles rompe esse subjetivismo
impondo um caminho de regras lógicas para conclusões corretas.
Vamos
agora andar um pouco mais no tempo para buscar compreender melhor a força
dialética ‘’corpo-alma’’ que subsidiaram as construções de teorias que
respaldaram a psicologia. Abrindo um
olhar para novas linhas de pensamentos que surgiram ao longo do tempo que
também buscavam compreender o sentido da vida, temos novos núcleos filosóficos
e cada um deles buscou aprofundar, de acordo com seus princípios, a compreensão
do que é o ser humano e quais são suas funções na sociedade. A primeira delas
era Epicurismo, considerada a primeira das grandes escolas helenísticas,
fundada por Epicuro. Sua preocupação com a ética fundamentada no prazer e no
afastamento da dor merece ser destacada, ela praticamente criou a contracultura
por meio de trezentas obras e da fundação de um lugar chamado O Jardim. Nesse
lugar eram realizadas discussões filosóficas sobre critérios da verdade,
validade das sensações, sentido do prazer e da dor, da opinião. Estudava-se
sobre a física, sobre a imortalidade da alma, sobre a ética e a sabedoria. Epicuro
dizia que o prazer não podia ser considerado um mal, dado que mal é aquilo que
causa dor. O homem feliz deve saber escolher sempre prazeres que neutralizem a
dor e reduzam a perturbação do espírito.
Outra
escola foi a Estoicismo, fundada por Zenão, esta pregava que o homem pode
alcançar a verdade e a certeza absoluta e essa é a segurança de que encontrará
a paz de espírito. Ceticismo foi a escola de Pirro e seu pensamento é
considerada uma filosofia de ruptura, um pensamento que assinala a passagem de um
mundo para outro. Seu pensamento dizia que deseja ser feliz deveria entender
que as coisas são ‘’indiferentes, imensuráveis e indiscrimináveis e, por isso,
nem as nossas sensações, nem as nossas opiniões podem ser verdadeiras ou
falsas, portanto, para os céticos, é impossível tentar encontrar o
conhecimento.
Na
escola de Neoplatonismo, cujo nome mais importante é o de Plotino, possui uma
corrente filosófica que pretende voltar à discussão corpo-alma. Tinha a
finalidade de ensinar aos homens a libertar-se da vida deste mundo para
reunir-se ao divino e para poder contemplá-lo até o ápice de uma união
transcendente. A finalidade da nova escola era fortemente religiosa e mística.
Cada
uma das escolas filosóficas manifestava inquietação em relação a esse homem
transformador e em transformação. A consolidação da cultura ocidental é
sustentada por uma base estrutural cujos pilares são: helenismo, judaísmo e
cristianismo. O povo judeu, apoiado pelos princípios do velho testamento da
Bíblia, vive em seu ritual cotidiano a expressão da esperança no Deus
todo-poderoso que, ao criar o universo, o escolhe para ser o povo com o qual
faz a aliança de salvação.
O
povo grego explica o universo a partir de uma base racional e tem a compreensão
de um Deus individual. A ênfase no dualismo corpo e alma, com soberania da alma
é sustentada mediante um princípio originador e impessoal, ou seja, cada homem
responde pessoalmente por seu destino. É possível constatar uma mescla
desordenada de culturas, fés e condutas sociais que gerou um campo propício
para a investida em um processo de sistematização que veio por meio da doutrina
cristã e da criação de métodos pedagogos que tinham a função de organizar o
império Romano.
A
medicina na antiguidade é descrita a partir de uma visão do homem em relação
com a natureza. É importante citar Hipócrates que lentamente foi negando a
intervenção dos deuses ou dos demônios no desenvolvimento da doença e afirmando
que as perturbações do corpo e mesmo as mentais, tinham causas naturais e
exigiam tratamento especial. De uma compreensão mágica a uma compreensão lógica
e subjetiva da doença, passaram-se muitos séculos. O médico foi xamã,
feiticeiro, sacerdote. Foi apaziguador do espírito e, na antiguidade,
desenvolveu uma forma particular de escuta porque a relação do médico com o
paciente caracterizava-se por uma escuta muito particular dos sintomas da
pessoa em seu cotidiano.
Já
na idade média, o pensamento que não era mais sustentado pelas características
da Igreja primitiva, passou a ser por uma lógica institucional que objetivou
sistematizar a doutrina cristã a fim de firmar a soberania político-religiosa
romana, foi, exatamente, a doutrina religiosa que se apropriou dos movimentos
culturais e religiosos determinando drasticamente as relações sociais durante
alguns séculos. A filosofia, suas discussões e exercícios intelectuais sobre a
alma e sobre o homem, sobreviveram algemados ao pensamento da igreja e não
muitos pensadores se destacaram por retomar, rediscutir ou valorizar o
pensamento e a cultura até então desenvolvida pelos gregos. Assim também se
sucedeu com a medicina, que em sua prática deixou dispersar as contribuições de
Hipócrates e Galeno, e logo se misturou às superstições que envolviam o
cotidiano popular, propiciando um retorno à demonologia. O homem era visto como
um local onde os demônios e espíritos batalhavam pelo domínio da alma.
Com
o renascimento, a expressão do mundo interior humano pela arte, pela
literatura, pela ciência explodiu de maneiras impressionantes. Nesse momento
encontramos as reais estruturas para o surgimento da psicologia. Nesse período,
podemos destacar Descartes, um filósofo que conseguiu libertar a investigação
dos pensamentos dogmáticos da igreja. Seus estudos inovavam com a ideia de que
a mente e o corpo, mesmo de naturezas distintas e separadas, sofrem um processo
de interação no organismo, influenciando-se mutuamente. Se a mente possuía
capacidade de perceber e querer, de alguma maneira, deve influenciar e ser
influenciado pelo corpo. A divisão corpo-mente, sedimentada na filosofia,
influenciou o desenvolvimento posterior da vivência e, com relação à
psicologia, o processo de geração de ideias.
O pensamento científico moderno se
desenvolveu com muita rapidez e já no fim do século XVII e início do século
XVIII, surgiram novas vertentes de pensamento, como o positivismo, o
materialismo e o empirismo. O século XVII foi marcado por uma característica
que era a tensão entre opostos irreconciliáveis. Tantos outros filósofos
definem visões de homem e de mundo praticamente antagônicas. Por exemplo,
segundo Lock, o homem nasce vazio e ao ser invadido por estimulações
sensoriais, escreverá sua história de conhecimento, mas já para Spinosa e
Leibniz, o homem traz em si uma estrutura independente, dinâmica, única, que
preexiste à estimulação. No renascimento houve um processo de restauração da
antiguidade. Lentamente os mosteiros e as prisões foram delegando o cuidado dos
pacientes aos asilos que aumentava de números embora o cuidado propriamente
dito com o doente ainda estivesse longe de ser satisfatório. Esse período
revigorou o espirito humano em todas as áreas da medicina, principalmente foi
forçada a rever seu conceito de doença do corpo e da alma. O que marcou o
século XVII foi a tônica na experimentação e no desenvolvimento de teorias
sobre a doença, o que deixava o paciente sem espaço para ser ouvido. Já durante
o século XVIII, o terreno do conhecimento da medicina sedimentou-se e as
descobertas foram inevitáveis e precisas. As vacinas e anestesias podem ser
consideradas exemplos. A marca do desenvolvimento da medicina no século XIX
ficou por conta da mecanização advinda do desenvolvimento industrial, da
bioquímica, do uso preciso dos laboratórios. Esse cenário intelectual
propiciava a busca de compreensões mais sistematizadas sobre o homem e seu
funcionamento físico e mental.
CARPIGIANI, Berenice. PSICOLOGIA: Das raízes aos movimentos
contemporâneos. 3a Edição São Paulo: Cengage Learning, 2010.
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