''Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro.''
Sigmund Freud

terça-feira, 31 de março de 2015

Conhecendo a psicanálise III

A psicanálise é um ofício ousado, pois sua proposta trata da expansão da personalidade, no sentido de tolerar a realidade opressora, sem tentar negá-la através de evasivas psicológicas. A psicanálise não é uma psicoterapia que visa à redução do sintoma, mas sim confrontá-lo e alcançar sua causa primária, no intuito de cortar o mal pela raiz, sendo assim, ela não vem com o objetivo de apagar o incêndio, mas de conhecer o que o provocou. 
O método de investigação psicanalítica procura investigar o inconsciente do sujeito, e a ferramenta usada para isso como a associação livre de ideias, onde se mantem o paciente acordado, utiliza-se de suas forças conscientes, a procura e investigação de sua história, estudando com critério os atos falhos, os chistes e interpretação dos sonhos, sempre com o objetivo de chegar ao inconsciente (CARPIGIANI, 2010).
O método usado no atendimento é a associação livre, que consiste em fazer o sujeito contar o que vier em sua mente. Nas palavras de Freud (1909): ‘’Mandamos o doente dizer o que quiser cônscios de que nada lhe ocorrerá à mente senão aquilo que indiretamente dependa do complexo procurado. ‘’ (FREUD,1909, p. 31). A aplicação desse método pode causar incerteza, tanto por parte do analista, quanto por parte do paciente, porém é algo que se mostra válido em prática, como explica Freud (1909) a seguir:

No emprego dessa técnica o que ainda nos perturba é que com frequência o doente se detém, afirmando não saber dizer mais nada, que nada mais lhe vem à ideia. Se assim fosse, se o doente tivesse razão, o método ter-se-ia revelado impraticável. Uma observação atenta mostra, contudo, que as ideias livres nunca deixam de aparecer. (FREUD, 1909, p. 31).

O material associativo coletado pelo analista servirá de artifício para a interpretação e deve, assim, chegar ao inconsciente. Além da associação livre do sujeito, há também a interpretação dos sonhos e o estudo dos lapsos e atos causais (FREUD, 1909).
A psicanálise detém um olhar especial ao sujeito, sendo assim, confiro a psicanálise uma prática clínica coerente, com sua própria instrumentação e técnicas apropriadas para enfrentar o desconhecido da clínica, respaldando e servindo de apoio à prática do estágio clínico. Nas palavras de Berenice Carpigiani (2010), encontramos esta idéia.

A teoria psicanalítica subsidia teórica e tecnicamente o profissional que trabalha com o ser humano, mas são muitos conceitos, muitas ideias e ainda nos encontramos na periferia do conhecimento psicanalítico. O enfoque no mundo mental deixado pela psicanálise nos ajuda a repensar conceitos de normalidade e patologia. (CARPIGIANI, 2010, p. 116).

Vejo a psicanálise como uma teoria privilegiada sobre a mente humana, nela encontramos realmente um instrumento de investigação científica que nos possibilita a compreensão da psicodinâmica de um sujeito. Apesar disso, a psicanálise não se restringe somente à clínica, havendo ensaios sobre diversos assuntos sociais, políticos e culturais, demonstrando que a psicanálise sai do seu lugar de abordagem psicológica e segue uma linha de pensamento teórico que tem respaldo em muitos assuntos que dizem respeito ao ser humano.

A psicanálise deve possibilitar uma psiquiatria científica no futuro, que não mais se contente em descrever estranhos casos clínicos, evoluções incompreensíveis, e acompanhar a influência de grosseiros traumas anatômicos e tóxicos sobre um aparelho psíquico inacessível ao nosso conhecimento. (FREUD, 1924, p. 244).

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FREUD, Sigmund. CINCO LIÇÕES DE PSICANÁLISE. Worcester, Massachusetts: Clark University, 1909.
CARPIGIANI, Berenice. PSICOLOGIA: Das raízes aos movimentos contemporâneos. 3a Edição São Paulo: Cengage Learning, 2010.
FREUD, Sigmund. RESUMO DA PSICANÁLISE (1924). São Paulo: Companhia Das Letras, 2011.

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