A psicanálise
é um ofício ousado, pois sua proposta trata da expansão da personalidade, no
sentido de tolerar a realidade opressora, sem tentar negá-la através de
evasivas psicológicas. A psicanálise não é uma psicoterapia que visa à redução
do sintoma, mas sim confrontá-lo e alcançar sua causa primária, no intuito de
cortar o mal pela raiz, sendo assim, ela não vem com o objetivo de apagar o
incêndio, mas de conhecer o que o provocou.
O método de investigação
psicanalítica procura investigar o inconsciente do sujeito, e a ferramenta
usada para isso como a associação livre de ideias, onde se mantem o paciente
acordado, utiliza-se de suas forças conscientes, a procura e investigação de
sua história, estudando com critério os atos falhos, os chistes e interpretação
dos sonhos, sempre com o objetivo de chegar ao inconsciente (CARPIGIANI, 2010).
O
método usado no atendimento é a associação livre, que consiste em fazer o
sujeito contar o que vier em sua mente. Nas palavras de Freud (1909):
‘’Mandamos o doente dizer o que quiser cônscios de que nada lhe ocorrerá à
mente senão aquilo que indiretamente dependa do complexo procurado. ‘’
(FREUD,1909, p. 31). A aplicação desse método pode causar incerteza, tanto por
parte do analista, quanto por parte do paciente, porém é algo que se mostra
válido em prática, como explica Freud (1909) a seguir:
No emprego dessa técnica o que
ainda nos perturba é que com frequência o doente se detém, afirmando não saber
dizer mais nada, que nada mais lhe vem à ideia. Se assim fosse, se o doente
tivesse razão, o método ter-se-ia revelado impraticável. Uma observação atenta
mostra, contudo, que as ideias livres nunca deixam de aparecer. (FREUD, 1909,
p. 31).
O material associativo
coletado pelo analista servirá de artifício para a interpretação e deve, assim,
chegar ao inconsciente. Além da associação livre do sujeito, há também a
interpretação dos sonhos e o estudo dos lapsos e atos causais (FREUD, 1909).
A psicanálise detém um
olhar especial ao sujeito, sendo assim, confiro a psicanálise uma prática
clínica coerente, com sua própria instrumentação e técnicas apropriadas para
enfrentar o desconhecido da clínica, respaldando e servindo de apoio à prática
do estágio clínico. Nas palavras de Berenice Carpigiani (2010), encontramos
esta idéia.
A teoria psicanalítica
subsidia teórica e tecnicamente o profissional que trabalha com o ser humano,
mas são muitos conceitos, muitas ideias e ainda nos encontramos na periferia do
conhecimento psicanalítico. O enfoque no mundo mental deixado pela psicanálise
nos ajuda a repensar conceitos de normalidade e patologia. (CARPIGIANI, 2010,
p. 116).
Vejo a psicanálise como uma
teoria privilegiada sobre a mente humana, nela encontramos realmente um
instrumento de investigação científica que nos possibilita a compreensão da
psicodinâmica de um sujeito. Apesar disso, a psicanálise não se restringe
somente à clínica, havendo ensaios sobre diversos assuntos sociais, políticos e
culturais, demonstrando que a psicanálise sai do seu lugar de abordagem
psicológica e segue uma linha de pensamento teórico que tem respaldo em muitos
assuntos que dizem respeito ao ser humano.
A psicanálise deve
possibilitar uma psiquiatria científica no futuro, que não mais se contente em
descrever estranhos casos clínicos, evoluções incompreensíveis, e acompanhar a influência
de grosseiros traumas anatômicos e tóxicos sobre um aparelho psíquico
inacessível ao nosso conhecimento. (FREUD, 1924, p. 244).
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FREUD, Sigmund. CINCO LIÇÕES DE PSICANÁLISE. Worcester, Massachusetts: Clark
University, 1909.
CARPIGIANI,
Berenice. PSICOLOGIA: Das raízes aos movimentos contemporâneos. 3a
Edição São Paulo: Cengage Learning, 2010.
FREUD, Sigmund. RESUMO DA PSICANÁLISE (1924). São Paulo:
Companhia Das Letras, 2011.
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